“Grande mídia aproxima-se de uma vitória de Pirro?”

NOTA: antes que o texto comece, acrescentaria que não apenas há um movimento à direta na sociedade, mas igualmente entre a atual militância petista, extremamente despreparada, extremamente desinformada e que se autossustenta de discursos padrões conservadores, e, no mais das vezes, raivosos. Prática, ao que parece, que começa a ser combatida pela presidente Dilma Rousseff e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. (MTS)

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Crédito: Cinegnose
Crédito: Cinegnose

[Ao declarar seu “susto” com o posicionamento da revista “Veja” contra o desarmamento em 2005 no referendo sobre armas, Bárbara Gancia foi uma dos primeiros jornalistas a perceberem uma contradição na grande mídia que vem crescendo desde então: como ser politicamente conservador e ao mesmo tempo liberal nos costumes? O vale-tudo atual da grande mídia de buscar em águas turvas o apoio de setores política e culturalmente retrógrados para desgastar o Governo Federal pode ser uma vitória de Pirro. Serginho Groisman e Jô Soares  estão percebendo isso. E o recente editorial do jornal “Folha de São Paulo” contra o “obscurantismo” do outrora incensado líder da Câmara Eduardo Cunha foi mais um sinal. Para a grande mídia a questão não é apenas política mas trata-se de sua própria sobrevivência diante da tecnologia de convergência que lhe arranca nacos de audiência. Após a vitória final com a terra arrasada, a mídia tradicional encontraria uma nova geração de jovens conectados aos seus dispositivos móveis e Internet e nem um pouco receptivos a uma agenda política baseada no conservadorismo de costumes.

Em 2005, a jornalista Bárbara Gancia percebeu os primeiros sinais de uma tendência de cobertura política da grande mídia que nos anos posteriores só cresceu: a defesa de uma agenda conservadora política e de costumes com uma visão de mundo segregacionista dentro de uma estratégia de vale-tudo para disseminar o ódio contra o Governo Federal e as próprias esquerdas.

“Deu a louca na revista Veja?”, perguntava perplexa a jornalista, ao ver o semanário sair em defesa “histericamente” pela opção do não desarmamento no referendo sobre armas que era realizado naquele momento. “Assino Veja há 20 anos, leio a revista de cabo a rabo e faço parte do grupo que acredita que o governo do PT é um embuste”, afirmava Gancia, sentindo-se traída pelo conservadorismo da Veja que acreditava que andar armado é um direito fundamental do indivíduo.

Em primeira mão a jornalista sentiu a contradição que agora parece ser insustentável para a grande mídia: como ser politicamente conservador e ao mesmo tempo liberal nos costumes?

Após a grande mídia, em um primeiro momento, tentar mobilizar pautas de esquerda contra o Governo Federal para criar situações de desconforto (questão indígena ou causas ecológicas, por exemplo), partiu para o vale-tudo ao aliar-se aos setores político e culturalmente mais retrógrados.

Desde a guerra da revista Veja em 2005 contra a iniciativa do desarmamento da população como medida da diminuição da violência, a grande mídia mergulhou nas águas mais escuras da sociedade brasileira: o apoio à redução da maioridade penal; o entusiasmo com a vitória de Eduardo Cunha para o comando da Câmara dos Deputados que, junto com evangélicos e ruralistas, dificulta as causa LGBT e a liberalização do aborto; crescimento da chamada “bancada da bala” no Congresso etc.

A mídia abriu a Caixa de Pandora

O resultado é que uma espécie de Caixa de Pandora foi aberta: o fenômeno da “direita envergonhada” (presente no Brasil por três décadas desde o fim da ditadura militar) desaparece na polarização política estimulada pela mídia, que ganha as ruas no balaio de gatos em que se transformaram as manifestações anti-Dilma – defesas de uma imediata intervenção militar, paranoia anticomunista (ou “bolivariana”, se quiserem), abaixo-assinados da TFP pelas ruas em defesa de uma suposta ameaça à família brasileira, denúncias sobre as sinistras conspirações de uma “ditadura gay”, a gestação de um “partido militar” ou simplesmente defesas pelo fim de qualquer partido ou sindicato.

O irônico de tudo isso é que os fantasmas libertos da caixa de Pandora se voltam contra a própria mídia que a despertou:

(a) A crise de audiência na novela Babilônia da TV Globo resultante da rejeição de telespectadores e grupos evangélicos motivado pelo beijo de personagens lésbicas em uma atmosfera de intolerância ao liberalismo de costumes;

(b) Novelas esteticamente conservadoras e melodramáticas como Os Dez Mandamentos e Mil e Uma Noites respectivamente das emissoras Record e Band roubam cada vez mais audiência das narrativas mais realistas e liberais da TV Globo;

(c) O reforço diário no telejornalismo da percepção de que o País está à beira do abismo econômico resulta em um tiro no próprio pé com a redução dos próprios patrocinadores.

