É ingenuidade pensar que nesta semana tem outra coisa senão o julgamento do Lula

Lulalah
De esquerda? Quem? Eu?

Mas tenho algumas sugestões-alternativas. A morte da bezerra, por exemplo. Ou o flamejante início dos campeonatos estaduais em todo o Brasil – por que não? Ou, quem sabe, o sexo dos anjos ou a virgindade de Maria – não pode ser não?

Obviamente que ao contrário daquilo que dizem petistas e lulistas (existem diferenças entre eles sim) e simpáticos outros esquerdistas o mundo todo não está de olho no julgamento do dia 24, nem para cá virão miríades de chefes de estado, de sindicalistas importantes (sic) e de intelectuais e artistas badalados.

Isso tudo não passa de um enorme exagero, e como todo exagero há aí um bocado de alucinação.

Mas é correto dizer, porém, que para nós é o acontecimento mais importante das últimas décadas, se ombreando ao suicídio de Vargas e ao golpe militar de 1º de abril de 1964.

Estou exagerando?

Estou não!

Como costumo dizer por aqui e alhures, gostemos ou não de Lula e do PT ambos são as “coisas” mais importantes que aconteceram no país desde há muito e muito anos, quer dizer, há décadas.

É pouco provável que Lula seja o “maior estadista” que o Brasil já teve, ou que pelo menos Lula seja apenas um estadista, como defendem, irrefletidamente, lulistas e petistas.

Mas vá lá! Um exagerozinho aqui e acolá não fara mal a ninguém, até porque ninguém leva esse tipo de exagero a sério mesmo, nem os próprios exagerados.

Com o julgamento, em segunda instancia, lá em Porto Alegre (acho que POA é um bocado mais importante que o tribunal onde Lula será julgado, então a identificação fica com a capital gaúcha mesmo), mas voltando, com o julgamento de Lula lá em Porto Alegre estão em jogo varias coisas, algumas delas a morte precipitada de Lula e o fim do PT.

Nada disso vai acontecer: nem Lula vai morrer, ao contrário, vai permanecer na ativa, e nem o PT vai acabar.

Em tese Fernando Haddad, que coordenará a campanha de Lula à presidência, em 2018, tem um pouco de razão – apenas um pouco: as esquerdas deverão se repensar a partir de agora.

Na verdade já deveriam ter começado esse repensar há um bocado de tempo.

Estão demorando muito!

Outra coisa que se coloca a partir do julgamento é que sem Lula (trata-se de uma possibilidade, enfim) o PT perde força (o que é razoável pensar), abrindo espaço para uma eventual candidatura de direita (dita reacionária).

Não vai acontecer nada disso!

O máximo que pode ocorrer é um fortalecimento do tucanato, com (quem sabe, se sobreviver, o que não é muito provável) Geraldo Alckmin.

E para acabar, segundo ainda petistas e as esquerdas em geral, a justiça brasileira sairá arranhada do episódio.

Mais ou menos!

A justiça (com o inestimável apoio da Polícia Federal) realmente promoveu algumas conduções coercitivas desnecessárias, arbitrárias e espetaculosas, e, além disso, teve (a justiça, em primeira instância) reformadas várias de suas sentenças, e até alguma delas anuladas ou invertidas.

Mas falar que a justiça (eu detesto a justiça) brasileira terá uma espécie de crise de identidade após o julgamento do Lula é pura alucinação.

Enfim, como no caso do Lula e do PT, goste-se ou não do julgamento não se tem outra coisa para se discutir por aqui.

Então vá relaxando e se aquietando por aí que o mundo não terminará esta semana.

Leia também:

‘Com ou sem Lula, a esquerda terá de se repensar’, diz Haddad – O Estado de São Paulo

O plano do Agora para chegar ao poder: “Queremos influenciar os partidos, mas ficar livres” – El País

Como se perdeu a fórmula do starlite, material que supostamente resistiria até à bomba nuclear – BBC Brasil

Da Roma Antiga ao século 20, violência foi fator-chave para reduzir desigualdade, diz historiador –  BBC Brasil

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Carta de George Orwell explica o extraordinário 1984

