Ideologia enfraquece setor espacial brasileiro

Em audiência pública no Senado, especialista relataram a situação atual da indústria de defesa brasileira e os projetos estratégicos do setor / Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Em audiência pública no Senado, especialista relataram a situação atual da indústria de defesa brasileira e os projetos estratégicos do setor / Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

[O setor espacial vem perdendo capacidade de gerar empregos e rendimentos para o País. De 2012 a 2014, o segmento que gerava US$ 7,5 bilhões de receita passou a capitalizar US$ 6,4 bilhões. Há três anos, as indústrias aeroespaciais empregavam cerca de 500 engenheiros, doutores e técnicos de alta qualificação. Atualmente, esse quadro conta com metade desses profissionais. Os empregos diretos e indiretos também reduziram, em 2013, eram 27 mil empregados. Um ano depois, de acordo com dados da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil, foram fechados três mil postos de trabalho relacionado ao setor aeroespacial.

A situação do segmento foi tema de debate promovido, nesta quinta-feira (5), na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal. Foram ouvidos o presidente da Visiona Tecnologia Espacial, Eduardo Bonini, e o embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado De São Paulo (Fiesp), que apontaram motivos para essa queda vertiginosa dos indicadores.

De acordo com Bonini, dirigente da companhia brasileira integradora de sistemas espaciais, a descontinuidade de projetos e de recursos aplicados na área são os responsáveis pelas perdas do setor. “No Brasil, muitos projetos aeroespaciais são dependentes do governo. Como estamos em uma fase pouco avançada nessa área industrial, temos diversas oportunidades, mas faltam estratégias para que o setor produtivo possa demandar novos projetos e que eles [os projetos] possam ser transferidos e contratados pelas indústrias”, disse.

Alguns programas aeroespaciais nascem em instituições governamentais por demanda do setor privado, que após determinada fase de elaboração é contratado pelo governo para prestar serviços de apoio ao desenvolvimento da iniciativa.

Ele apontou ainda a dificuldade que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) enfrenta para recompor o quadro de servidores e especialistas. A unidade de pesquisa é vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e detém conhecimento e laboratórios para criar e desenvolver projetos para o setor aeroespacial.

“O Inpe, no passado recente, gerou uma série de oportunidades. Inclusive, algumas pessoas deixaram o instituto para montar suas próprias empresas para atuar no setor aeroespacial, mas a falta de recursos e de pessoal qualificado acaba limitando a construção e manutenção de projetos e, consequentemente, afeta a indústria, que está no final dessa linha de contratações”, disse Bonini em entrevista à Agência Gestão CT&I.

Criada em 2012, a Visiona Tecnologia Espacial é uma joint venture entre a Telebrás e a Embraer. Ela atende a uma das ações selecionadas como prioritárias no Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE) para dar suporte aos objetivos e às diretrizes da Política Nacional de Desenvolvimento das Atividades Espaciais (PNDAE) e da Estratégia Nacional de Defesa (END).

A empresa foi constituída com profissionais sêniores egressos da Embraer e do Inpe, tanto das áreas de engenharia como de gestão. Ela tem buscado agregar novos profissionais, com destaque para jovens engenheiros envolvidos nas atividades de projeto e produção do Satélite Geoestacionário de Comunicações e Defesa (SGDC), através do programa de absorção de tecnologia na França.

O presidente da Visiona destacou que o cronograma de lançamento do SGDC não foi afetado pelo ajustes fiscais e contingenciamentos que vêm sendo anunciados pelo governo federal para amenizar a crise econômica. “A Telebrás, que é a nossa cliente no projeto do SGDC, vem atendendo as principais demandas dentro das possibilidades. Não exatamente como contratado, já que apresenta alguns atrasos, mas temos conseguido manter o andamento do cronograma e o projeto está em dia. Até o momento o projeto do satélite geoestacionário tem andado conforme o cronograma e com o lançamento programado para o fim de 2016”, explicou Eduardo Bonini.

Ideologias

Para o embaixador Rubens Barbosa, a indústria aeroespacial está sendo afetada por uma “política externa equivocada”. “Nunca antes na história do Brasil uma visão ideológica prejudicou tanto os interesses nacionais”, disse o embaixador ao referir-se às decisões políticas do governo e da base aliada que resolveram barrar no Congresso Nacional o Tratado de Salvaguardas (TSA), que foi firmado, em 2000, pelos então presidentes do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, e dos Estados Unidos, Bill Clinton.

O documento acordava sobre a participação dos Estados Unidos na exploração comercial do Centro de Lançamento de Alcântara. “O Programa Espacial Brasileiro, no que tange a indústria nacional de satélite e lançamento desses satélites, está atrasado por visões ideológicas”, apontou o embaixador Barbosa.

Ele criticou ainda a decisão de o País firmar parceria com a Ucrânia para o desenvolvimento do programa de veículos lançadores de satélites (VLS). “Gastamos mais de R$ 500 milhões em um projeto que nasceu morto. Sem o acordo com os EUA, o VLS não poderia ser lançado, já que detém tecnologias norte-americanas embarcada. Há inclusive um telegrama, revelado pelo Wikileaks, em que a Embaixada da Ucrânia pediu ao governo dos Estados Unidos para que o acordo [TSA] saísse do papel.”

A cooperação que o Brasil mantinha com a Ucrânia para lançamento de foguetes da base de Alcântara foi rompida oficialmente em abril deste ano.

Como sugestão aos senadores presentes na audiência pública, Rubens Barbosa pediu que haja esforço para aprovar o projeto do Tratado de Salvaguardas. O documento está parado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) há 14 anos.]

Felipe Linhares, da Agência Gestão CT&I.

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