Crise dos combustíveis é culpa da corrupção e da incúria petista e da incompetência temerista

Combu
Foto: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco

Pode parecer sadismo, e talvez seja, ficar olhando e se divertindo um pouco para e com as imensas filas que se formaram nos postos de gasolina nesta manhã.

Se formaram e de nada adiantou porque não demorou muito para que os gerentes dos postos e os frentistas anunciassem que gasolina havia acabado.

Isso também foi bastante estranho porque os postos “fecharam” mais ou menos à mesma hora, pelo menos aqui na região de Cotia, o que parece ter sido uma movimentação orquestrada.

Mas como não tenho certeza disso fico apenas com mais esta teoria da conspiração.

Eu não tenho carro. Já tive, mas não tenho mais.

Pode ser que no futuro eu venha a ter outro, mas isso é bastante improvável.

Então dá pra eu observar e me divertir à farta sem qualquer tipo de culpa.

Nunca gostei muito de carro. Demorei para comprar um, e ao longo dessa minha vida, que não é curta, apenas tive três veículos.

Longe de mim ser um ambientalista de carteirinha assinada (como tantos que conheço), mas os automóveis (aqui estou falando “em geral” – carros a passeio, vans, ônibus, caminhões etc.) são um dos principais poluidores do planeta, se não forem os principais.

Também não entro nessa onda esquerdista de culpar apenas o Temer pelo caos, tentando tirar a bundinha da Dilma e do PT da reta, quando foram exatamente a corrupção do período dela e de Lula e o subsidio criminoso aos combustíveis que levaram a este caos atual.

O Temer só entrou no palco em seu papel de incompetente, que, acho, está desempenhando a contento.

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Se você não gosta da seleção brasileira por que irá gostar de política?

Brazil v Argentina - 2018 FIFA World Cup Russia Qualifier
Foto: MdeMulher

Ouço falar (mas não sei se a informação procede, pois não vi nenhuma delas) que pesquisas apontam um grande desinteresse pela copa do mundo na Rússia, e, consequentemente, pelo selecionado brasileiro.

O desinteresse pelo selecionado nacional não é exatamente uma novidade.

Gente mal humorada como eu deixou de “torcer” pelo “escrete nacional” já em 66, e alguns bem antes disso.

Mas tenho notado o crescimento desse desinteresse após a copa do México, em 1970, provavelmente por conta das atrocidades que foram praticadas pela ditadura militar (de 64 a 85).

Muita gente conta uma história difícil de acreditar dando conta de que mesmo presa e torturada torceu avidamente pelo selecionado, mesmo sabendo que Emílio Garrastazu Médici iria usar a Copa “politicamente” e como aval da ditadura.

Creio que essa gente contadora dessas histórias não comprovadas e nem comprováveis tomou–as de empréstimo dos argentinos, que, aliás, naquela copa do mundo não estiveram presentes.

O fato se deu, se é que se deu mesmo, 8 anos mais tarde, durante a copa do mundo disputada na própria Argentina.

Na contramão a esse (suposto?) desinteresse pelo mundial e pelo selecionado nacional haveria um interesse cada vez maior pela política, e, no caso, pelas eleições (gerais) que acontecerão em outubro.

Esta é outra afirmação temerária de se fazer, principalmente sabendo-se que índice superior a 20% (como é de costume) não deverá votar, e índice parecido (ou até maior) deve anular ou votar em branco.

Então é de se perguntar: onde está esse interesse todo pela política e pelas eleições vindouras?

No mundial passado, aqui no Brasil, boa parte da direita e dos conservadores torceu contra o selecionado nacional (só não se esperava, creio, pelos sete a um da Alemanha), e na inauguração de um dos estádios da copa chegou-se a ofender grotescamente a presidente (de então) Dilma Rousseff.

Estigmatizado junto com seu partido, o ex-presidente Lula sequer deu o ar de sua graça nos estádios, ele que se diz fanático torcedor tanto do Corinthians, quanto do selecionado nacional.

Derrubada Dilma, eis que chegamos a um novo mundial e agora quem parece torcer avidamente contra o selecionado nacional são as esquerdas, pois se teme que Temer venha a tirar proveito de um eventual sucesso do “escrete nacional”.

E como é de se esperar, da mesma forma que se proliferaram varias fake news no sentido de que o Brasil “vendeu” a copa passada para assim derrubar mais facilmente Dilma Rousseff, iremos ver a repetições dessa arenga estúpida e sem sentido.