[Para Noel Willmett

18 de maio de 1944

10a Mortimer Crescent NW 6

Greorge
Reprodução

Caro Sr. Willmett,

Muito obrigado pela sua carta. O senhor pergunta se o totalitarismo, culto ao caudilho etc. estão em ascensão de fato, ressaltando que essas coisas, aparentemente, não registram crescimento aqui na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Insisto que acredito, ou temo, que quando se observa o mundo em sua totalidade, essas coisas estão aumentando. Claro, não restam dúvidas de que Hitler em breve será passado, mas somente à custa do fortalecimento de (a) Stálin, (b) dos milionários anglo-americanos e (c) de todo tipo de fuhrerzinho à la de Gaulle. Para onde quer que se olhe, todos os movimentos nacionalistas, mesmo os que surgiram como forma de resistência ao domínio alemão, parecem assumir formas neodemocráticas, organizando-se em torno a algum tipo de fuhrer sobre-humano (Hitler, Stálin, Salazar, Franco, Gandhi, De Valera e vários outros modelos) e adotando a teoria dos fins que justificam os meios.

Por toda parte, o mundo parece convergir para economias centralizadas, que podem até “funcionar” no sentido econômico do termo, mas que não são democraticamente organizadas, possuindo o pendor a estabelecer um sistema de castas. Acrescente-se a isto o horror do nacionalismo exacerbado e uma tendência à descrença na existência das verdades objetivas, já que todos os fatos têm que se adequar às palavras e profecias de algum fuhrer infalível. Na verdade, em certo sentido, a história já deixou de existir, não havendo mais uma história contemporânea que possa ser universalmente aceita, e as ciências exatas também estarão ameaçadas tão logo não se precise mais do exército para manter a ordem. Hitler pode dizer que os judeus começaram a guerra, e se ele sobreviver, isso passará a ser a história oficial.

Mas ele não pode dizer que dois mais dois são cinco, porque para os objetivos, digamos, da balística é preciso que essa soma continue sendo quatro. Mas se o tipo de mundo que eu temo vier a se tornar realidade, um mundo de dois ou três grandes super Estados incapazes de conquistar um ao outro, dois mais dois será cinco se o fuhrer assim o desejar. E é para aí, até onde posso enxergar, que estamos nos movendo de fato, embora, claro, esse processo seja reversível.

No que respeita à comparativa imunidade da Inglaterra e dos Estados Unidos, digam o que disserem os pacifistas etc., ainda não trilhamos o caminho do totalitarismo, o que é um bom sinal. Eu acredito profundamente, o que expliquei em O leão e o unicórnio, no povo inglês e em sua capacidade de centralizar sua economia sem destruir a liberdade no processo. Mas é preciso recordar que a Inglaterra e os Estados Unidos não foram de fato postos à prova, nenhum deles sofreu uma derrota ou perda severa, e que há alguns maus sintomas que podem desequilibrar os bons. Comecemos com a falta de preocupação generalizada com a decadência da democracia.

O senhor se dá conta, por exemplo, que na Inglaterra de hoje, ninguém com menos de 26 anos vota e que, pelo que se pode constatar, a grande maioria dos que estão nessa faixa etária não dá a mínima para isso? Acrescente-se que os intelectuais são mais propensos a soluções totalitárias que o vulgo. Os intelectuais ingleses, é verdade, se opuseram majoritariamente a Hitler, mas somente a expensas de aceitar Stálin. A maioria deles está perfeitamente pronta para os procedimentos ditatoriais — polícia secreta, falsificação sistemática da história etc. –, desde que a percepção deles indique que isso esteja “do nosso” lado. Na verdade, a afirmação de que não temos um movimento fascista na Inglaterra significa mais que os jovens, no momento, buscam seu fuhrer em outro lugar.

Não é possível assegurar que isso não vá mudar, nem que a gente comum não vá daqui a dez anos pensar como os intelectuais ingleses pensam agora. Eu espero que não, eu chego a acreditar que não vão, mas se for assim, não será sem conflito. Simplesmente afirmar que tudo vai bem, sem identificar alguns sintomas sinistros, apenas ajuda a fazer do totalitarismo uma possibilidade mais próxima.

O senhor também me pergunta se, uma vez que julgo que o mundo está rumando em direção ao fascismo, por que então apoio a guerra. Trata-se de uma escolha entre dois males — creio que toda guerra o é. Eu conheço o imperialismo britânico o suficiente para não o apreciar, mas eu o apoiaria contra os imperialismos nazista e japonês, como o mal menor. Do mesmo modo, eu apoiaria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas contra a Alemanha, por julgar que a URSS não pode, a um só tempo, fugir do seu passado e manter o suficiente dos ideais originais da Revolução Russa, o que faz dela um fenômeno mais esperançoso que o da Alemanha Nazista.

