Ciência travada ou por que o Brasil não anda

Mariana 01O discurso do governo brasileiro para ciência, tecnologia e inovação é bom.

Até há de se reconhecer que “os esforços” da presidente Dilma Rousseff continuam bons, assim como várias iniciativas tomadas em seu primeiro governo, diferente do seu antecessor de mesmo partido, e fazendo, de uma forma ou de outra, coro ao sucessor de seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso.

Os cortes orçamentários neste início da segundo mandado de Dilma Rousseff, porém, chocam e comprometem a geração de conhecimento no país.

De qualquer forma há de se reconhecer igualmente que os investimentos brasileiros em CT&I são irrisórios, da ordem de 2% do PIB.

Pior ainda, a iniciativa privada praticamente não participa desse mínimo de esforço, ao contrário do que ocorre em países desenvolvidos e em muitos em desenvolvimento.

Empresário brasileiro ainda entende que investimento é custo e que é mais fácil e barato comprar tecnologia do exterior, embora ela nem sempre satisfaça às necessidades da sociedade brasileira (além de provocar uma sangria de recursos nacionais).

É isso que se está discutindo no texto abaixo do ScienceBlogs e nas duas notas que seguem.

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Os verdadeiros revolucionários

Mariana 02[Ninguém duvida que Apple, Tesla e Google sejam sinônimos de inovação e tecnologia. E que seu sucesso está diretamente ligado a mentes brilhantes como Steve Jobs e Elon Musk, visionários de primeira hora. Mas os investimentos necessários para desenvolver a tecnologia que está presente num iPhone ou num Tesla com certeza espantaria a maior parte dos investidores do mercado, impacientes e ávidos por lucros no espaço de tempo mais curto possível.

Pouca gente sabe que foi o dinheiro do contribuinte americano ao longo de décadas que ajudou estas empresas a serem o sucesso que são e forneceu as bases para o surgimento dos produtos revolucionários de algumas das empresas mais inovadoras do mundo. Essa é a ideia defendida pela economista Mariana Mazzucato (1) (2) no seu livro “O Estado Empreendedor”.

Apesar das críticas, às vezes merecidas, de serem estruturas pesadas e burocráticas, as agências do governo americano financiaram pesquisas que trouxeram para a indústria de consumo a tela touch screen, o display de cristal liquido, o Siri e ajudaram Steve Jobs a fazer da sua empresa a marca icônica que ela é.

Mas não são apenas as agência de defesa que produzem inovações. A partir de 1983 as empresas de biotecnologia se beneficiaram de um belo empurrão dado pelo Governo. Naquele ano foi aprovado nos Estados Unidos o Orphan Drug Act, decreto que fornece incentivos fiscais e subsídios de P&D para o desenvolvimento de medicamentos para o tratamento de doenças raras (doenças que afetam menos de 200 000 pessoas). Sem este apoio eles praticamente não existiriam. Esta iniciativa foi fundamental para o crescimento de empresas como Amgen, Genentech e Genzyme. Hoje os medicamentos para doenças raras são responsáveis por mais de 70% da receita das principais empresas de biotecnologia.

Os produtos inovadores dependem fundamentalmente dos investimentos em pesquisa de base. Se quisermos saber o que o futuro nos reserva, temos que olhar o que está sendo feito hoje neste campo, um exemplo é a biologia sintética. Entre 2008 e 2014 as agências governamentais americanas já investiram quase 1 bilhão de dólares em pesquisas nessa área. O MIT- Broad Foundry é um dos institutos apoiados com recursos da agência de defesa Darpa e, de acordo com Ben Gordon, diretor do Foundry, ele tem o objetivo de trazer soluções para a saúde, a agricultura e a química que são desafiadoras demais para a indústria e para a academia.

Aqui no Brasil, além da pesquisa básica, o Governo tem investido em pesquisas na indústria e na criação de empresas de base tecnológica como forma de aproveitar as pesquisas, as patentes e o conhecimento produzido nas universidades. Entre as agências de fomento está a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que por meio do Plano Inova Empresa apoia a inovação em setores que o Governo Federal considera estratégicos. Lançado em 2013, é o projeto mais ambicioso de inovação que o país já teve. Uma verdadeira revolução. Ele conta com R$ 32,9 bilhões que serão destinados a áreas como energia, nanotecnologia e biotecnologia nos próximos anos.

Uma das instituições que receberam recursos do Finep foi a Embrapa Agroenergia. Em um prédio com 10.000 m2 no Distrito Federal, a instituição trabalha para produzir um futuro sustentável para o planeta e para a economia brasileira. Mais de 50 projetos estão em desenvolvimento, entre eles a pesquisa em processos de conversão da biomassa em bioenergia, biomateriais e químicos renováveis de alto valor agregado. Mas nem sempre os recursos públicos são bem aplicados. O programa Ciência sem Fronteiras é um desses casos. Com mais de 100.000 bolsas, a maior parte delas para alunos de graduação, o programa investe na formação de pessoal altamente qualificado, colocando estudantes e pesquisadores em instituições de excelência no exterior e atraindo jovens talentos para trabalhar no Brasil. Apesar de proporcionar a vivência internacional aos alunos, a iniciativa falha pela falta de um acompanhamento rigoroso das disciplinas e atividades desenvolvidas por eles no exterior. Isso nunca poderia acontecer num programa onde o custo de um aluno pode chegar a 80.000 reais por ano. Rogerio Meneghini, professor da USP e diretor científico da biblioteca virtual SciELO afirma: “No contexto do desenvolvimento da ciência, a ida desses estudantes de graduação ao exterior não vai fazer qualquer diferença”.

