Brasil ainda tem dificuldade em absorver o conhecimento de suas populações tradicionais

Crédito da foto: MST
Crédito da foto: MST

É correto dizer que boa parte das escolas públicas de ensino superior (especialmente as universidades federais e muitas das estaduais) está sim preocupada com o que se identifica como “conhecimentos tradicionais”.

Mas é correto também dizer que a sociedade brasileira em geral, capitalista e ocidental na sua expressão mais clássica, não tem o melhor apreço por benzedeiras, ervateiras, rezadeiras, pajés, xamãs e quetais; por cozinhas, cantos, danças e formas índias e africanas de ser e de viver.

E os governos (aqui em toda sua extensão: federal, estaduais e municipais) também não ajudam muito a quebrar este círculo vicioso.

Embora seja igualmente correto reconhecer que ao final do primeiro governo de Dilma Rousseff ensaiou-se, por iniciativa do Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), uma aproximação entre os saberes – tradicionais e acadêmicos.

Por enquanto não passou de mero ensaio.

Os textos

Abaixo seguem alguns textos (com suas respectivas referências e links para pesquisa) que podem ser referências para quem se interessa pelo assunto.

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“Saberes tradicionais de cura fortalecem a identidade das benzedeiras”

“No Paraná, centenas de detentores e detentoras de ofícios tradicionais de cura vêm se organizando no Movimento Aprendizes da Sabedoria (Masa).”

[Nos últimos anos, muito em decorrência do acirramento dos conflitos com setores ligados ao agronegócio, diversos grupos estão se organizando e se consolidando em torno de identidades coletivas.

A vivência do conflito faz com que passem a se perceber enquanto ente coletivo, e tomem consciência dos elementos comuns que os unem. O processo de construção da identidade coletiva de diversas comunidades tradicionais tem se dado, via de regra, desta mesma forma.

No Paraná, especialmente nos municípios de Rebouças e São João do Triunfo, desde 2008 centenas de detentores e detentoras de ofícios tradicionais de cura vêm se organizando no Movimento Aprendizes da Sabedoria (Masa).

A organização tem desempenhado importante papel na construção e afirmação da identidade coletiva das Benzedeiras, Benzedores, Curandeiras, Remedieiras e Remedieiros, Costureiras e Costureiros de Machucadura e/ou Rendidura, e Parteiras.

Neste curto espaço de tempo, o movimento conquistou vitórias importantes, como a aprovação de leis municipais que reconhecem os ofícios tradicionais de saúde popular e regulamentam o livre acesso à coleta de plantas medicinais nativas no município, ainda que estejam em terras particulares de terceiros.

As benzedeiras, como em geral são conhecidas, também desempenham um importante papel em relação à preservação e incremento da diversidade biológica, já que muitas delas selecionam e cultivam, em suas próprias casas, espécimes de plantas medicinais utilizadas para a prática dos ofícios tradicionais de cura.

Dona Agda, benzedeira do município de Rebouças e uma das lideranças do Movimento no Paraná, acompanhou de perto o processo de organização das benzedoras e benzedores.

“O movimento surgiu com assessores que começaram a fazer reunião. Todo mundo tinha medo, então eles iam nas casas falar sobre as leis, que tínhamos direito e que elas seriam livres para fazer os benzimentos’’, conta.

Os projetos Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil são exemplos de trabalho que se realizaram junto à comunidade, ao realizarem um mapeamento das benzedoras e benzedores nos municípios de Rebouças e São João do Triunfo.

A partir daí, passaram a ser realizadas “reuniões para fazer abaixo-assinado de auto definição. Foram feitos os mapeamentos e saíram as carteirinhas’’. As carteirinhas a que se refere dona Agda são fornecidas pelo município e constituem o direito garantido por leis municipais como forma de reconhecimento do ofício das benzedeiras.

No município de Rebouças está sendo construído, a partir do Decreto Municipal 027 aprovado em maio de 2010, a Comissão de Saúde Popular, com a responsabilidade de elaborar propostas e alternativas para o acolhimento das práticas tradicionais no sistema formal de saúde.

Para Agda, isso “foi bom, porque daí a gente não tem medo, ensina os remédios, faz benzimento… antes denunciavam, e era perigoso ir para cadeia’’.

Ainda hoje, a perseguição – seja pela igreja ou pelos órgãos de saúde, que enquadram as práticas como exercício ilegal da medicina – é um dos principais problemas enfrentados por benzedeiras e benzedores e que contribui com a invisibilidade destas comunidades.

“O meu pai quase foi preso, ele era remedieiro, queriam por ele na cadeia. Se não fosse os amigos ele tinha sido preso’’, conta.