Eu acredito, e é isso o que penso desde que a guerra eclodiu, por volta de 1936, que nossa causa é a melhor, mas que temos que continuar a fazer com que ela evolua, e isso implica um constante exercício crítico.

Sinceramente, seu,

Geo. Orwell]

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To Noel Willmett

18 May 1944

10ª Mortimer Crescent NW 6

Dear Mr Willmett,

Many thanks for your letter. You ask whether totalitarianism, leader-worship etc. are really on the up-grade and instance the fact that they are not apparently growing in this country and the USA.

I must say I believe, or fear, that taking the world as a whole these things are on the increase. Hitler, no doubt, will soon disappear, but only at the expense of strengthening (a) Stalin, (b) the Anglo-American millionaires and (c) all sorts of petty fuhrers° of the type of de Gaulle. All the national movements everywhere, even those that originate in resistance to German domination, seem to take non-democratic forms, to group themselves round some superhuman fuhrer (Hitler, Stalin, Salazar, Franco, Gandhi, De Valera are all varying examples) and to adopt the theory that the end justifies the means. Everywhere the world movement seems to be in the direction of centralised economies which can be made to ‘work’ in an economic sense but which are not democratically organised and which tend to establish a caste system. 

With this go the horrors of emotional nationalism and a tendency to disbelieve in the existence of objective truth because all the facts have to fit in with the words and prophecies of some infallible fuhrer.

Already history has in a sense ceased to exist, ie. there is no such thing as a history of our own times which could be universally accepted, and the exact sciences are endangered as soon as military necessity ceases to keep people up to the mark. Hitler can say that the Jews started the war, and if he survives that will become official history. He can’t say that two and two are five, because for the purposes of, say, ballistics they have to make four. But if the sort of world that I am afraid of arrives, a world of two or three great superstates which are unable to conquer one another, two and two could become five if the fuhrer wished it.1 That, so far as I can see, is the direction in which we are actually moving, though, of course, the process is reversible.

As to the comparative immunity of Britain and the USA. Whatever the pacifists etc. may say, we have not gone totalitarian yet and this is a very hopeful symptom. I believe very deeply, as I explained in my book The Lion and the Unicorn, in the English people and in their capacity to centralise their economy without destroying freedom in doing so. But one must remember that Britain and the USA haven’t been really tried, they haven’t known defeat or severe suffering, and there are some bad symptoms to balance the good ones. To begin with there is the general indifference to the decay of democracy. Do you realise, for instance, that no one in England under 26 now has a vote and that so far as one can see the great mass of people of that age don’t give a damn for this? Secondly there is the fact that the intellectuals are more totalitarian in outlook than the common people. On the whole the English intelligentsia have opposed Hitler, but only at the price of accepting Stalin. Most of them are perfectly ready for dictatorial methods, secret police, systematic falsification of history2 etc. so long as they feel that it is on ‘our’ side. Indeed the statement that we haven’t a Fascist movement in England largely means that the young, at this moment, look for their fuhrer elsewhere.

One can’t be sure that that won’t change, nor can one be sure that the common people won’t think ten years hence as the intellectuals do now. I hope 3 they won’t, I even trust they won’t, but if so it will be at the cost of a struggle. If one simply proclaims that all is for the best and doesn’t point to the sinister symptoms, one is merely helping to bring totalitarianism nearer.

You also ask, if I think the world tendency is towards Fascism, why do I support the war. It is a choice of evils—I fancy nearly every war is that. I know enough of British imperialism not to like it, but I would support it against Nazism or Japanese imperialism, as the lesser evil. Similarly I would support the USSRagainst Germany because I think the USSR cannot altogether escape its past and retains enough of the original ideas of the Revolution to make it a more hopeful phenomenon than Nazi Germany. 

I think, and have thought ever since the war began, in 1936 or thereabouts, that our cause is the better, but we have to keep on making it the better, which involves constant criticism.

Yours sincerely,

Geo. Orwell

Tradução de Carlos Alberto Bárbaro, publicado no site Cult Carioca.

Eu estava lá, então eu vi e testemunhei

Lulinha
Jornal do Brasil

O encontro de Lula com intelectuais e artistas em SP, na Liberdade, na Casa de Portugal, não foi o esperado.

