O DESESPERO DOS INOCENTES: eu, jornalista, vazador de informação e criminoso

Crédito da ilustração: www.catholiclane.com
Crédito da ilustração: http://www.catholiclane.com

Em 1986 (não lembro ao certo o mês) Frânio Lima, editor do amazonense Jornal do Commercio, me chamou a sua sala para pedir/mandar que eu fosse à Universidade do Amazonas, pois havia uma denúncia grave contra um médico brasileiro e uma empresa “farmacêutica” europeia.

A hora da minha convocação pelo colega editor era insólita: 19 horas.

Mais insólito ainda era a minha convocação, pois era este escriba aqui chefe de redação do jornal (tínhamos dezenas de repórteres).

Lima explicou que o caso era sério e requeria gente de confiança para desvendá-lo e publicá-lo.

Em síntese a história era a seguinte: um médico baiano, especialista em contracepção feminina, fora cooptado por uma indústria farmacêutica europeia para usar o Brasil como um dos campos de teste do contraceptivo norplant.

Não apenas o Brasil, mas outros países – Venezuela, Peru, Colômbia, México, África do Sul, Índia e diversos outros – também foram usados como campo de teste.

Algumas características eram comuns a todos eles:

– os implantadores do campo de teste eram médicos especializados em contracepção;

– as mulheres “usadas” como cobaias eram de baixa ou nenhuma renda;

– universidades (a maioria públicas) eram usadas para dar “credibilidade” aos testes.

Quem quiser saber mais sobre o contraceptivo e seus efeitos na saúde da mulher vai ter de dar uma busca na internet.

De objetivo eu apenas tinha a palavra da “fonte da informação”, que por caso também era médico e professor da FUA (Fundação Universidade do Amazonas), e uma foto que fiz (Frânio Lima não permitiu que eu levasse um fotógrafo junto) das 3 ou 4 caixas do produto que estavam estocadas numa sala da escola superior.

“Meu bem, meu mal”

Nem precisa me perguntar se eu ouvi o médico acusado, pois não fiz isso, e não faria novamente.

Com a devida vênia de Frânio Lima (que, aliás, era advogado também) pedi licença para igualmente publicar a matéria na Folha de São Paulo (à época eu era correspondente do jornal paulista no Estado).

No dia seguinte à minha estada na FUA, o caso norplant foi manchete do Jornal do Commercio amazonense, e no dia posterior estava na primeira página da Folha.

Foi um furor!

O médico baiano em questão ligou trocentas vezes para me chamar de irresponsável e caluniador (sem provas?) de seu malfeito, de sua espertalhice, e ameaçou a mim, ao JC e à Folha de não sei quantos processos, que acabaram não se materializando.

Pelo sim, pelo não, acho que ele teve alguns ganhos nessa história do vazamento de seus malfeitos:

– ganhou seus bons trocados da empresa europeia;

– migrou para São Paulo;

– e de quebra teve até um programa de TV, “preocupado” como sempre esteve com o crescimento exponencial das populações pobres deste planeta.

Não foram poucas as histórias desse teor e desse quilate nas quais me vi envolvido como jornalista.

Não vale a pena relatar todas aqui, embora algumas delas tenham até custado cargos públicos e processos aos “denunciados”.

Esse é o papel do jornalismo e do jornalista.

O melhor de todos eles. O mais nobre deles.

Não me arrependendo de nenhuma dessas histórias.

E faria tudo de novo sem perder, por conta disso, cinco minutos de meu santo sono.

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