Só que teremos de esperar para sabe com quais versões ela nos chegará

– se o Brasil ganhar a copa, certamente Temer e a direita compraram todo mundo, para assim solidificar e justificar o “golpe”;

– se o Brasil perder, certamente as esquerdas, via PT e Lula, compraram todos os jogadores brasileiros visando derrubar Temer e vencer as eleições de outubro.

“A morte da privacidade”

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Ilustração: Epoch Times[
[Encontrei um artigo intitulado “A morte da privacidade“, escrito por Alex Preston e publicado no The Guardian (online), há quase quatro anos. Mantendo a sua actualidade e profundidade de análise, merece ser lido.

O resumo é este:

O Google sabe o que você procura, o Facebook sabe o que você gosta. A partilha é a norma e o sigilo não é tido em conta. Quais são as consequências psicológicas e culturais do fim da privacidade?

Eis algumas ideias fortes:

Chegámos ao fim da privacidade, as nossas vidas privadas, ao contrário das dos nossos avós, passaram para o domínio da vergonha e do segredo. 

Através de muitas pequenas concessões que fomos fazendo progressivamente, destruímos direitos e privilégios pelos quais gerações anteriores lutaram, minando, assim, as bases da nossa personalidade. 

Chegámos a um ponto em que a maioria de nós aceita que as interacções sociais, financeiras e, até, sexuais ocorram pela internet e que alguém, em algum lugar, assista. Na verdade, tudo o que fazemos aí é impulsionado por fórmulas matemáticas complexas, que são invisíveis e misteriosas. 

Quando tomamos alguma consciência disto, sentimos uma nova forma de inquietação: estamos a ser investigados, processados e manipulados por via de uma inteligência artificial que tem por trás a inteligência humana.

Um exemplo é o projecto DRIP (Retenção de Dados e Investigações) no Reino Unido, que obriga as empresas que recolhem informações dos seus clientes a retê-las e armazená-las, podendo a polícia e o governo solicitá-las.  

Em geral, a princípio, observamos horrorizados este tipo de iniciativas, mas depressa passamos ao cinismo, pois temos ideia de que qualquer protesto da nossa parte será inútil. 

Importa perguntar: qual é o impacto pessoal e psicológico dessa perda de privacidade? Que protecção legal é oferecida a quem deseja defendê-la? 

Talvez seja tarde demais para fazer essa pergunta, pois chegámos a um momento em que o nosso quotidiano ultrapassou a ficção, ultrapassou as distopias, ultrapassou o “e, se…”. 

Recordemos, Yevgeny Zamyatin que concebeu, no seu romance We, de 1921, um “one state”, uma sociedade transparente sem privacidade. Seguem-se Orwell, Huxley, Bradbury, Atwood e outros que elegeram a usurpação da privacidade como um dos principais “ingredientes” do futuro totalitário. O romance The Circle, de Dave Eggers publicado em 2013, pinta um retrato de uma América sem privacidade: um império assente na internet pesquisa e controla a vida de todos, confiando na adesão ao seu lema: “Segredos são mentiras, compartilhar é cuidar e privacidade é roubo”. A heroína acaba por se desintegrar sob a pressão do escrutínio, tornando-se uma das hordas obedientes e sem rosto. Um outro romance recente – Meatspace, de Nikesh Shukla, publicado em 2014 – que explora a fusão das esferas do privado e do público, começa com as seguintes palavras da personagem principal, um escritor solitário cuja única ligação ao mundo é a internet: “a primeira e última coisa que faço todos os dias é ver o que estranhos estão dizendo sobre mim”. 

O nosso pensamento vai no sentido de julgar como suspeita qualquer coisa que se mantenha longe do olhar público, de modo que, menos alguns de nós, não querendo ser vistos como suspeitos, aceitam “partilhar” o que é privado. 

Mas talvez haja a razão mais importante que nos leva a ceder a essa “partilha” não seja, como alguns defendem, sermos  dóceis  ou ignorantes, incapazes de ver a complexa teia de interesses, sobretudo comerciais, que nos enredam; talvez seja porque entendemos perfeitamente a transacção que está em jogo. Ou seja, queremos manter a internet gratuita e sabemos que as empresas ganham dinheiro com algo que estamos dispostos a dar em troca, a nossa privacidade. Trocamos a privacidade pela riqueza de informações que a internet nos oferece, pela conveniência das compras on-line, pela aldeia global dos media. 

Essa troca leva-nos a aceitar o efeito normalizador da vigilância. Há uma auto-verificação do nosso comportamento quando sabemos que estamos sendo vigiados. É o “panóptico” de Jeremy Bentham, um modelo para as cadeia onde um único guarda podia observar uma prisão inteira, não importava se o guarda estava ou não a observar, a mera possibilidade de estar seria suficiente para garantir o cumprimento da norma. 