Não diria que foi um fiasco, pois não foi!

O auditório lotou (1.100 lugares) e ainda havia algumas centenas pessoas nos corredores e do lado de fora na avenida Liberdade, nas imediações da Casa.

Esperava-se que o encontro pudesse repetir o que ocorrera no dia anterior, no Rio de Janeiro.

Não repetiu!

Talvez a culpa seja da falta de traquejo, de naturalidade e de entusiasmo do paulista.

Algumas pessoas culparam os “coxinhas” que, aliás, por lá sequer apareceram.

Quem sabe aparecessem e “animassem” a festa petista provocando algum rebuliço digno de registro na imprensa.

Mas também é bastante provável que o discurso petista enteja causando certo enfado, tanto assim que o próprio partido não pensa em repetir esse tipo de evento em lugar algum, até o dia 24 de janeiro, data do julgamento de Lula em Porto Alegre,

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“Pós-verdade: filha do relativismo científico?”

Jardim
Imagem: Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas (detalhe), 1504

[A CTS não se destaca pela coesão, dividindo-se em várias linhagens em disputa. Para nossos propósitos, é suficiente caracterizá-la em termos gerais, dizendo que nela predominam, de uma forma ou de outra, posições relativistas, antirrealistas e irracionalistas. Relativistas porque negam o caráter objetivo do conhecimento científico, e desconstroem a ideia de verdade, passando a admitir o uso do termo apenas entre aspas. O antirrealismo figura da maneira mais direta e explícita na vertente construtivista, centrada na tese de que não apenas o conhecimento científico é uma construção social (o que ninguém de bom-senso contesta), mas também que o objeto do conhecimento, os fenômenos que a ciência procura explicar, são construções sociais. O irracionalismo, por sua vez, consiste na interpretação do desenvolvimento da ciência não como um processo dotado de certa racionalidade, mas como uma disputa de interesses, cujo resultado é fruto da correlação de forças.

As polêmicas entre adeptos da CTS e defensores de posições mais ortodoxas a respeito da ciência têm sido muito acirradas, a ponto de ficarem conhecidas em certa época como “as guerras da ciência”. A literatura produzida é gigantesca, e fortemente interdisciplinar, envolvendo elementos de todas as disciplinas que compartilham o mesmo objeto: a filosofia, a história, a sociologia e a economia – todas, ‘da ciência e da tecnologia’. No que se segue, o propósito não é, naturalmente, fazer um balanço dessa literatura; é algo bem mais restrito, a saber, estudar a CTS à luz de um fenômeno de grande atualidade: a ideia de que vivemos agora na era da pós-verdade.

Em fins de 2016, a empresa Oxford Dictionaries elegeu ‘pós-verdade’ (post-truth) como a palavra do ano. A definição sugerida foi a de que a palavra “tem relação com, ou denota circunstâncias em que fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que apelos a emoções ou crenças”. A escolha foi divulgada alguns dias após a vitória de Donald Trump na eleição de 8 de novembro, e reflete principalmente alguns aspectos de sua campanha – que se mantiveram, ou mesmo se acentuaram depois de sua posse como presidente. Um desses é seu hábito bem conhecido de contar mentiras deslavadas. De acordo com um levantamento jornalístico, de sua tomada de posse até o dia 11 de setembro, Trump proferiu nada menos que 588 mentiras.[1]Outra manifestação do mesmo espírito ocorreu num pronunciamento de uma assessora de Trump, Kellyanne Conway, que introduziu no debate o conceito – muito interessante – de fatos alternativos. Segue a mesma linha a proliferação de notícias falsas (fake news) divulgadas nas redes sociais e, inversamente, a pecha de fake news dirigida por Trump e sua equipe a matérias claramente verídicas publicadas na imprensa.


