O que Yelena Isinbayeva tem a ver com os ataques a Paris

Yelena IsinbayevaAo pé da letra, não se pode dizer que a atleta (saltadora com vara) Yelena Isinbayeva (Crédito da foto: pt.wikipedia.org) seja uma mulher ocidental, até porque o seu país, a Rússia, é uma grande pizza meio calabresa, meio mozzarella.

Nos intrincados (des)caminhos que deixam a Rússia no meio do caminho, pode-se conectar o país ao Ocidente por conta do cristianismo (uma das características ocidentais mais marcantes) e da língua (indo-europeia, com um bocado de russino, uma língua eslava).

Isinbayeva nasceu em 1983, portanto seis anos antes do fim do comunismo, e talvez não tenha tido tempo de absorver parte de um dos primados (mais caros) do marxismo-leninismo: o coletivismo.

Guindada ao posto de uma das maiores estrelas do esporte mundial, a musa recordista foi capturada pelo individualismo capitalista/ocidental.

Está brava a musa com a suspensão do atletismo russo das competições internacionais.

Mas não está brava por conta da “suspensão do atletismo russo”, mas por conta de ela mesma não poder, pelo menos pelos próximos dois anos, mais competir, ganhar medalhas e bater recordes.

Na entrevista que concedeu esta semana Isinbayeva não se referiu (pelo menos com profundidade) às acusações que solapam o prestígio do atletismo russo (doping).

Aparenta ela não querer saber disso, de não ter nada a ver com isso. A musa só resmunga não poder mais competir, mais ganhar medalhas e bater mais recordes.

Fugiu de discutir o uso do doping nas competições (não apenas o dos russos, por óbvio) e de ganhar mais algumas medalhas por enfrentar a conduta desviante de atletas de ponta como ela.

Irritada, Isinbayeva afirmou que assim que parar de competir vai dirigir a federação russa de atletismo.

É capaz… com o prestígio que tem no país. Resta saber o que ela vai fazer lá dentro.

Os “terroristas”

A mídia europeia tem vasculhado, com certa sofreguidão, a vida em Molenbeek-Saint-Jean (o bairro de Bruxelas, uma espécie de centro – segundo a própria mídia – europeu do ”terrorismo islâmico”) e em Saint Dennis (a cidade francesa alvo de parte dos ataques da sexta-feira, 13).

Ambos (entre tantos outros) têm algumas coisas em comum: a exclusão, a pobreza e a maciça presença de gentes com origem em África, boa parte delas muçulmanas.

As incursões das polícias (e forças de segurança) a esses locais são constantes e o mais correto seria dizer, diárias.

E isso de há muito tempo; iniciadas muito anos antes dos ataques do dia 13, e que, pelo menos no caso da França, conexão há com a Argélia, um país norte-africano e mediterrâneo, que fez, em 1960, sua independência do país de Brigite Bardot (que, aliás, não gosta nem de africanos e muito menos de muçulmanos); independência não sem muita luta e uma história de opressão e de violência, ainda não de toda esmiuçada e nem explorada, seja pelas artes, seja pelas pesquisas acadêmicas e muito especialmente pela história.

Um dos sobreviventes da chacina do dia 13 (coadjuvado hoje por um colunista da Folha de São Paulo) saiu-se com o minimalismo de que “os terroristas invejam” o (bom?) modelo de viver dos ocidentais, que querem dele (“o bom modo de viver dos ocidentais”) participar, mas como não podem (provavelmente por serem incompetentes e ultra moralistas) buscam matar aqueles que vivem “o bom modo de viver”.

Eis a que fundo de poço do simplismo individualista estamos chegando; assim como Isinbayeva, que não vê grandes problemas com o doping dos atletas russos, o grave mesmo é o atentado aos nossos bons modos de viver, às nossas medalhas, ao nosso individualismo.

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