É neste ponto que nos encontramos, sob uma vigilância que pode parecer benigna, mas que denota um poder sombrio e controlador sobre todos. 

A mensagem subliminar que passa é se queremos mesmo manter algo privado, devemos tratá-lo como um segredo, mas de um modo semelhante ao que a personagem de 1984, Winston Smith, fez: “Se quiser manter um segredo, deve escondê-lo de si mesmo”. 

Aqui reside o maior risco de invasão da privacidade, desvalorizado por aqueles que aceitam alegremente os tentáculos da corporação entre as empresas, os media e os estados. Recorrendo a Don DeLillo, no seu livro de 2010, Point Omega, “você precisa saber de coisas sobre si que os outros não sabem. É o que ninguém sabe sobre você que permite que você se conheça”. 

Negando-nos o acesso aos nossos próprios mundos internos, desistimos daquilo que nos eleva acima da mera sobrevivência, daquilo que nos torna humanos. 

Perguntei a Josh Cohen por que precisamos de privacidade na nossa vida, a sua resposta foi um aviso: “precisamente porque a privacidade garante que nunca somos totalmente conhecidos pelos outros ou por nós mesmos, a privacidade constitui um abrigo para a liberdade, para a imaginação, para a curiosidade e para a auto-reflexão. Portanto, defender o eu privado é defender a própria possibilidade de vida criativa e significativa”.]

Publicado em De Rerum Natura.

É preciso buscar outro modo de fazer política

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Alexandre Costa / Foto: Arquivo Pessoal

Em entrevista à IHU/Unisinos, Alexandre Araújo Costa diz que frente às “necessidades do Antropoceno e a época das tecnologias digitais urgem um outro modo de fazer política”.

Veja, abaixo, o texto na integra.

[Uma análise sobre o futuro e a relevância das esquerdas na política brasileira precisa reconhecer a “existência de algumas conquistas sociais em 13 anos de governo encabeçado pelo maior partido de esquerda brasileiro”, mas também necessita “colocar o dedo na ferida” para verificar as consequências da política do “ganha-ganha” e das apostas econômicas e ambientais feitas nos últimos anos, pondera Alexandre Araújo Costa na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

“A política de ganha-ganha, de benefícios para os andares de cima e de baixo só encontrava sustentação numa conjuntura de preços elevados das commodities (minério de ferro, petróleo, soja). Portanto, além do risco econômico de manter tamanha dependência da pauta de exportações (o caso venezuelano é trágico nesse sentido), o custo ambiental disso é gigantesco”, afirma.

Crítico das políticas desenvolvimentistas dos governos petistas, Costa avalia que elas implicam na “negação de outros modos de vida, de imposição da ‘transformação do índio em pobre’”. E acrescenta: “Esse pensamento de bandeirante é que tornou possível vir das mãos de governos que se reivindicaram de esquerda a liberação dos transgênicos, a aposta nos combustíveis fósseis e a ênfase no pré-sal, a ampliação desmedida do uso de água para irrigação e que deixou Mariana e Belo Monte como tristes cicatrizes”.

Na avaliação dele, a reinvenção da esquerda na política “precisa se dar a partir de uma reorientação profunda de programa e estratégia, adaptados às necessidades do Antropoceno e da época das tecnologias digitais, de fato olhando para o futuro, mas também prestando conta do passado, do peso dos cinco séculos de etnogenocídio e de escravidão contra as populações indígenas e africanas, de uma cultura que reproduz as discriminações e opressões diversas. Também se trata de reorientar profundamente forma organizativa e métodos, no modo de fazer política”. Nesse sentido, explica, talvez “a contribuição possa se dar principalmente a partir de um programa baseado na lógica do Programa de Transição, mas profundamente reelaborado. Que parta do combate aos privilégios dos de cima e de reformas essenciais, como reforma tributária, reforma agrária, reforma urbana, demarcação de terras indígenas, transição energética etc. e que, com base na mobilização e organização populares, construa um contra poder”. Mas adverte: “Embora possamos falar de esgotamento de um determinado modelo de esquerda, isso não significa que esquerdas renovadas não possam apontar para esse caminho. Pelo contrário”.

Alexandre Araújo Costa é professor da Universidade Estadual do Ceará. Formado em Física, Ph.D. em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Estado do Colorado, com pós-doutorado na Universidade de Yale. Foi um dos autores principais do primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Militante ecossocialista e ativista climático, edita o blog O Que Você Faria se Soubesse o Que Eu Sei e é um dos coordenadores do fórum de articulação Ceará no Clima.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que balanço faz da trajetória das esquerdas no país nos últimos anos?