Muito antes da consagração da palavra, entretanto, já vinha se desenrolando um processo, ao qual o conceito de pós-verdade pode retrospectivamente se aplicar. Trata-se do processo mais relevante no presente contexto, que consiste na perda de credibilidade de itens bem estabelecidos do conhecimento científico aos olhos da população. Os casos mais importantes são o do aquecimento global, cuja existência, ou caráter antropogênico são contestados pelos negacionistas do clima; o da Teoria da Evolução, posta em dúvida pelos adeptos do criacionismo ou do design inteligente, e – com consequências nefastas muito diretas, particularmente nos Estados Unidos – o caso das vacinas, supostamente causadoras de autismo em crianças. Isso sem falar dos adeptos da teoria da Terra Plana, cujo número vem crescendo assutadoramente. Outro tipo de manifestação de perda de credibilidade da ciência é a proliferação de teorias conspiratórias e lendas urbanas, envolvendo total desrespeito pelas evidências. Quanto ao aquecimento global, às mudanças climáticas – ou, como prefere Georges Monbiot, ao colapso climático – creio ser desnecessário ressaltar a gravidade do problema: é o futuro da humanidade que está em jogo.

Voltemos agora à CTS. Um de seus traços, como vimos, é o relativismo, a desconstrução da ideia de verdade, o uso da palavra apenas entre aspas. Daí decorre uma série de questões. Não seria a CTS um movimento pós-verdade avant la lettre? Em outras palavras, não terá a CTS contribuído para o advento da era da pós-verdade? Não terá servido de apoio para o negacionismo do clima? Em tom mais provocativo, não seria a CTS em parte responsável pelo comportamento mentiroso de Trump?

Não me proponho a dar respostas conclusivas a essas perguntas. Vou me limitar a comentar rapidamente alguns textos em que a questão é discutida, para servirem como ponto de partida para uma reflexão mais aprofundada.

O primeiro texto é de autoria de Bruno Latour, foi publicado em 2004, bem antes, portanto, do advento da pós-verdade. Merece ser mencionado em parte pelo prestígio de Latour enquanto liderança do movimento CTS, mas também pela repercussão que teve, e por colocar de maneira muito incisiva as questões que acabei de levantar. Começo com uma citação:

[…] há programas inteiros de doutorado ainda em operação para assegurar que as crianças americanas aprendam, por um caminho difícil, que os fatos são fabricados, que não existe um acesso natural, não mediado, não tendencioso à verdade, que somos sempre prisioneiros da linguagem, que sempre falamos de uma posição particular, e assim por diante, enquanto perigosos extremistas usam o mesmo argumento da construção social para destruir evidências duramente estabelecidas que possam salvar nossas vidas. Será que eu estava errado ao participar da invenção do campo conhecido como estudos de ciência? Será suficiente dizer que não queríamos realmente dizer o que dissemos? Porque me queima a língua dizer que o aquecimento global é um fato, gostemos ou não? […]

Será que eu deveria me reassegurar simplesmente dizendo que os maus elementos podem usar qualquer arma que esteja à mão, fatos naturalizados ou construção social, conforme a conveniência? Deveríamos pedir desculpa por termos estado errados o tempo todo? (Latour, 2004, p. 227)

Latour não é um autor de maneira geral fácil de interpretar, e confesso ignorar se ele posteriormente reinterpretou o que disse nesse artigo. Mas a partir da citação, e de outras passagens do texto, creio poder dizer que ele responde afirmativamente às perguntas referentes à ciência levantadas acima, isto é, que aceita a responsabilidade pelas consequências, reconhecidas como nefastas, das ideias colocadas em circulação por ele e seus colegas da CTS. Cabe aqui o registro de uma ironia da história: depois da tragédia que representaram para Kuhn as interpretações equivocadas da Estrutura das Revoluções Científicas, com todo o impacto que tiveram, dando origem à CTS, atualmente são alguns adeptos da CTS que se veem no mesmo tipo de situação, lamentando as más interpretações de seus escritos, agora por parte de movimentos de direita. Parece um caso em que o feitiço virou contra o feiticeiro. Se Kuhn estivesse vivo, teria ainda mais razões para lamentar o impacto que tiveram suas ideias, claramente oposto a suas intenções.

O segundo texto é o editorial de uma das mais importantes revistas no campo da CTS, a Social Studies of Science, assinado por seu editor Sergio Sismondo. Foi publicado neste ano, já em plena era da pós-verdade. Seu título é simplesmente Post-truth? Divergindo de Latour, o autor nega que a CTS tenha contribuído para o advento da pós-verdade. Como elemento de uma explicação alternativa para o fenômeno, diz ele que “o twittter pode ser parte da dissolução do fato moderno.” (Sismondo, 2017, p. 4) Por outro lado, assim como Latour, ainda que em tom menos enfático, o editorial expressa recuo nas posições relativistas. Desrespeitando a norma de só usar a palavra verdade entre aspas, ele afirma:

