Eu, a vida itinerante e o medo da morte

EuizezinhoNo 28 deste outubro completo 66 anos. É um bocado de tempo para quem bateu (e ainda bate) tanta perna por aí, e viu (e ainda vê) uma porção de coisas, muitas delas corriqueiras, outras tantas, surpreendentes.

Semana que passou dois jornalistas escreveram sobre a proximidade da morte, e, no fundinho dos textos, sobre o medo que eles têm desse momento.

Essa é uma das surpresas com a qual me deparo.

Qual é a razão que leva uma pessoa a temer um fato que irá ocorrer naturalmente (embora muitas vezes ele aconteça inesperado, e outras tantas vezes de forma violenta)?

É difícil entender esse raciocínio.

Os dois textos me levam a outro, já escrito há tempo, por um compositor de samba carioca, que lamentava (antevendo o próprio fim) não poder mais escrever o seu nome nas areias de Copacabana com o jorro de sua urina.

Me parece (mas não dou fé) que o medo da morte tem uma ligação direta com as religiões judaicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), nas quais se acena com o paraíso (eterno), ao lado do deus pai, onde estaremos cercados por serafins e querubins, quando não pelas tais das virgem islamitas.

Eis aqui uma bela contradição: se o que nos espera é uma bem-aventurança eterna, e a ela teremos acesso só após a nossa morte, por que o temor?

Não deveríamos buscar abreviar nossa estada por aqui, neste “vale de lágrimas” e de sofrimentos?

Ao chegarmos a esse ponto temos necessariamente que descer (deixando a eternidade um pouco de lado) à seara do discurso, e mais propriamente a uma palavrinha de, em português, duas míseras letras: , do latim fide.

A Wikipédia (a contestadíssima enciclopédia virtual) faz um bom resumo, que segue (o trecho) abaixo, mantendo-se os seus hiperlink, assim como os eventuais atropelos da língua portuguesa:

é a adesão de forma incondicional a uma hipótese que a pessoa passa a considerar como sendo uma verdade[2] sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que se deposita nesta ideia ou fonte de transmissão. A fé acompanha absoluta abstinência de dúvida pelo antagonismo inerente à natureza destes fenômenos psicológicos e da lógica conceitual. Ou seja, é impossível duvidar e ter fé ao mesmo tempo. A expressão se relaciona semanticamente com os verbos crer, acreditar, confiar e apostar, embora estes três últimos não necessariamente exprimam o sentimento de fé, posto que podem embutir dúvida parcial como reconhecimento de um possível engano. A relação da fé com os outros verbos, consiste em nutrir um sentimento de afeição, ou até mesmo amor, por uma hipótese a qual se acredita, ou confia, ou aposta ser verdade.[3]

Eis que chegamos a uma nova contradição.

A palavrita é uma daquelas palavras danadas que embute nela mesma a afirmação e a sua negativa.

Se temos fé é porque não temos certeza (confiança) sobre aquilo no qual dizemos acreditar.

Em termos objetivos podemos dizer que é +50% (certeza) e, simultaneamente, – 50% (dúvida).

Daí meio que se explica porque as pessoas temem a morte, mesmo acreditando que existam deus e vida no pós, no fundo de nós não cremos em nada disso.

Assim como, em sentido inverso, o ateu não tem como fugir da armadilha que lhe aprisiona a consciência, posto que ele ainda crê (ou espera) que exista algo ou alguma coisa que dê sequencia a sua tormentosa existência terrena.

Bramanismo

Em outro estágio estariam as religiões de origem bramânica (bramanismo, hinduísmo, budismo e zen-budismo) para as quais a vida é infinita (conceito que embute necessariamente o não-início e o não-fim, quer dizer, a eternidade), passando-se de uma “existência à outra”, num processo contínuo de evolução/regressão, sem, no entanto, se carregar para a posteridade o eu (a consciência) das vidas passadas, mas tão somente o carma, com a qual temos de lidar quase indefinidamente, até que possamos nos purificar para nos dissolvermos no nirvana.

Mas aqui também cabe uma pergunta: pra que?

Bem… isso já é conversa para outro post.

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