Alexandre Araújo Costa – Existem diversos aspectos, complexos por sinal, a serem incluídos num balanço da esquerda brasileira, ou melhor, das esquerdas, no plural mesmo.

O primeiro aspecto, e isso precisa ser enfatizado, é que a experiência demonstrou que qualquer avanço social, qualquer melhoria mínima nas condições de vida do “andar de baixo” vai enfrentar resistência das classes dominantes. Fundada sobre genocídio indígena e sequestro e escravidão de povos africanos, a elite brasileira segue escravista e autoritária, avessa a qualquer inclusão.

Dito isto e reconhecendo a existência de algumas conquistas sociais em 13 anos de governo encabeçado pelo maior partido de esquerda brasileiro, há que se colocar o dedo na ferida. A política de ganha-ganha, de benefícios para os andares de cima e de baixo só encontrava sustentação numa conjuntura de preços elevados das commodities (minério de ferro, petróleo, soja). Portanto, além do risco econômico de manter tamanha dependência da pauta de exportações (o caso venezuelano é trágico nesse sentido), o custo ambiental disso é gigantesco.

Essa conciliação de classes, que vai muito além dos acordos eleitorais com partidos representantes dos interesses das empreiteiras, do agronegócio, dos bancos, das mineradoras etc., também se deu no nível direto, econômico. É terrível constatar que o favorecimento escancarado desses setores ampliou-se nos governos petistas. E, claro, deu-se às custas do sacrifício de uma agenda de reformas e transformações profundas: reforma agrária, demarcação indígena, reforma tributária, democratização da mídia, reforma política etc.

Especialmente é lamentável, é trágica a permanência, na mentalidade de setores da esquerda, de um pensamento desenvolvimentista, de negação de outros modos de vida, de imposição da “transformação do índio em pobre”, tomando por empréstimo Eduardo Viveiros de Castro, enfim de colonizador interno. Aliás, esse pensamento de bandeirante é que tornou possível vir das mãos de governos que se reivindicaram de esquerda a liberação dos transgênicos, a aposta nos combustíveis fósseis e a ênfase no pré-sal, a ampliação desmedida do uso de água para irrigação e que deixou Mariana e Belo Monte como tristes cicatrizes.

IHU On-Line – Por que na sua avaliação o desenvolvimentismo de esquerda é uma tragédia? Por que o caracteriza como um “pensamento de colonizador interno”?

Alexandre Araújo Costa – A tragédia é na verdade dupla. Primeiro porque se baseia num negacionismo, consciente ou inconsciente, dos limites da natureza. A ciência reconhece que a humanidade – de maneira desigual, é claro, com a pegada ecológica dos ricos várias vezes maior – tem hoje o poder de uma força geológica para alterar o ambiente em escala global. No que se conhece por Antropoceno, uma nova época geológica, das chamadas fronteiras planetárias já ultrapassamos marcos seguros em pelo menos biodiversidade, clima, ciclos biogeoquímicos e provavelmente no nível de contaminação por plástico, substâncias tóxicas etc. e estamos próximos ao limite nas demais, incluindo uso de água doce, terra ocupada e acidez oceânica. Quando a expansão do capital é cada vez mais violenta socioambientalmente, a crítica anticapitalista bem como a proposta de sociedade pós-capitalista precisam ser vertebralmente ecológicas.

Segundo porque se materializa num não reconhecimento de outros modos de vida que não o modo predatório baseado na infinita expansão capitalista industrial. Como se o Socialismo fosse a produção destrutiva capitalista convertida de propriedade privada em pública. É uma lógica que, como os economistas e políticos capitalistas, adota como métrica fundamental um PIB que contabiliza produção e venda de armas e não contabiliza tudo que é usufruído de maneira comum, sem relações mercantis, sem moeda envolvida, em comunidades ribeirinhas, sertanejas, quilombolas e indígenas.

É o que faz com que pessoas de esquerda se refiram a essas comunidades e povos como “pobres em terra rica”, perigosamente flertando com uma política “socialista” de empobrecimento da própria natureza. É a base das ilusões sobre obtenção de recurso econômico a partir da exploração do petróleo do pré-sal, ignorando o fato de que não há “CO₂ de esquerda” e de tantas outras.

IHU On-Line – Como as esquerdas entendem e tratam a questão ambiental no Brasil?

Alexandre Araújo Costa – Conectando com a pergunta anterior, digo, lamentando, que as esquerdas em sua maioria ainda percebem o meio natural com um oponente a ser conquistado, explorado e exaurido. E que é do crescimento econômico baseado nessa exploração que advirá a riqueza para a classe trabalhadora. Ledo engano. Não há Socialismo em terra (Terra) arrasada.

