O Brasil jogou fora o superciclo das commodities e regrediu

Trocando bem em miúdos o que diz o economista chileno José Gabriel Palma, na entrevista abaixo: o período lulo-petista entusiasmou-se com os preços das commodities, gastou o que o País não tinha para gastar (deixemos de lado, estrategicamente, a questão das múltiplas corrupções no período), não fez o País avançar, não diminuiu a pobreza (apesar dessa discurseira toda do partido e de seus fiéis seguidores – aqueles que ainda restam) e agora quem vai pagar a conta é tu, eu e nós todos.

Dias sombrios vêm por aí.

Então, leia o texto abaixo sem ódio no coração.

“Economista defende mudança no modelo econômico brasileiro”

Da Folha

Brasil precisa ter mais ambição e mudar modelo, diz economista

[O modelo econômico neoliberal adotado pelo Brasil já deu o que tinha que dar, seu prazo de validade expirou. Agora é preciso mais ambição, olhar o que fez a Ásia e mudar o modelo.

Os novos parâmetros devem ser reindustrializar o setor exportador, reenergizar a manufatura e adotar uma política pró-crescimento. São necessárias ações para diversificar mais a economia, regular de verdade as finanças e dar transparência às instituições e à política.

É o que defende o economista José Gabriel Palma, 68, da Universidade de Cambridge e pesquisador das universidades de Santiago e Valparaiso. “Mais do mesmo não nos levará a nenhum lugar”, diz.

Chileno e especializado em economia latino-americana, ele observa a experiência asiática e conclui que “para crescer de forma sustentável é necessário investir ao menos 30% do PIB”. Na sua visão, a desvalorização da moeda brasileira é positiva. “Um real sobrevalorizado só ajuda os especuladores e os rentistas”, afirma.

Nesta entrevista Palma avalia que a grande década perdida na América Latina “não foi a dos anos 1980, mas a do superciclo das commodities”.

Trata também da China: “Se o governo [chinês] não tivesse atuado com tanta energia, estaríamos de volta à crise asiática de 1997, mas multiplicada por dez”. Para ele, as ações drásticas “até agora não solucionaram nada, apenas contiveram o colapso”.

O Brasil passa por uma crise política e uma recessão. Como o sr. analisa os desdobramentos dessa situação?

Na América Latina, poucas vezes tivemos uma desaceleração tão anunciada. Quando tantos se deslumbravam com o crescimento brasileiro de 2010 (7,5%), a pouca sustentabilidade desse crescimento era evidente [http://www.econ.cam.ac.uk/research/repec/cam/pdf/cwpe1248.pdf ].

Como se sabe, quando os mercados financeiros internacionais se tranquilizaram em 2003, pela surpreendente orientação neoliberal do governo Lula, começou um período de “alucinação” internacional com o Brasil —não por acaso foram concedidas ao país as sedes do mundial de futebol e das Olimpíadas. Tanto assim, que poucos se importaram com o desempenho muito pobre de sua economia desde o início das reformas econômicas.

Isso não só contrastava com o seu desempenho pré-1980, como também com o que acontecia na Ásia. No Brasil, como no resto da América Latina, a filosofia das reformas consistiu em jogar a toalha em relação à estratégia de industrialização anterior. Isso porque a maioria dos políticos e economistas interpretou a crise de 1982 como uma prova conclusiva de que a região estava num beco sem saída.

Como dizia [Albert] Hirschman (1915-2012), a formulação de políticas econômicas tem um forte componente de inércia. Portanto, muitas vezes elas continuam sendo implementadas mesmo que sua data de validade já tenha vencido —e se transformam em contra produtivas. Isso leva a tal frustração e desilusão com políticas e instituições que é frequente existir um forte “efeito rebote”.

Esse foi o contexto das reformas dos anos 1990?

Sim. A América Latina após 1982 é um exemplo extremo disso. O núcleo do discurso neoliberal consistiu simplesmente em intervir na maior quantidade possível de aspectos da estratégia de desenvolvimento anterior. Foi como multiplicar a maior quantidade de políticas econômicas possíveis por menos 1.