Nós da CTS sabemos que a competição epistêmica diz respeito tanto à escolha de quais verdades podem ser consideradas salientes e importantes, quanto às quais alegações podem ser consideradas verdadeiras e falsas, e tais escolhas têm consequências importantes. (Sismondo, 2017, p. 4)

Há, por outro lado, adeptos importantes da CTS que não apenas veem o advento da pós-verdade com bons olhos, mas sustentam que a ciência em grande medida tem esse caráter. Estou me referindo a Steve Fuller, que, a um artigo de opinião de sua autoria publicado no Guardian, deu o título de ‘Science has always been a bit “post-truth” ’. Atribuindo o pioneirismo na defesa de posições relativistas da ciência ao Kuhn d’A estrutura das revoluções científicas (como é tradicional na CTS), diz ele:

O que faz a concepção de Kuhn ser ‘pós-verdade’ é que a verdade não é mais o árbitro do poder legítimo, mas sim a máscara de legitimidade usada por todo o mundo na conquista do poder. A verdade é apenas um recurso – embora talvez o mais importante – num jogo de poder sem fim. Desse ponto de vista, a ciência difere da política apenas pelo fato de que as máscaras dos jogadores raramente são tiradas. (Fuller, 2016a)

Na sequência do artigo no Guardian, publicado em dezembro de 2016, Fuller publicou vários textos acadêmicos sobre o tema, criticando Latour e Sismondi pelo recuo nas posições relativistas[2]. No plano teórico, ele defende, de um lado, a concepção da ciência como um jogo, valendo-se de comparações com o futebol americano. A seu ver, a atitude de pensar a ciência literalmente como um jogo poderá vir a ser a mais duradora contribuição da CTS ao panorama intelectual geral. (Fuller, 2017a) De outro lado, sustenta a concepção do mercado de ideias (marketplace of ideas) como modelo para a escolha entre teorias na ciência. Numa outra intervenção, publicada recentemente na Internet, tendo por título ‘Em defesa da pós-verdade’, Fuller escreve: a verdade “é uma marca (uma grife) sempre em busca de produtos que todo o mundo é forçado a comprar”. (Fuller, 2017c)

Para completar essas indicações, dois artigos de Eric Baker e Naomi Oreskes[3] (2017a e 2017b) contendo críticas das concepções da ciência como um jogo, e como um mercado de ideias, dirigidas particularmente a Steve Fuller. As posições defendidas correspondem bem a minha própria visão das questões em jogo, concordo com todas as teses neles sustentadas. Aprecio especialmente a primeira parte do segundo artigo, em que os autores defendem o veritismo – definido informalmente como a insistência no uso da palavra ‘verdade’ sem aspas. Trata-se de uma proposta de reabilitação, de reintrodução do conceito de verdade no discurso epistemológico, justificada por seu poder explicativo no entendimento da dinâmica dos processos científicos. A seguinte passagem dá uma ideia do teor da argumentação.

O veritismo também ajuda a explicar dois importantes aspectos do consenso científico que Fuller enfatiza. Fuller pensa que nos pegou em contradição por falarmos sobre a “construção” do consenso. Dificilmente. Ao contrário, é difícil entender o processo (social) de construção do consenso na ciência sem um sentido de busca-da-verdade enquanto atributo constitutivo. Se os cientistas não se orientam em relação a um mundo físico e social acessível a todos, a respeito do qual a verdade pode, pelo menos em certa medida, ser conhecida, porque dedicariam tantos esforços procurando persuadir seus colegas e tentando chegar ao consenso? Por que eles até mesmo consideram isso possível? E enfim, qual seria o projeto da ciência? (Baker & Oreskes, 2017b, p. 65-66)

As perguntas colocadas como tema deste ensaio dizem respeito à hipótese de a CTS ter contribuído para o advento da pós-verdade. As considerações apresentadas atestam que no plano abstrato das ideias a hipótese é perfeitamente plausível. Mas isso não significa que seja verdadeira, que a CTS tenha de fato desempenhado esse papel. Outra hipótese é a de que o relativismo da CTS e o fenômeno da pós-verdade sejam ambos fruto de um processo histórico mais profundo. Apenas investigações mais amplas e profundas poderão decidir a questão; no presente contexto, ela fica em aberto.]

