“Cunha e a toca do tatu”

A Toca
Reprodução

[Quando um escroque, um delinquente chantagista que devia estar preso, ainda tem poder para definir os rumos do Brasil, prefiro me refugiar na toca do tatu, onde se respira ar limpo.

É para  lá que vou buscar 380 fotos de Eduardo Viveiros de Castro da exposição “Variações do Corpo Selvagem”, cujo encerramento se dará no dia 17 de dezembro no SESC Ipiranga (SP). Lá, Lívia Raponi, adida cultural do Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, encontrou índios com quem dialogou. Escreveu texto até agora inédito que publico neste Direto da Redação, com fotos de sua autoria. Aí vai. Cunha, por enquanto, só entra aqui no título como Pilatos no Credo.

Conversa com índios que fotografam fotos

Lívia Raponi

No pavilhão externo, passa o filme de Murilo Santos. Sento para assistir. Uma família se apodera do espaço inteiro da sala, faz barulho, tira selfies… não consigo ouvir a voz do narrador: “Quer uma foto artística?” – pergunta o marido à mulher. Quando se retiram, a fala pode finalmente voltar a juntar-se às imagens.

Pouco depois – continuo sentada – chega um pequeno grupo, reverentemente  silencioso: um casal de cerca de 60 anos, um homem nos seus 40, uma menina de 6 ou 7 anos, com traços parecidos aos dos protagonistas das fotografias, que muito respeitosamente sentam a meu lado nos banquinhos coloridos: Olho para eles, nos cumprimentamos. Assistem o filme, atentos e sem comentar.

Aquela presença concentrada à minha volta aumenta a intensidade da vivência, parece dar mais sentido à minha própria presença naquele lugar. É um estar ali juntos, diferente do que era antes, uma possibilidade compartilhada de enxergar os instantes?

Araweté

Na tela movimentada pelas cenas, novamente, os Araweté voltam de um dia de caça: naquele ponto, sinto um impulso súbito de me levantar e tirar uma foto dos quatro espectadores tão imersos na visão do filme. Me pergunto com quais palavras poderia pedir permissão para fazê-lo.

Porém, logo depois de pensá-lo, me censuro, me parecendo um gesto que pode romper o encanto, incomodá-los, ser mal recebido. Reflito também sobre meu olhar, o quanto haveria nele de contemplação estetizante e fascinada de “branca-mediterrânea” diante de um “exótico” ameríndio, ainda mais dissonante num lugar em que se produz o convite para um diálogo entre e através das múltiplas posições e pontos de mirada.

Continuo na sala, habitada e reconstruída pelas reproduções de mundos em que não há fronteiras fixas nem barreiras entre humano e não humano, com o smartphone na mão, não podendo deixar de tirar – às escondidas e me sentindo culpada – uma foto do grupo visto por trás e algumas outras dos trechos escolhidos para os textos de parede.

Depois de frugal refeição na cafeteria, dirijo-me à seção expositiva próxima da área de convivência, procurando a imagem numero 01, acompanhada pelas indispensáveis legendas. Ela está exatamente ao extremo oposto do que eu pensava.

É justamente ali que se aproxima de mim, com espontânea simplicidade, o senhor de mais idade do grupo de índios, me pede ajuda para tirar a fotografia de uma fotografia com o novo celular que, com pouco jeito, extrai do bolso. Me indica a imagem em que um homem está de cabeça para baixo, introduzindo-se num buraco no chão. Olha fixamente para aquela impressão, e o resto do grupo o acompanha…

Desentocando tatus

Me percebo sorrindo, pela alegria de poder, com o pouco que sei sobre o assunto, orientá-lo sobre os recursos de seu novo telefone. Digo-lhe que aquele celular, é parecido com o do meu pai.

Insiste para que eu tire a foto no lugar dele.

Pergunto o que está acontecendo na cena retratada, ele a resume sinteticamente. Depois, quer saber onde a fotografia foi parar, digo que está guardada na “galeria” e mostro o ícone; pergunta se há como cancelá-la e como voltar a poder fotografar, explico o percurso.

Convido-o a tentar fotografar sozinho, vamos para outras imagens que o interessam, as que contam sobre a escarificação de jovens mulheres. Ainda não está seguro, quer que seja eu a desempenhar a tarefa. Agora me pergunta se, depois de eliminar uma foto, ele pode recuperá-la.

Digo que não é possível, que precisa ter muita certeza que se queira cancelar, e que na dúvida, é melhor deixar a decisão para depois. Lembro que a exposição em breve acabará, e não será tão fácil ter acesso àquelas obras. Mas acrescento que, se guardar as imagens armazenadas no telefone, elas ali ficarão para sempre, quase como acontece num arquivo.

Parece positivamente surpreendido com esta possibilidade. Agora quer tentar fazer sozinho, me pergunta onde tem que apertar. Aperta. O processo de ir até a galeria de imagens e conferir o resultado já lhe parece familiar, sinto que não o esquecerá.

Já que conversamos bastante, com o homem mais novo sempre por perto, escutando silencioso, crio coragem para fazer perguntas pessoais, animada pela vontade de saber mais: de onde vocês vêm, são pai e filho, onde ficam em São Paulo, até quando? E, com medo de errar, “quais os nomes de vocês”? A hesitação faz sentido, são nomes difíceis para mim, e, logo depois de pronunciá-los, os perco. Mas gravo os lugares, regiões e aldeias de onde eles provêm.