Mas outros setores, ao meu ver, estão dando seus primeiros passos no debate. Em geral sob uma consigna geral do Ecossocialismo, dialogam com o ecossistema de saídas ecológicas, que combina também as ideias de decrescimento justo, de buen-vivir, de direitos da Mãe-Terra etc. E isso abre caminho para esses setores ocuparem um novo nicho, não abdicando das tradições melhores da esquerda (clareza da oposição de classe e da necessidade de superação do capitalismo e entendimento da necessidade de mobilização de massas, por exemplo), mas revisitadas para as condições de crise ecológica global.

IHU On-Line – O que significa ser e fazer esquerda no Brasil hoje? Qual é o seu diagnóstico sobre a possibilidade de reinvenção das esquerdas brasileiras na política neste momento?

Alexandre Araújo Costa – O conceito genérico de esquerda pressupõe a afirmação de um conjunto de valores, de uma concepção de mundo baseada na igualdade. Creio que isso permanece em certa medida atual, mas especialmente hoje em dia, por esse guarda-chuva ser demasiado amplo, é provavelmente melhor usar “esquerdas”, no plural mesmo. Afinal não apenas na questão ecológica e nos critérios para alianças, mas nas pautas do combate ao machismo, racismo e homofobia (e no entendimento ou não de como elas se articulam com a exploração de classe), nos métodos e formas organizativas etc., há muitas diferenças.

Para falarmos da reinvenção das esquerdas no Brasil, precisamos fazer um balanço muito sério, duro, mas também sereno, da derrota política da esquerda hegemônica para a direita, processo que não se iniciou em 2016 ou, pior ainda, em 2013 como alguns tentam atribuir. Também não é um balanço que possa ser resumido na palavra “traição de classe”.

Sim, é preciso condenar os acordos por cima com o que há de pior na política burguesa, de Sarney a Maluf, de Sérgio Cabral a Lobão e Eunício Oliveira. É preciso não deixar sombra de dúvidas sobre o quanto a direita se fortaleceu politicamente ao se fortalecer economicamente durante os governos petistas, sendo talvez o agronegócio e sua bancada ruralista a expressão máxima disso.

Mas acredito também que houve um processo erosivo começado antes mesmo da primeira eleição de Lula e que se aprofundou a partir dela, de burocratização, captura da energia dos movimentos sociais para as instituições de Estado, uso de métodos e práticas viciados, despolitização, redução de capilaridade social, desatenção para com as redes sociais e até despreparo para lidar até com a transição geracional. Os e as jovens de hoje cresceram sob governos petistas e lamentavelmente isso abre flanco para crerem que é “culpa da esquerda” o quadro de desesperança e desalento que sobre eles e elas se abate.

A reinvenção da esquerda precisa se dar a partir de uma reorientação profunda de programa e estratégia, adaptados às necessidades do Antropoceno e da época das tecnologias digitais, de fato olhando para o futuro, mas também prestando conta do passado, do peso dos cinco séculos de etnogenocídio e de escravidão contra as populações indígenas e africanas, de uma cultura que reproduz as discriminações e opressões diversas. Também se trata de reorientar profundamente forma organizativa e métodos, no modo de fazer política.

IHU On-Line – Nesse sentido, em que pontos fundamentais as esquerdas deveriam avançar no seu modo de fazer política?

Alexandre Araújo Costa – Método não é apenas forma. É conteúdo também. Por isso na minha opinião, para os dias de hoje, de uma sociedade globalizada e conectada à internet, sob crise ecológica global, com movimentos novos do tipo “indignados” e “occupy” emergindo, com a disputa das redes sociais, tendo de enfrentar o apelo ao consumo e ao individualismo, transformações ideológicas e políticas enormes, precisamos mais do que resistir, nos repensar, nos reequipar e nos reinventar.

Afinal o anacronismo e a inadequação não pesam apenas sobre as esquerdas mais moderadas, seus métodos demasiado institucionais e a lógica de conciliação de classes. Ela permeia – em alguns casos até de forma mais aguda – os setores de esquerda radical ou que se reivindicam revolucionários.

A noção de “dirigir a classe” a partir de um “partido de vanguarda”, altamente centralizado, e que “introduz a consciência a partir de fora”, por exemplo, parece muito mais campo fértil para disputas miúdas, emergência de chefetes ególatras etc. É preciso superar a ilusão do controle.