Marcos Barbosa de Oliveira – bacharel em Física pela Universidade de São Paulo (USP) (1970). Doutor em História e Filosofia da Ciência pela Universidade de Londres (1981). Livre-docente pela USP (1997). Estágios de pesquisa no exterior nas Universidades de Essex (janeiro a março de 1987), de Bristol (outubro a dezembro de 1994) e na New School for Social Research (setembro a dezembro de 1999). Professor Associado da Faculdade de Educação da USP, Departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação, até a aposentadoria, em agosto de 2014. A partir do mesmo ano, Professor Colaborador junto ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia, da FFLCH-USP. Vice-coordenador do Grupo de Pesquisa “Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia” do Instituto de Estudos Avançados da USP

Publicado em Outras Palavras.

Referências

Baker, Erik & Oreskes, Naomi. It’s no game: post-truth and the obligations of science studies. Social Epistemology Review and Reply Collective 6(8): 1-10, 2017a. https://social-epistemology.com/2017/07/10/its-no-game-post-truth-and-the-obligations-of-science-studies-erik-baker-and-naomi-oreskes/.

–––––. Science as a game, marketplace or both: a reply to Steve Fuller. Social Epistemology Review and Reply Collective 6(9): 65-69, 2017b. https://social-epistemology.com/2017/08/28/science-as-a-game-marketplace-or-both-a-reply-to-steve-fuller-erik-baker-and-naomi-oreskes/.

Fuller, Steve. Science has always been a bit ‘post-truth’. The Guardian, 15/12/2016a. (https://www.theguardian.com/science/political-science/2016/dec/15/science-has-always-been-a-bit-post-truth.

–––––. Embrace the inner fox: post-truth as the STS symmetry principle universalized. Social Epistemology Review & Reply Collective, 2016b. https://social-epistemology.com/2016/12/25/embrace-the-inner-fox-post-truth-as-the-sts-symmetry-principle-universalized-steve-fuller/.

–––––. Is STS all talk and no walk? Social Epistemology Review & Reply Collective, 2017a. https://social-epistemology.com/2017/04/26/is-sts-all-talk-and-no-walk-steve-fuller/.

–––––. What are you playing at? Use and abuse of games in STS. Social Epistemology Review & Reply Collective 6(9): 39-49, 2017b. https://social-epistemology.com/2017/08/21/what-are-you-playing-at-on-the-use-and-abuse-of-games-in-sts-steve-fuller/.

–––––. In defence of post-truth. 2017c. https://iainews.iai.tv/articles/in-defence-of-post-truth-auid-786.

Latour, Bruno. Why has critique run out of steam? From matters of fact to matters of concern. Critical Inquiry 30(2): 225-248, 2004.

Oreskes, Naomi & Conway, Erik M. Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming. Nova York: Bloomsbury, 2011.

Sismondo, Sergio. Post-truth? (Editorial). Social Studies of Science47(1): 3-6, 2017. http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0306312717692076

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[1]https://www.thestar.com/news/world/2017/09/18/daniel-dales-donald-trump-fact-check-updates.html . ‘Donald Trump’s 6 false claims about Asia bring total to 588’. Jornal The Star, do Canadá.

[2]. Fuller (2016b, 2017a, 2017b).

[3]. Em coautoria com Eric Conway, Naomi Oreskes publicou em 2011 Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming. Trata-se de uma denúncia, conclusivamente fundamentada em evidências, das práticas desonestas das indústrias do tabaco e dos combustíveis fósseis. Infelizmente, o livro até agora não foi traduzido para o português. Baseado no livro, em 2014 foi lançado um documentário, dirigido por Robert Kenner. Disponível em https://archive.org/details/Mercadores.da.Duvida-Documentario.2014#. Acesso em 8/1/2018.

Desconhecida desconstrói argumentos de ator global sobre Lula

oSMAR PRADOUma moça que discutiu com ator Osmar Prado, ontem no Rio de Janeiro, acabou por lhe dar uma lição de lógica, que parece ter sido esquecida pelo petista.

O ator disse que ela tinha de provar que Lula era o dono do Tríplex do Guarujá, no litoral de São Paulo.

Ela disse que não!

Que a justiça já havia condenado o ex-presidente e que agora o processo estava correndo em segunda instância. E, por consequência, ela não tinha de provar nada, até porque não é parte envolvida e/ou interessada no assunto.

Raciocínio perfeito, independente daquilo que as pessoas argumentem contra ou a favor de Lula da Silva.