(d) O telejornalismo monocórdico e de contínuo “baixo astral” com crises, denúncias e ódio faz espectadores jovens migrarem para Internet em busca de informações mais variadas e alternativas.

A cobra engole o próprio rabo

Diante dessa conjuntura que poderíamos chamar da “cobra que começa a engolir seu próprio rabo”, comunicadores e veículos começam a tentar se blindar diante de possível consequências do crescimento do conservadorismo com o qual eles próprios um dia se aliaram:

(a) A resposta do apresentador Serginho Groisman à pergunta “pegadinha” no “Domingão do Faustão” onde argumentou que, apesar da crescente polarização política, deve-se respeitar o voto e a Democracia;

(b) A guinada do apresentador Jô Soares (cujo programa foi, desde a “crise do Mensalão”, um dos veículos da disseminação do ódio anti-PT) que, diante das assustadas “meninas do Jô”, começou a demonstrar indignação contra a “bobagem” do fantasma do bolivarianismo e a sair em defesa do respeito ao voto e críticas a um possível impeachment, culminando com uma entrevista com a presidenta Dilma;

(c) Após o jornal Folha de São Paulo apoiar Eduardo Cunha para a liderança à Câmara dos Deputados e esconder dos leitores a série de inquéritos contra o deputado federal, em editorial recente a Folha denunciou os “abusos” de Cunha num “país de tradições laicas e liberais” que poderiam levar ao “obscurantismo, repressão e preconceitos”.

(d) Após o programa CQC da Band ter embarcado na onda raivosa da mídia em ano eleitoral e ter sofrido críticas nos bastidores da própria produtora argentina dona da franquia (culminando com a saída do apresentador Marcelo Tas), a atração agora tenta desmanchar o mal que produziu: reage a um vídeo produzido por um “hater” (“haters”, pessoas ou grupos que demonstram ódio, racismo ou preconceito nas redes sociais e fóruns) contra haitianos que trabalhavam como frentistas. O irônico é que o vídeo denunciado pelo programa adotava a mesma linguagem que o CQC usou e abusou para intimidar e humilhar personagens social e politicamente mais fracos – sobre isso clique aqui.

(e) Na sua nova temporada o quadro Vai Fazer O Quê? do Fantástico da TV Globo começa a focar principalmente em temas como racismo, homofobia, preconceito e segregação como forma da emissora blindar-se numa  imagem mais liberal.

A contradição do capitalismo cognitivo

A questão que se coloca para a grande mídia não é apenas a necessidade de mergulhar no vale-tudo dos ataques diários ao Governo Federal, mas da sua própria sobrevivência em uma conjuntura onde as tecnologias de convergência (Internet, dispositivos móveis, tabletes etc.) roubam nacos cada vez maiores de audiência.

O problema é que as tecnologias em rede digitais são não apenas disruptivas ao impor um modelo não mais massificado de comunicação, mas também por se basearem no “livre” fluxo global de conteúdos (pelo menos livre nos termos e limites colocados pelas transnacionais de tecnologia) – criam um paradigma diametralmente oposto à segregação, censura, ódio, intolerância, racismo e preconceito nutridos pela antiga direita envergonhada que aspira desde um Estado fundamentalista religioso a uma ditadura militar anti-bolivariana.

O intenso processo de digitalização resultou numa revolução informacional que desarranjou totalmente as antigas formas de produção e distribuição dos bens culturais baseado no velho modelo de controle da indústria cultural. Mas também, por assim dizer, aprofundou as contradições do capitalismo cognitivo ao abrir mais espaços democráticos de crítica, de criação cultural, de diversidade de gênero com um potencial mais crítico que a esfera pública dominada pelas mídias de massas.

Claro que haters, preconceito, racismo e xenofobia estão atualmente disseminados através de redes sociais por meio de trolls e diversas estratégias de provocação e agressões no atual clima de vale-tudo resultante do vácuo de poder do republicanismo omisso do governo petista.

Essa é uma das contradições do atual capitalismo cognitivo, porém a grande mídia sabe que, no caso brasileiro, essa contradição foi estimulada pela sua agenda a médio prazo suicida de procurar a qualquer custo enfraquecer o Governo. E vem conseguindo, como comprovam as últimas pesquisas que estampam a crescente rejeição à presidenta Dilma e ao PT.

Mas os comunicadores da grande mídia como Jô Soares e Serginho Groisman são inteligentes o suficiente para perceberem que essa pode ser uma vitória de Pirro. Após a terra arrasada, a mídia tradicional encontrará uma nova geração de jovens conectados aos seus dispositivos de convergência e nem um pouco receptivos a uma agenda política baseada no conservadorismo de costumes.

Por Wilson Roberto Vieira Ferreira, in Cinegnose.

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