Isso explica as prioridades bastante peculiares, a rigidez, a atitude messiânica das reformas —assim como o seu pobre resultado. O então presidente do Banco Central do Brasil informou que sua tarefa era “desfazer quarenta anos de besteira”. Com essa atitude de dar marcha à ré, as reformas econômicas, quase inevitavelmente, terminaram sendo um exercício de “destruição pouco criativa”, especialmente em relação à manufatura.

Algo muito diferente aconteceu na Ásia, onde as reformas se implementaram como um mecanismo de reengenharia e fortalecimento de suas ambiciosas estratégias de industrialização.

O que o governo deveria fazer para retomar o crescimento?

“Mais do mesmo” não nos levará a nenhum lugar. Para o bem ou para o mal, o que o modelo neoliberal pode dar já deu (no Brasil e no Chile). O Brasil já produz itens primários em nível mundial. Já gera abundantes vagas em serviços. Já tem um varejo e finanças sofisticadas. Muito do que sobreviveu de sua indústria é interessante.

Agora é preciso mostrar mais ambição, como fez a Ásia, e dar o passo seguinte para reindustrializar o setor exportador, reenergizar o resto da manufatura com políticas industriais efetivas e uma política macro pró-crescimento. É preciso diversificar mais a economia, regular de verdade as finanças, colocando-as a serviço do setor real, dar transparência às instituições e à política em especial.

A experiência asiática indica que para crescer de forma sustentável é necessário investir ao menos 30% do PIB. Como no Brasil (e no Chile) só 1% se apropria de algo assim da renda, financiar esse nível de investimento deveria ser perfeitamente viável. Porém, isso é pouco provável, pois nessas economias o que mais interessa é a especulação financeira e o que mais abunda são as falhas de mercado, os privilégios, a pouca competência, as tímidas instituições e uma inteligência “progressista” cheia de conflitos de interesse.

Esse contexto premia especuladores, rentistas, comerciantes, traficantes de influências políticas e de informação privilegiada. Por sua vez, castiga o investimento real, a diversificação produtiva, a absorção tecnológica e a industrialização do setor exportador.

Assim, poucos vão se preocupar em investir além do necessário para depredar recursos naturais de forma competitiva (o que resulta em algumas atividades interessantes) e desenvolver itens não exportáveis de baixo desafio tecnológico.

Segundo a revista “Forbes”, o PT no Brasil criava em 2013, com sua economia praticamente atolada, um novo indivíduo com mais de US$ 30 milhões (excluindo sua casa principal) a cada 27 minutos.

É uma lástima que agora no Brasil o escândalo de corrupção da Petrobras distraia tanto a atenção pública do problema de fundo: o modelo econômico neoliberal já deu o que tinha que dar e, como um vinho que se transforma em vinagre, já passou (e faz um tempo) da sua data de validade. Chegando hoje a ser um modelo político-econômico mais contaminado que a baia de Guanabara.

Mas, como nos disse Keynes, “as pessoas geralmente preferem falhar por meios convencionais do que ter sucesso por meios não convencionais”.

O Brasil deveria, então, taxar muito mais os mais ricos?

O Brasil já tem uma carga tributária muito alta (cerca de 35% do PIB), mas sua estrutura é regressiva. Entre os países nesse patamar, é o único em que a alta renda contribui tão pouco. Além disso, seu uso é pouco eficiente, já que o investimento público é um dos mais baixos do mundo. Como percentagem do PIB, esse investimento não chega a um terço do que se investia antes de 1980. Por puro fundamentalismo, o modelo neoliberal criou artificialmente esse calcanhar de Aquiles.

Quais devem ser os efeitos da forte desvalorização em curso do real?

A depreciação do real é muito positiva, do pouco de positivo que ocorre no Brasil. Um real sobrevalorizado só ajuda os especuladores e os rentistas. E o melhor momento para desvalorizar é quando a economia está em recessão —o efeito inflacionário é minimizado e se pode sentir seus reais efeitos.

