O saci é coisa nossa! Tem certeza?

SaciAssim que se aproxima o halloween (31 de outubro), inicia-se nesta Grande Terra de Tupã um frenesi entre os nossos nacionalistas empedernidos, contrapondo as “bruxas norte-americanas” ao “nosso querido” (e no restante do ano esquecidíssimo) saci, um pretinho sem uma perna, de pito na boca e gorrinho vermelho da cabeça.

Só pelo gorrinho vermelho as pessoas já deveriam desconfiar de que tem alguma coisa errada (ou, pelo menos, equivocada) nessa arenga nacionalista toda.

Se não, vejamos:

Halloween

[Originalmente, o Halloween era um ritual dos celtas, um povo que habitou a Grã-Bretanha, Irlanda e a França entre o ano 2000 e o ano 100 antes da era cristã. Para eles, a noite de 31 de outubro, data da comemoração até hoje, era a véspera do Samhain, uma importante celebração que acontecia no dia 1 de novembro e que marcava 3 fatos importantes: o fim da colheita, o Ano-Novo celta e também o início do inverno.

A “estação da escuridão e do frio” era um período de introspecção e resguardo. Acreditava-se que o portal entre o mundo real e o mundo espiritual ficava aberto e bruxos, mortos e criaturas místicas saíam do além e vagavam pela comunidade.

A maioria das pessoas sensatas ficava em casa, rezando pelos antepassados, mas quem tinha que sair, se vestia de morto ou bruxo para não ser notado pelos bruxos e mortos “de verdade”.

Se um bruxo ou morto batesse na sua porta, teria que receber alguma comida para não amaldiçoar a casa no ano que estava começando.

Ano novo também era a época de em que as tribos pagavam tributo se tivessem sido conquistadas por outro povo. Era também o início do armazenamento de alimentos para o inverno, o retorno dos rebanhos dos pastos e o período de renovação das suas leis.] (http://ecoviagem.uol.com.br/noticias/curiosidades/turismo/o-halloween-e-mesmo-uma-festa-americana–18673.asp).

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[Outra presença inconfundível no Halloween são as bruxas, mulheres de aparência assustadora que usam a magia para fazer o mal. Essa descrição negativa, entretanto, surge só no século IX, com a influência do cristianismo na comemoração.

Para os celtas, as bruxas eram apenas mulheres que conheciam poderes terapêuticos de plantas e ervas. Elas faziam parte da comunidade e eram sempre bem vindas.] (ib).

Saci

[O saci, também conhecido como saci-pererê, saci-cererê, matimpererê, matita perê, saci-saçurá e saci-trique, é um personagem bastante conhecido do folclore brasileiro. Tem sua origem presumida entre os indígenas da Região das Missões, no Sul do país, de onde teria se espalhado por todo o território brasileiro.

A figura do saci surge como um ser maléfico, como somente brincalhão ou como gracioso, conforme as versões comuns ao sul.

Na Região Norte do Brasil, a mitologia africana o transformou em um negrinho que perdeu uma perna lutando capoeira, imagem que prevalece nos dias de hoje. Herdou também, da cultura africana, o pito, uma espécie de cachimbo e, da mitologia europeia, herdou o píleo, um gorrinho vermelho usado pelo lendário trasgo. Trasgo é um ser encantado do folclore do norte de Portugal, especialmente da região de Trás-os-Montes. Rebeldes, de pequena estatura, os trasgos usam gorros vermelhos e possuem poderes sobrenaturais.] (wp – veja referências bibliográficas abaixo)

Então?

Então, nem o halloween é uma “festa” norte-americana, mas, sim, uma comemoração antiga dos celtas.

Então, nem o saci é uma “figura folclórica” genuinamente brasileira, com forte influência africana.

Muito pelo contrário, é a partir de elementos portugueses que se criou (supostamente) a figura do saci pererê no Sul do país, que, originalmente, era branco ou acobreado (índio), e apenas no Nordeste brasileiro perdeu uma perna e se transformou em negro.

Macunaíma

Em sentido inverso, Macunaíma (Mário da Andrade) nasceu índio/negro e se transforma em branco, graças a uma fonte de “sabedoria”.

Para os mais ingênuos é bom esclarecer: não se trata de uma defesa de tese de Mário de Andrade, mas de uma crítica ácida do escritor paulista ao desenvolvimento, e à imensa corrupção que dentro dele está embutida.

Referências bibliográficas

FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 534

CASCUDO, Luís da Câmara, Dicionário do Folclore Brasileiro, verbete Saci

“En Brasil también encontramos el homónimo al trasgo, el Saci Perere, oscuro, de gorro rojo y manos agujereadas, aficionado también a gastar bromas y dar sustos.”.

FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 534

FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. pp.1 103,1 104

BLONSKI, Míriam Stella, “Saci, de Monteiro Lobato: um mito nacionalista” (tese acessada em janeiro de 2009).

UOL Crianças Turma do Pererê, do Ziraldo, se prepara para comemorações de 50 anos

O Saci (1951) (em inglês) IMDB. Visitado em 3 de junho de 2011.

Saci Pererê (charachter) (em inglês) IMDB. Visitado em 3 de junho de 2011.

Heitor Villa Lobos website

MARQUES,Clóvis. Review of LNT124: Francisco Mignone – Piano Music

Catálogo de obras para piano de Edmundo Villani-Côrtes

Celina Charlier e Edmundo Villani-Côrtes

Catálogo de obras brasileiras para contrabaixo

PAIVA, Flávio. A música e a perna do Saci. Revista de Cultura Agulha nº 66, novembro/dezembro de 2008

Memorial da América Latina

RPGEduc. O Desafio dos Bandeirantes

Revista Galileu. Folclore em jogo. Edição 158, setembro de 2004.

Ferigolo, J. and Langer, M.C. (2006), A Late Triassic dinosauriform from south Brazil and the origin of the ornithischian predentary bone, Historical Biology: A Journal of Paleobiology, p. 1-11. (em inglês)

Bender, Renato; Bender, Nicole: The “Saci last common ancestor hypothesis” and a first description of swimming ability in common chimpanzees (Pan troglodytes). Palestra apresentada na 23rd annual conference of the Human Behavior and Evolution Society, 29 June – 3 July 2011, Montpellier, France.

23rd Annual Meeting of the Human Behavior and Evolution Society – Program (em inglês)

Desenvolvimento de satélites e plataformas espaciais no INPE no período 1961-2007. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

NERI, José Angelo da Costa Ferreira. Microssatélites do INPE e o Programa Espacial Brasileiro. Parcerias Estratégicas – número 7 – Outubro/1999

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