Não se trata de uma única família. Não são pai e filho: o mais velho é da aldeia Tuba Tuba, do povo Yudjá (Juruna), no Xingu (MT). O jovem é do Solimões, de Tefé (AM). Ao ouvir estas duas silabas, que espanto! Tefé é a cidadezinha onde estive recentemente em busca de restos e rastros do doutor conde…Conto um pouco sobre Stradelli e sobre padre Antônio, o espiritano holandês, meu companheiro de pesquisa nas manhãs e tardes passadas no arquivo da Prelazia de Tefé.

Stradelli: mil estradas

Eis que surge, naquele momento, uma gigantesca borboleta preta, entra na roda, nos circum-navegando com insistência. Pousa na criança, vai embora, descansa na parede, retorna, pousa na minha perna direita, o homem do Xingu a afasta, volta para a mesma posição na parede, perto de onde a conversa começou, regressa mais vezes… Nunca vi uma borboleta assim em São Paulo. Na verdade, nunca vi borboleta tão grande na minha vida!

Penso nele: Ermanno Stradelli. Materializando-se talvez nesta roupagem, indo quem sabe ao nosso encontro, irônico e leve como ele foi e é.

Pergunto se gostam de São Paulo, me dizem que estão hospedados ali perto, na Casa do Apoio à Saúde Indígena: o casal do Xingu veio para o tratamento da esposa, fica até final de dezembro. O jovem pai amazonense acompanha cirurgia da filha: deu tudo certo, mas aguarda o exame final que irá dizer se podem voltar para casa.

Conto que encontrei certa noite, no Rio, o autor das imagens que acabamos de ver e que ele talvez ficaria contente em saber daquilo que está acontecendo, naquele momento, no espaço colorido da exposição.

O senhor de Tuba Tuba me pergunta se conheço Tania Stolze, lembra que foi ela, que também vive no Rio, quem o conduziu à exposição pela primeira vez.

Por fim, sinto que posso, sim, agora posso dizer: “gostaria de tirar uma foto com todos vocês aqui, como lembrança deste encontro”. No ato de dizê-lo, um ciclo se fecha de forma harmoniosa, a borboleta nos deixa. Sorriem, posam para mim, todos menos a esposa, que fica a alguma distância, quieta. O velho do Xingu, o homem do Solimões, a menina.

A esposa não está na fotografia (não quis ou não achou apropriado); porém posso vê-la ali, nitidamente, como se estivesse – e, de verdade, está – emoldurada por um retângulo rosa livre de imagens, esperando calma, composta, num vestidinho de domingo de flores de verão.

Ficam em mim, desta tarde de variações inesperadas, as constelações desenhadas pelas trajetórias dos que viajam, pelas borboletas, pelas crianças rindo-sorrindo-livres-brincando na floresta, circunscritas e protegidas, elas e eu, por um olhar aveludado, morno e sábio, de mulher.

  1. S. – Nesta segunda (07/12), às 14 hs, na sala 01 do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO, haverá o exame de qualificação de Márcio Meira, ex-presidente da FUNAI, que prepara a tese “Memórias do extrativismo no Rio Negro: cruzando histórias e narrativas indígenas”. Da banca fazem parte: Doutor Geraldo Andrello (Ufscar), Doutor Tonico Benites Avá Verá Arandu (Museu Nacional), Doutora Regina Abreu (Unirio) e José R. Bessa Freire – orientador (Unirio).

Curtindo Nimuendaju

Curt Nimuendaju morreu como viveu: entre os índios. Foi numa aldeia ticuna no Solimões, em 10 de dezembro de 1945. Ele tinha 62 anos. Nesta quinta-feira, aos 70 anos de sua morte, o Museu do Índio do Rio de Janeiro lançou o livro de sua autoria “Reconhecimento dos Rios Içana, Ayari e Uaupés” com texto e fotos de 1927, além de dados sobre as línguas faladas na bacia do Rio Negro, organizado pelo antropólogo Renato Athias, que na ocasião debateu com a linguista Marília Facó e este locutor que vos fala. Na minha fala, sugeri que a vida de Nimuendaju daria um filme, cujo roteiro tentei esboçar de brincadeirinha. Cheguei até a propor o nome do ator para interpretá-lo: José Mayer, que tem o physique du rôle. Ele contracenará com Kentapí, índia Canela e com Ireti, Apinajé, namoradas de Nimuendaju com quem casou, que serão interpretadas não por atrizes profissionais, mas por leitoras selecionadas por esta coluna (cartas e fotos para a redação). A direção será de Cao Hamburger, que mostrou entender do riscado com “Xingu” e &q… ]

Por José Ribamar Bessa Freire, de Niterói.

José Ribamar Bessa Freire, professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de doutorado e mestrado e da Faculdade de Educação da UERJ, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (Unirio) e edita o site-blog Taqui Pra Ti. Tem mestrado em Paris e doutorado no Rio de Janeiro. É colunista do novo Direto da Redação.

Por CdB , in Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins.

Link: http://www.correiodobrasil.com.br/787279-2/

Link: http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=1175

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