Ao invés da inspiração na organização fabril, devemos buscar inspiração nas estruturas complexas da natureza, como as correntes do oceano e os ventos ou como os próprios ecossistemas: fluidos, adaptativos, enérgicos, vivos e diversos e por isso mesmo muito mais poderosos. A luta de massas e os processos revolucionários são fluidos e caóticos: despertam criatividade, divergências, diferenças, choques e estranhamente progride em meio a esse (aparente) caos.

Enfim, se a organização política de esquerda é uma “amostra grátis” do poder que almejamos construir, um poder popular, de baixo, que abra caminho para superação do próprio Estado, nossas organizações têm de ser construídas desde já mirando esse paradigma. Têm de ser associações de ativistas, militantes e colaboradores livres, com a mais ampla democracia, horizontalidade, poder de decisão distribuído, acesso amplo e irrestrito à informação, conhecimento de causa construído com base nesse acesso e no acesso às ferramentas para análise crítica, uso de plataformas em rede, autonomia e iniciativa sem medo de ser tolhido pelo burocrata de plantão, generosidade para com o erro, solidariedade no acerto, capacidade de adaptação, reconhecimento, no debate da preponderância de evidências independente de se a favor ou contra sua opinião inicial, na gestão coletiva, corresponsável e ao mesmo tempo descentralizada e globalmente harmônica.

IHU On-Line – Que tipo de contribuição as esquerdas ainda podem dar para projetos futuros para o país? Na sua avaliação, é possível perceber um esgotamento de um modelo de esquerda ou ainda há um caminho à esquerda?

Alexandre Araújo Costa – Como mencionei antes, prefiro pensar em “esquerdas”, numa “ecologia de esquerdas”, com espaço para expressar, discursiva e praticamente, acordos e diferenças. Dito isto, embora boa parte das esquerdas não se mostre capaz de lidar com os desafios do século XXI, não vejo como não vir do lado esquerdo soluções para nenhum desafio posto hoje: do aquecimento global à erradicação do trabalho escravo, da superação da ordem patriarcal às consequências da crescente automação. Daí, embora possamos falar de esgotamento de um determinado modelo de esquerda, isso não significa que esquerdas renovadas não possam apontar para esse caminho. Pelo contrário.

Assim, acredito que a contribuição possa se dar principalmente a partir de um programa baseado na lógica do Programa de Transição, mas profundamente reelaborado. Que parta do combate aos privilégios dos de cima e de reformas essenciais, como reforma tributária, reforma agrária, reforma urbana, demarcação de terras indígenas, transição energética etc. e que, com base na mobilização e organização populares, construa um contrapoder. E que por meio deste e de transformações metabólicas que envolvam agroecologia, recuperação de ecossistemas, matas, nascentes, leitos de rios, agricultura urbana, permacultura, sistema de energia renovável descentralizada, ecocidades, ecovilas e demais comunidades intencionais etc., abra caminho para outra sociedade.

 IHU On-Line – Qual é a situação das esquerdas neste ano de eleições presidenciais? Na sua avaliação, a tendência é que haja uma fragmentação das esquerdas nestas eleições ou uma união em torno de algum projeto? Dado a trajetória das esquerdas nos últimos anos, quais são suas chances reais nas eleições deste ano?

Alexandre Araújo Costa – Até pela diversidade de projetos, não gosto do termo “fragmentação” para caracterizar a existência de mais de uma candidatura no guarda-chuva amplo que possa ser considerado de esquerda. Por exemplo, a candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara é uma expressão para lá de fundamental nesse contexto de reorganização das esquerdas, justamente por ser a mais aberta aos debates que apresentei, de alternativa ecológica, de vínculo com os movimentos sociais etc. Afinal, Sonia e o próprio Guilherme têm feito duras críticas ao “modelo de desenvolvimento”, além de serem expressões públicas de dois movimentos muito ativos na conjuntura recente: dos sem-teto e dos povos indígenas.

Obviamente as possibilidades das esquerdas serão limitadas pelo avanço do conservadorismo. Mas de outro lado podem se ampliar em função da crise econômica explícita, da maneira nítida como o ônus dessa crise tem sido jogado sobre as maiorias sociais a partir do governo golpista de Michel Temer. Essas possibilidades se ampliam também se mantivermos um otimismo contido e inteligente e a perseverança em dialogar com a população.

Evidentemente saber se movimentar, sem limitar a expressão das diferenças, para barrar o avanço conservador, especialmente em sua forma mais truculenta, neofascista, também precisa estar na agenda, assim como tentar incidir sobre a composição do Congresso Nacional.

É nesse sentido, como ambientalista e militante das causas socioambientais e também como trabalhador da ciência e da pesquisa, que coloquei meu nome à disposição do PSOL para disputar uma vaga na Câmara Federal. Nos EUA, em função da posição anticiência institucionalizada na administração Trump e no Congresso (especialmente o negacionismo climático), cientistas estão colocando seu nome na disputa eleitoral. Então por que não aqui?]

