País está em ruína, o povo está partindo e vamos ficar sozinhos por aqui

Adespedida
Crédito da ilustração: mirandandreia.wordpress.com

Somos hoje um país de casmurros, desesperados, tristes, desesperançados e deprimidos?

Bem… não é preciso procurar muito para encontrar a resposta.

Aqui mesmo no Núcleo Bandeirante, no DF, um lugar de gente de classe média baixa e pobres e de haitianos, que por aqui aportaram, é possível encontrar dezenas de biroscas cheia de gente, desde a manhã, jogando sinuca, discutindo futebol e política, futricando sobre a vida dos outros, tomando cerveja, numa permanente confraternização e alegria que beiram à irresponsabilidade meio que bobalhona.

Quem chegar por aqui vai levar um susto: são espaços que acolhem homens e mulheres, crianças, adultos e gente velha.

Agora, multiplique isso pelos milhares de cantinhos desta Grande Terra de Tupã.

Isso acrescenta ou desacrescenta alguma coisa em nossas vidas?

Necessariamente não, mas explica um bocado que esse mal-estar está localizado em áreas específicas e segmentos reduzidos do país.

Costumo provocar as pessoas que se aventuram a me dizer que querem sair do país, pois “não aguentam mais” o que anda ocorrendo por aqui, que me avisem com antecedência pois vou ao aeroporto devidamente munido de cebolas e de um lencinho branco para acenar e enxugar as minhas muitas lágrimas vertidas.

Mas então?

O texto de Miriam Goldenberg, hoje na Folha de São Paulo (“Quero ir embora do Brasil”) dá um pouco de tintura a essa gente tão desesperançada e partidora.

Goldenberg cita uma matéria do próprio jornal e alguns testemunhos de psicólogos e médicos.

Xeque-mate! Chegamos ao “cerne da questão”: trata-se de gente das classes médias abastadas e de ricaços – os descontentes “com tudo isso que está aí”.

Gente que, de resto, vive num mundinho, quase escravocrata, no qual outras gentes (as diferenciadas) não têm e não devem ter os direitos a não ser o de receber pouco, o de comer o mínimo, o de servir um bocado e o de não passar nem perto de aeroportos, boates da moda, shopping centers sofisticados e outros mimos que foram erigidos apenas para mimar os bem-nascidos.

É preciso, portanto, retroceder no tempo, há tempos idos, para que a coisa seja colocada no seu devido lugar, e todos vivam por aqui felizes para sempre, até mesmo aqueles que nasceram para apenas servir e para ganhar pouco.

Não por outra razão, como lembra, no texto, Miriam Goldenberg, essa gente descontente e partidora consome às panelas derramadas antidepressivos e controladores de humor.

Pra falar a verdade eu nunca tinha ouvido falar em “controladores de humor”.

Talvez a cachaça seja a nossa “controladora de humor” e, por que não, a cervejinha também.

Ruptura

O que fica desse lereré todo, no entanto, é um mundo bipartido, que já se havia partido em 1500 e que permanece assim no século 21.

De um lado está quem erigiu a certeza do “bem-nascimento”, mesmo que seus ancestrais tenham sido pobres de marré, marré, marré; que usufrui ou quer usufruir das benesses do poder, nem sempre de maneira lícita.

De outro, o pobre por herança ou por infortúnio, que vai vivendo como “deus-quer”, mas vai construindo uma vida e uma sociedade, mesmo frente às dificuldades e aos casmurros.

Talvez esse segundo grupo gostasse mesmo de ver os bem-nascidos irem embora.

E talvez, como eu, gostasse de ser avisado com antecedência e fosse, com cebolas e lencinhos brancos, aos aeroportos dar “aquele abraço, adeus e até nunca mais”.

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