Desmatamento

Outro problema enfrentado pela comunidade é o desmatamento das áreas onde eram extraídas plantas medicinais, por ela chamadas ‘remédio’. Ainda que as benzedeiras realizem um trabalho de preservação das variedades locais, cultivando grande diversidade de plantas medicinais nas hortas de suas casas, “tem muitas plantas que é da mata, é coisa nativa, que há muitos anos existem’’ e que não podem ser cultivadas pelas benzedeiras.

“Agora estão desmontando, tem poucos lugares. Tiraram quase tudo, não tem mais remédio, foi virado tudo em lavoura, está bem custoso os remédios’’, lamenta Agda.

Segundo ela, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) “falou que nós podemos proibir, por placa nas árvores de remédio, mas a gente não tem como fazer isso’’, já que temem represália por parte dos proprietários locais.

Entretanto, “tem lugar que Deus deixou, nas barrocas, subidonas, onde não entra maquinário. Nesses lugares não tem como exterminar’’. São esses os locais de onde as benzedeiras extraem os remédios que não conseguem cultivar em casa. Também lembra que há todo um procedimento que deve ser observado quando da extração do remédio para que a planta não seja danificada.

Além disso, “as benzedeiras se combinam, o que uma não tem outra tem… você fica sabendo que fulana tem um remédio, aí você vai lá que ela te arruma’’.

Dona Agda ensina, na sua simplicidade, que o remédio “é sagrado, é coisa que Deus deixou’’, por isso não podemos destruí-los, temos de preservá-los como dádivas que são.

A ausência de incentivo por parte do Estado, entretanto, tem dificultado a organização e os encontros do movimento. Se antes a prefeitura fornecia transporte e alimentação para os encontros, a atual gestão dispensa qualquer tipo de apoio.

Os artigos 8j e 10c da Convenção da Diversidade Biológica (acordo internacional firmado em 1992, durante a Conferência das Nações Unidas Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, assinado pelo Brasil no mesmo ano) impõem, às partes, a obrigação de incentivar e garantir as condições necessárias à preservação das práticas tradicionais associadas à preservação da biodiversidade, como o caso dos ofícios tradicionais de cura.]

Por André Halloys Dallagnol, Rafaela Pontes de Lima e Kaio Miotti

Da Jornada de Agroecologia do Paraná

In http://www.mst.org.br/2015/06/23/saberes-tradicionais-de-cura-fortalecem-a-identidade-das-benzedeiras.html

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“Conferência da SBPC discute a relação entre o Saber Científico e o Tradicional”

[Nas sociedades ocidentais, o conhecimento tradicional e o científico costumam ser vistos como opostos, não sendo permitida a coexistência. Essa falsa ideia, que desvaloriza a tradição em prol da ciência, foi o tema da discussão proposta por Maria Manuela Carneiro Cunha, professora da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, na conferência “Relações e Dissensões de Saberes Tradicionais e Saberes Científicos”, na 59ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Para a pesquisadora, um dos motores para essa ideia de oposição parte da pouca tolerância do saber científico, que conserva o modelo medieval de se criar um saber absoluto. Os saberes tradicionais (como o plural aqui indica) normalmente permitem “mais de uma verdade”. Maria Manuela afirma ainda que a exclusão de outros modelos quando se adota a visão científica cria incompatibilidades, mas não impedem uma coexistência. Quer dizer, um professor, por exemplo, pode ensinar física quântica de manhã e newtoniana à tarde e ainda ir à Igreja de noite. Ele “como cidadão, pode acreditar em Deus e simultaneamente em vários sistemas. A Física não permite isso, mas o físico sim”, teoriza.

A professora questionou se é possível haver semelhanças entre os dois saberes. A resposta veio a seguir: sim. Segunda ela, ambas são formas de procurar entender e agir diante do mundo. Além disso, ambas são obras inacabadas, abertas a possíveis alterações. Essas semelhanças é que os tornam comparáveis, mas não iguais.

Ambos os conhecimentos são sustentados por operações lógicas, mas partem de pontos de vista divergentes. O conhecimento científico parte de unidades conceituais, já o conhecimento tradicional nasce de unidades perceptuais, como sabores, cheiros e cores. “As mesmas operações lógicas aplicadas a premissas diferentes dão resultados diferentes”, conclui Maria Manuela.