Ler nem sempre ajuda alguém que está precisando de muita ajuda

Hei
Reprodução

O primeiro livro que eu vi em minha casa foi “Hei de Vencer”, de Arthur Riedel, que o publicou no início dos anos 50 ou mesmo na década de 40.

As suas primeiras edições (o livro fez, à época, um razoável sucesso) foram da editora Pensamento, ligada ao Círculo Esotérico do Pensamento.

O livro era de minha mãe e seu pai, o seo “Bepe” (José Boschetti), tinha ligações com o círculo místico.

O autor da obra era Arthur Riedel, um paulistano nascido em 27 de maio de 1888 e vice-presidente do Supremo Conselho Esotérico.

Provavelmente meu avô a tenha presenteado com a obra antes de morrer. Ele faleceu em 1955, dois anos depois de Riedel.

O autor da obra era, como se vê, ligado ao esoterismo e costumava receber em casa diversas pessoas para discutir o assunto e refletir sobre ele.

Pelo que sei meu avô nunca participou desses encontros e creio que nem das reuniões do Círculo Esotérico, limitando-se a comprar alguns de seus livros e outras publicações quaisquer.

Mística, minha mãe costuma ver feitiçarias em todo canto, temia despachos, pedia socorro a “macumbeiros” (sic), rezadores e benzedores com certa constância.

Mais tarde, quando deixou o catolicismo e migrou para uma igreja evangélica passou a ler compulsivamente a bíblia.

Leu-a várias vezes antes de perder parcialmente a visão e me presenteou com um de seus exemplares; os outros foram “tomados emprestado, mas nunca devolvidos” por uma de suas empregadas também evangélica.

Meu pai, ao contrário, nunca teve um livro sequer.

Ele sempre foi um sujeito meio chulo, algo grosseiro, avesso aos avanços da técnica e do conhecimento, enfim, da modernidade.

Em sua defesa, lembro que ele lia a Última Hora paulista e vez ou outra, quando eu ainda era pequeno, me levava ao cinema, mas a sua preferência era por filmes de bangue-bangue e alguns “capa e espada”.

Ele fazia jus à valentia que sempre procurou externar.

Sem muita certeza, até porque sempre foi muito difícil tirar alguma confissão e reflexão dele, creio que meu pai, até por ancestralidade, vivia ainda imerso no bandeirantismo paulista.

Minha mãe teve irmãos e irmãs. Que me lembre nenhum deles, nem cunhados e nem cunhadas, tiveram contatos mais íntimo com algum livro.

Portanto, a dona Elvira, minha mãe, seguiu, pari passu, e sozinha, o senhor José Boschetti, o pai, sempre ávido por leitura e que professava uma religiosidade particularmente mística, o que, por suposto, tornava a sua vida caótica e confusa.

Onde estávamos enquanto a ditadura nos matava?

Bolsobra
Reprodução

Os veículos de comunicação e a academia estão correndo para ajustar a nossa história após a revelação da CIA (a agência norte-americana) dando conta de que Ernesto Geisel não apenas estava ciente como ainda autorizava a morte de opositores ao “regime”.

Estava essa gente aonde, pois no quarto livro (“ditaduras”) de Elio Gaspari a informação já estava contida.

Mais desatentos ainda estão alguns (supostos) esquerdistas que esperam vivamente ansiosos para o tempo em que a CIA irá revelar o que eles chamam de golpe que levou Lula à prisão em Curitiba.

Trata-se de uma espera no mínimo esdrúxula, pois não são esses mesmos (supostos) esquerdistas quem denunciam as tramóias (seriam golpes ou fraudes também?) da CIA “contra os interesses nacionais” (sic).

Não devemos, no entanto, nos vexar com essas contradições todas, até porque tanto os meios de comunicação quanto a academia são bastante preguiçosas, ao ponto de sempre esperarem por alguém que lhes derrube no colo algumas informações relevantes, capazes de alterar os rumos dos acontecimentos históricos.

Mas aqui vamos, igualmente, reservar um cantinho para as nossas próprias benevolências, lembrando que sempre soubemos, embora não tivéssemos provas, de que a ditadura não apenas estava ciente como autorizava as matanças e as torturas.

Quem mais faria isso?

Éramos meio avoantes, ou como diria minha mãe, andávamos no mundo da lua (portanto, bem antes dos americanos), mas ninguém poderia nos chamar de ingênuos e de desinformados.