Os neoliberais sempre falam da necessidade de “ter os preços corretos”, mas parece que pouco se importam que o preço mais importante da economia, o câmbio, tenha ficado tão “errado” por tanto tempo. E ficou “errado” por tanto tempo porque refletia realidades financeiras artificiais e frágeis, movimentos instáveis de capitais e preços absurdos das commodities —e não o que se passava na economia real.

Entre 2007 e 2013, o déficit comercial em manufaturas cresceu em US$ 70 bilhões e quase ninguém parecia se preocupar com isso porque as commodities davam para tudo. O fundamental que acontece agora é que acabou a festa e chegou a conta. A sobrevalorização do real também subsidiava a fuga de capitais (como também o faziam alguns empréstimos do BNDES, que subsidiavam o investimento brasileiro no exterior).

A desaceleração da China, que abala a América Latina, terá que dimensão?

Quando o novo primeiro-ministro chinês assumiu em 2013, se encontrou com dois grandes desafios: colocar em ordem as finanças e reorientar o crescimento “para dentro”.

O primeiro se devia ao fato de que o estoque de crédito já representava quase três vezes o PIB. O volume de crédito já havia saltado, em apenas sete anos, de US$ 9 bilhões para US$ 28 bilhões, replicando nesse incremento todo o choque de crédito norte-americano. O mais problemático era o seu desregulado sistema bancário das sombras, o “shadow banking”, que copiava as piores práticas das hipotecas-lixo.

O segundo desafio era resultante da desaceleração da economia, fruto do esgotamento de sua estratégia de crescimento. O principal problema era que ambos objetivos de política —colocar em ordem as finanças e reorientar o crescimento— eram muito difíceis de serem conciliados.

Como foi encaminhado esse duplo desafio?

No financeiro, se necessitava de um desendividamento ordenado, preços que refletissem melhor o risco, e agentes que pagassem os custos de suas más decisões —uma disciplina já esquecida em quase todos os mercados financeiros.

Assim, pela primeira vez, se deixou entrar em moratória uma empresa estatal e uma grande construtora privada. O Banco Central também recapitalizou bancos estatais, desenhou seguros de depósito para permitir quebras bancárias sem criar pânico e fez swaps de títulos municipais.

Finalmente, tratou de frear a margem de empréstimo que impulsionava a subida meteórica das bolas de Xangai e Shenzhen.

Como atacar a desaceleração?

A China necessitava passar de uma estratégia liderada pelo investimento e seu fácil financiamento para uma com maior equilíbrio entre o consumo e o investimento. A atual era insustentável tanto pelos níveis de dívida como pelo investimento, que já chegava a 47% do PIB (mais do dobro que o Brasil).

Enquanto isso, o consumo das famílias representava apenas um terço do PIB (metade do que no Brasil, onde essa percentagem é tão alta tanto pela exuberância de uns poucos, como pela dívida de muitos). É óbvio que tanto a China como o Brasil devem rebalancear seus crescimentos, mas em direções opostas.

O que deu errado na China?

Foi dada demasiada prioridade para o reestímulo à economia, pois a desaceleração ganhava velocidade —no ano passado, o consumo de aço caiu pela primeira vez em três décadas. O problema foi subestimar o nível de fragilidade financeira.

Por exemplo, se deixou que o valor das ações continuasse crescendo a taxas insustentáveis —150% em doze meses. Isso com um sem número de burocratas se fazendo multimilionários —os conflitos de interesse não são apenas exclusividade da ‘nova esquerda’ latino-americana.

De repente, e por razões circunstanciais, alguns especuladores-chave decidiram fazer uma pausa (e tomar seus lucros) e o resto os seguiu como uma manada. Se o governo não tivesse atuado com tanta energia, estaríamos de volta à crise asiática de 1997, mas multiplicada por dez.

Mas as ações drásticas do governo (em parte para resguardar o valor dos ativos financeiros deles mesmos) até agora não solucionaram nada, apenas contiveram o colapso. A tarefa fundamental está ainda pela frente.

E a incompatibilidade entre os desafios de como ordenar as finanças e como reorientar e reestimular a economia é cada dia maior. Poucas vezes a economia mundial dependeu tanto de como um pequeno número de burocratas solucionam um dilema como esse!