A sugestão da professora é que o conhecimento científico se utilize dos saberes tradicionais como base, para perceber e antecipar suas pesquisas. Tomando cuidado, porém, para não ignorar sua potencialidade. Normalmente o conhecimento popular e visto como um “tesouro”, herdado dos antigos e que deve ser preservado intocado. Por isso também os cientistas não o reconhecem como um saber válido. E por ser desvalorizado, a ciência (principalmente farmacêutica e agrônoma) se apropria do saber tradicional sem se preocupar em ter o consentimento prévio da população que o detém.

Segundo a professora, a posição brasileira, acertada entre diversos países na Convenção da Diversidade Biológica, quanto ao assunto é que caberia ao pesquisador que faz o pedido de patente relatar toda a cadeia de informações, inibindo, assim, a biopirataria e o roubo do conhecimento tradicional. Processo este que cria novas discussões, pois exigem burocracias que atrasam muito os resultados da pesquisa.

Mesmo com tantas divergências, Maria Manuela mostra-se otimista quanto à possibilidade de um modelo de coexistência “pacífica” entre os saberes científico e tradicionais. Além disso, para ela, “a Amazônia podia e devia dar o exemplo dessa colaboração científica entre populações tradicionais e ciência que é feita nas universidades, de uma forma inovadora”.]

Texto: Íris Jatene (Assessoria de Comunicação Institucional)

In http://www.portal.ufpa.br/imprensa/noticia.php?cod=698

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“Apoio à criação de uma instituição de Ensino Superior Indígena”

Epígrafe

[“O Brasil se encontra em uma situação muito especial: se por um lado é um País mega diversificado em recursos genéticos e conhecimentos tradicionais, é também, contrariamente a vários outros desses países, suficientemente equipado cientificamente para desenvolver e valorizar esses recursos internamente. Em suma, encontra-se em uma posição privilegiada. Mas está perdendo uma oportunidade histórica, a de instaurar um regime de colaboração e intercâmbio respeitoso com suas populações tradicionais. Há em suma, muitos obstáculos a transpor, mas, se não soubermos construir novas instituições e relação equitativas com as populações tradicionais e seus saberes, estaremos desprezando uma oportunidade única.” (Manuela Carneiro da Cunha, 2009)]

Epígrafe do livro “Apoio à criação de uma instituição de Ensino Superior Indígena” (CGEE, 2014)

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Significado de Holístico

O que é Holístico:

Holístico ou holista é um adjetivo que classifica alguma coisa relacionada com o holismo, ou seja, que procura compreender os fenômenos na sua totalidade e globalidade.

A palavra holístico foi criada a partir do termo holos, que em grego significa “todo” ou “inteiro”.

O holismo é um conceito criado por Jan Christiaan Smuts em 1926, que o descreveu como a “tendência da natureza de usar a evolução criativa para formar um “todo” que é maior do que a soma das suas partes”.

Esta noção remete para uma forma específica de contemplar o mundo e que pode ser aplicada em várias vertentes do conhecimento, como medicina, psicologia, física, administração, ecologia etc.

O holismo divide a natureza em três áreas: a psicosfera e biosfera. De acordo com essa teoria, as leis químicas e físicas constituem exceções das leis biológicas.

No âmbito da medicina, a holística é uma forma de terapêutica que tem metodologias distintas da medicina convencional. Atualmente existem vários centros de terapia holística ou spas holísticos, que disponibilizam tratamentos como shiatsu, do-in, yoga, tai-chi-chuan, acupuntura, massagem bioenergética, reiki, etc. Os tratamentos holísticos veem um problema de saúde não apenas na sua vertente física, mas também como o resultado de desequilíbrios energéticos e emocionais.

Visão holística

No âmbito empresarial, visão holística é a visão global de uma empresa, de todos os seus elementos, estratégias e atividades, que resulta em uma representação única da organização. A visão holística é oposta à lógica mecanicista, que compartimenta a empresa em vários blocos, causando a perda da visão global.

Marketing holístico

O marketing holístico, expressão criada por Philip Kotler e Kevin Lane Keller, consiste na integração de várias vertentes do marketing, como o marketing de relacionamento, endomarketing, marketing socialmente responsável, webmarketing, marketing integrado, marketing social, marketing interno, branding, etc.

Este conceito aponta para uma visão global do marketing e de todos os seus processos e fenômenos envolventes, com o objetivo de alcançar melhores resultados, não só para a empresa, mas também para o consumidor. Por esse motivo, o apoio ao cliente assume a mesma importância que as vendas, havendo a conciliação entre a ética da empresa e as necessidades dos consumidores.

In http://www.significados.com.br/holistico/

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Acesse ainda:

https://www.google.com.br/search?q=Conhecimentos+tradicionais&ie=utf-8&oe=utf-8&gws_rd=cr&ei=80ONVe7rKsa8ggTnooDwDw

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