Para ficar na mesma história, desde sempre sabíamos das operações da marinha norte-americana na costa brasileira, dando apoio explícito à ditadura militar, e pronta (a marinha norte-americana) para entrar em ação a qualquer momento.

Nos ofendiam vivamente, dizendo que éramos comunistas (veja como o mundo dá voltas para cair sempre no mesmo lugar comum!) e antiamericanos (sic).

Realmente não tínhamos provas da presença da marinha dos EUA, como não tínhamos provas das autorizações de matanças e torturas, mas ninguém poderia nos chamar de ingênuos e de desinformados.

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Renascer
Reprodução

O sacerdote Aldo e eu fomos a uma área alagada do Mato Grosso do Sul, creio que em 1979, onde o governo federal, bem mais tarde, construiu uma ponte ligando o estado ao Paraná.

Não guardei outras referências do religioso católico, apenas que era italiano, mas não sei de que ordem. Poderia chutar que fosse salesiano, mas não tenho certeza.

Ele, sacerdote progressista, era ligado à Teologia da Libertação; eu, leigo não–católico, atuava na Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Nunca alguém me cobrou o fato de eu ser um não-cristão à época, embora houvesse sido alguns anos antes (católico).

Tratava-se de uma enorme área devoluta (algumas pessoas a identificavam como “o pequeno pantanal”) que estava sendo “grilada” por, pelo menos, dois fazendeiros “paulistas”.

Seria uma boa terra para destinarmos aos lavradores sem terra (à época o MST ainda não havia “nascido”).

Na primeira tentativa que fizemos para chegar à área, o “fusquinha” de padre Aldo não conseguiu vencer os diversos bancos de areia que se acumulavam pelas estradas.

Tivemos de pedir a ajuda de madeireiros que transitavam livremente pela região.

Eles amarravam uma corrente no “fusquinha” e o puxavam com aqueles enormes caminhões, mas depois a gente caia mais à frente em um novo banco de areia.

Depois da terceira tentativa desistimos da empreitada antes que “fusquinha” de padre Aldo se desintegrasse.

Alguns dias mais tarde, padre Aldo descobriu que alguns “senhores” iriam para a área e melhor, eles tinham uma caminhonete e estavam dispostos a nos dar carona.

Só tinha um problema: os “senhores” trabalhavam para um dos “paulistas” que grilavam a área que queríamos destinar aos trabalhadores sem terra.

Padre Aldo veio me perguntar se aceitávamos ou não a oferta.

Eu lhe respondi que sim, desde que os “senhores” garantissem o nosso retorno.

Aceitamos!

Um dos rapazes (creio que todos eles fossem mais do que trabalhadores e empregados) ficou encarregado de preparar a nossa “bóia” (comida).

O trajeto era longo e passaríamos o dia todo no local.

No chão, usando gravetos e madeira e equilibrando a única panela disponível, o sujeito preparou-nos um “arroz de carreteiro” como nunca mais encontrei na vida.

O cara podia até não ser trabalhador rural, mas sim pistoleiro, mas o danado cozinhava bem demais.

Escoltados por eles (que não nos perguntaram nada e de nossa parte também não dissemos coisa alguma – mas ninguém era besta para não saber o que um e outro fazia naquelas paragens) vasculhamos toda a área.

Voltamos ao fim tarde quando não se enxerga claramente as coisas e… uma surpresa: pistoleiros ligados ao outro “grileiro” apareceram de supetão, o que causou um enorme mal estar.

Ninguém pegou em armas, mas as armas estavam visivelmente postas e dispostas no ambiente.

Padre Aldo me olhou, me interrogando com os olhos: “e agora? O que fazemos?”

Cinicamente lhe respondi que a partir daquele momento a história era com ele, um sacerdote católico, embora muitas daquelas pessoas não fossem católicas.

Ele titubeou um pouco, mas acabou aceitando o desafio; antes eu ainda o autorizei a revelar minha condição de jornalista – quem sabe essa revelação servisse para alguma coisa?

Padre Aldo, mais calmo e menos assustado, foi hábil, conversou com os dois grupos, serenou os ânimos e pudemos sair sãos e salvos da enrascada.

Só tempos depois racionalizei além daqueles acontecimentos: o que os dois grupos ganhariam se atritando e se matando um ao outro?

E mais: me pareceu também que o grupo que nos levou não teve intenção alguma de nos hostilizar e de nos interrogar.

Essas pessoas são espertas e precavidas, e sabem que o futuro que os aguarda não é dos mais alvissareiros.

Então, quem sabe nesse futuro eles não tenham precisão de se socorrer de uma igreja qualquer ou da própria Teologia de Liberação?