Diminuição da desigualdade no país é mito

Crédito da foto: www.ilheus24h.com.br
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Desculpem mais uma vez a pouca modéstia deste jornalista-apenas-observador das coisas do Brasil e do mundo, mas já disse n vezes, e há anos, que a diminuição das desigualdades (e, por consequência, da pobreza) no Brasil no período de governaça de Luiz Inácio Lula da Silva é uma mistificação.

É disso que trata, com boas letras, o artigo do jornalista Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo de hoje: “O veneno que corrói o Brasil”.

Avanços

O precário, tênue e pouco seguro avanço das classes mais pobres brasileiras (hoje, somadas, 52% da população nacional) começou há um bocado de tempo, lá pelos idos da década de 30, oportunidade na qual Getúlio Vargas firmou parceria com os Estados Unidos (o que nos valeu uma ida à segunda guerra mundial), quando se pretendia (a pretexto de modernizar o País) deixar para trás o histórico caipirismo rural nacional e nos empurrar para a modernidade fabril-urbana.

Modorrento, o Brasil superou a fase do “crescer é fazer estradas” e a aventura megalômana de JK nos cerrados brasileiros.

Encaramos uma ditadura moderninha (tecnológica) e sanguinária (nos porões), numa sequencia lógica das proposições do também ditador GV, para desembarcarmos num rearranjo das contas públicas no governo Itamar Franco, rearranjo liderado pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

Aprumado o País em suas finanças, em seus débitos e em seus crédito, os 8 anos de FHC começaram a alterar o poder do bolso da população brasileira, coisa acelerada pelos 8 anos de Lula, embalado que foi pelos preços das commodities, sonho, enfim, findo, com um agravante: o ex-metalúrgico desarranjou novamente as contas nacionais, pecado que Dilma Rousseff tem de purgar, e está purgando.

Entalou

De concreto há que nesse período quase secular os ricos ficaram mais ricos, os pobres continuaram pobres, mas estes com duas ou três moedas a mais no bolso para comprar uma cerveja ou um docinho para as crianças.

O Brasil não rompeu as mazelas velhas de guerra, como a concentração da terra nas mãos de uns poucos, a do capital nas mãos de um grupo menor ainda, e nem fez ruir as enormes diferenças entre as regiões brasileiras, sendo que o Nordeste continua pobre e o Norte (apesar de ganhar de presente o Estado do Tocantins) continua paupérrimo.

Pobreza nobel

Angus Deaton, o novo Nobel de Economia, estudioso profundo a pobreza no mundo, lembra que crescimento mais lento (conhecemos essa história) resulta em aumento das desigualdades (veja o texto de Rossi).

Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam (já há algum tempo, coisa que já foi citada neste blog anteriormente) que o que pode ter diminuído, no período lulista, “é a desigualdade entre salários”, mas “não diminuiu e pode até ter aumentado a desigualdade entre rendimento do capital e do trabalho”.

Contas

Dyelle Menezes (também citada no artigo de Rossi), do site Contas Abertas, desvenda dados bastante interessantes:

– apenas neste ano, R$ 277,3 bilhões estão autorizados no Orçamento (da União) para “juros e encargos da dívida”;

– já o montante destinado ao Bolsa Família nos últimos 15 anos foi inferior a esse gasto com juros (somou R$ 221,7 bilhões);

– quer dizer o seguinte: os portadores de títulos do governo, uns poucos milhões, recebem em um ano mais do que ganham em 15 anos 42 milhões de pessoas, a clientela do bolsa família, os pobres entre os pobres.

“Preciso desenhar que está havendo transferência de renda dos pobres para os ricos?”, pergunta Rossi, como arremate.

Futuro infeliz

Como fecho, um recado importante:

‘O prêmio a Deaton inclui um segundo recado sobre a atualidade brasileira: em entrevista a “El País“, o agora Nobel disse que “os programas de austeridade que muitos países padecem nos farão infelizes, talvez durante muitos anos”.

Completou: “Essas políticas reduzem receita, recortam benefícios e destroem empregos”.

Antes de prosseguir, uma observação: a culpa do baixo crescimento brasileiro não é da austeridade defendida pelo ministro Joaquim Levy, pela simples e boa razão que ela nem estava em vigor no ano passado, quando o crescimento já era esquelético, nem está em pleno funcionamento agora, quando se projeta uma baita recessão.

Feita a ressalva indispensável, vale o fato de que políticas como as que Dilma está tentando implementar “reduzem receita, recortam benefícios e destroem empregos”. ’

Simples assim, infelizmente.

P.S. O IBGE está ultimando estudos para romper com a tradicional divisão de classes sociais: Classe A (muito ricos e ricos), Classe B (classe média alta, média/média e média baixa) e Classe C (pobres e muito pobres).

A partir daí será possível ver com mais clareza tudo o que está se discutindo a respeito de pobreza/riqueza e desigualdade no País.

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