Num momento de dificuldades econômicas como a que enfrentamos hoje e viveremos nos próximos anos, é vital utilizar com mais sabedoria os recursos públicos. Gerenciar e avaliar os resultados ficou mais importante do que nunca. Ter a parceira das empresas privadas é essencial. Resumindo: é fundamental não perdermos essa revolução que o Governo começou.]

Leia também: Cortes nos recursos para ciência e tecnologia comprometem o futuro do país

Poderá também gostar de:

Link: http://scienceblogs.com.br/synbiobrasil/2015/12/os-verdadeiros-revolucionarios/

(1) Mariana Mazzucato (Roma, 16 de junho de 1968) é uma economista italiana. É professora da cátedra RM Phillips de Ciência e Tecnologia da Universidade de Sussex.[1]

Livros

Mazzucato, M. (2011), The Entrepreneurial State, Demos, London, UK. ISBN 978-1-906693-73-2, 149 páginas.

Mazzucato, M., Lowe, J., Shipman, A. and Trigg, A. (2010), Personal Investment: Financial Planning in an Uncertain World, Palgrave Macmillan, Basingstoke UK, ISBN 978-0-230-24660-7, 448 páginas.

Mazzucato, M. and Dosi, G. (Eds, 2006), Knowledge Accumulation and Industry Evolution: Pharma-Biotech, Cambridge University Press, Cambridge UK, ISBN 0-521-85822-4, 446 páginas.

Mazzucato, M. (Ed, 2002), Strategy for Business, A Reader, Sage Publications, London, 2002, ISBN 0-7619-7413-X, 378 páginas.

Mazzucato, M. (2000), Firm Size, Innovation and Market Structure: The Evolution of Market Concentration and Instability, Edward Elgar, Northampton, MA, ISBN 1-84064-346-3, 138 páginas.

Artigos

Mazzucato, M. and Tancioni, M. (2012), “R&D, Patents and Stock Return Volatility,”Journal of Evolutionary Economics, Vol. 22 (4):811–832.

Demirel, P. and Mazzucato, M. (2012), “Innovation and Firm Growth: Is R&D Worth It?”Industry and Innovation, Vol. 19, (2).

Demirel, P. and Mazzucato, M. (2010), “The Evolution of Firm Growth Dynamics in the US Pharmaceutical Industry”, Regional Studies, Vol. 44 (8), pp. 1053–1066.

Mazzucato, M. and Tancioni, M. (2008), “Idiosyncratic Risk and Innovation: A Firm and Industry Level Analysis”, Industrial and Corporate Change, Vol. 17 (4), pp. 779–811.

Mazzucato, M (2006), “Innovation and Stock Prices”, Revue de L’Observatoire Francais de Conjonctures Economiques”, June 2006, Special Issue on Industrial Dynamics, Productivity and Growth.

Mazzucato, M. and Tancioni, M. (2005), “Indices that Capture Creative Destruction: Questions and Implications”, Revue d’Economie Industrielle. 110 (2nd tr.), pp. 199–218.

Mazzucato, M. (2003), “Risk, Variety and Volatility: Innovation, Growth and Stock Prices in Old and New Industries”, Journal of Evolutionary Economics, Vol. 13 (5), pp. 491–512.

Geroski, P. and Mazzucato, M. (2002), “Learning and the Sources of Corporate Growth”, Industrial and Corporate Change, Vol. 11 (4), pp. 623–644.

Mazzucato, M. (2002), “The PC Industry: New Economy or Early Life-Cycle”, Review of Economic Dynamics, Vol. 5 (2), pp. 318–345.

Geroski, P. and Mazzucato, M. (2002), “Myopic Selection and the Learning Curve”, Metroeconomica, Vol. 53 (2), pp. 181–199.

Mazzucato, M. and Semmler, W. (2002), “The Determinants of Stock Price Volatility: An Industry Study”, Nonlinear Dynamics, Psychology, and Life Sciences, Vol. 6 (2), pp. 230–253.

Geroski, P. and Mazzucato, M. (2002), “Modelling the Dynamics of Industry Populations”, International Journal of Industrial Organization, Vol. 19 (7), pp. 1003–1022.

Mazzucato, M. (2000), “Firm Size, Innovation, and Market Share Instability: the Role of Negative Feedback and Idiosyncratic Events”, Advances in Complex Systems, Vol. 3 (1–4), pp. 417–431.

Mazzucato, M. and Semmler, W. (1999), “Stock Market Volatility and Market Share Instability during the US Automobile Industry Life-Cycle”, Journal of Evolutionary Economics, Vol. 9 (1), pp. 67–96.

Mazzucato, M. (1998), “A Computational Model of Economies of Scale and Market Share Instability”, Structural Change and Economic Dynamics, Vol. 9 (1), pp. 55–83.

Referências

The Guardian:Profile Mariana Mazzucato

Extraído de https://pt.wikipedia.org/wiki/Mariana_Mazzucato

(2) O investimento realizado pelo Brasil em ciência e tecnologia chegou, em 2012, a 1,74% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior registrado nos últimos 12 anos. O levantamento foi apresentado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com exclusividade à Agência Gestão CT&I, e demostrou que o governo ainda é o principal responsável por investimentos no setor de C&T, desta vez injetando 52,37% do total de recursos.

“A competência científica brasileira aumentou muito nos últimos anos. Ainda é insatisfatório o gasto com ciência e tecnologia no País, pois nosso desejo é que chegasse a 2,5% do PIB. Mas um dos grandes desafios é estimular empresas a investir em centros de pesquisa. Em países industrializados, 60% a 70% dos investimentos em C&T vem do setor privado, mas no Brasil é mais ou menos o inverso”, explicou o ministro de Ciência e Tecnologia, Clelio Campolina. (http://www.agenciacti.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5926:investimento-do-pib-em-cat-foi-o-maior-dos-ultimos-12-anos-aponta-mcti&catid=144:noticias ).

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