Países latino-americanos perderam a oportunidade de mudar seus modelos enquanto ocorreu o boom das commodities?

Na América Latina, a grande década perdida não foi a dos anos 1980, mas a do (mal denominado) superciclo das commodities. Durante os anos da bonança exportadora e financeira, na América Latina se deu origem a um crescimento medíocre.

Do lado do gasto, cinco sextos desse crescimento era simples expansão do consumo. Do lado do produto, dois terços era simples expansão do emprego.

Essa bonança permitiu a um conjunto de populistas de ‘centro-esquerda’ aumentar o gasto social, para que, assim, todo o resto pudesse permanecer igual.

Como nos dizia um filósofo alemão, talvez o Brasil confirme que a forma mais efetiva de dominação é aquela na qual se subcontrata a dominação dos representantes dos dominados. O que aconteceu no Brasil faz recordar o que disse Freud (em outro contexto político): “Na realidade, nossos concidadãos não afundaram tão baixo como temíamos porque eles nunca tinham subido tão alto quanto nós acreditamos”.

Assim, se pode seguir tranquilamente com um modelo de acumulação neoliberal que não é mais do que um conjunto de falhas de mercado, as quais são um paraíso para os especuladores, rentistas e comerciantes (incluindo os políticos) e um purgatório para a economia real. Parafraseando Oscar Wilde, em um modelo assim, ganhar dinheiro fazendo algo socialmente útil é digno de falta de imaginação.

Como avaliar as consequências políticas da situação econômica nos países do continente?

Difícil saber. A Venezuela é um desastre absoluto e o mais provável é que isso termine muito mal. Na Argentina, o kirchnerismo pode ganhar as próximas eleições, mas a situação econômica é insustentável. Em ambos os países, muitos dos avanços sociais conseguidos no passado agora só existem em estatísticas alegres.

O México está cada vez “mais próximo dos EUA e mais distante de deus”. No Brasil e no Chile, faz tempo que o experimento neoliberal bateu no fundo.

Enquanto na nossa região o panorama está cada dia mais depressivo, na Ásia, com todos os seus problemas, reina um pragmatismo invejável. Enquanto aqui na nossa região ‘progressistas’ trabalharam reformas neoliberais de uma genialidade de Dumbledore (o único que lhes faltava era o toque social), na Ásia sua sabedoria milenar dizia que teriam que ser obra de Voldemort.

Freud outra vez: “Damos boas vindas a ilusões porque elas nos poupam do estresse emocional. Não devemos reclamar, então, se agora e de novo elas entram em confronto com alguma parte da realidade e são destroçadas contra ela”.

A crise estrutural da economia mundial continua?

Ainda que seja difícil de acreditar, sete anos depois da crise de 2007/2008, estamos com os mesmos mercados financeiros internacionais igualmente desregulados, monstruosos e insaciáveis —e mais líquidos (e, portanto, autodestrutíveis) por uma política monetária expansiva dos países desenvolvidos.

Enquanto mais liquidez persegue uma oferta limitada de ativos financeiros minimamente sólidos, há mais engarrafamento de demanda e os seus preços sobem —com as bolsas chegando a recordes históricos. Mas como os preços não estão em nada relacionados com os fundamentos da economia real, eles são vulneráveis a correções bruscas.

E como agora já não se pode esperar que a China seja a mesma locomotiva de antes, como os setores públicos dos países desenvolvidos já gastaram toda a sua munição (seus níveis de dívida são siderais), como pretendem solucionar os problemas da zona do euro só de forma virtual (como na Grécia) e como os problemas político-econômicos internacionais se multiplicam (a crise migratória da Europa é só um de muitos), as perspectivas da economia mundial são pouco alentadoras.]

Raio-X José Gabriel Palma

Origem: Nasceu no Chile em 12 de setembro de 1947

Formação: Doutor em economia pela Universidade de Oxford (Reino Unido) e em ciência política pela Universidade de Sussex (Reino Unido)

Cargos: É professor da faculdade de economia e política da Universidade de Cambridge (Reino Unido) e pesquisador associado das universidades de Santiago e Valparaíso (Chile)

Via site A Procura.

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