A saída para o impasse indígena está nos próprios índios

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João Pedro Gonçalves (de camisa azul) visitou a terra indígena em outubro de 2015 (Foto: Mário Vilela/Funai)

Conheço João Pedro Gonçalves da Costa, o atual presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), há um bocado de tempo, desde quando morei no Amazonas na década de 80.

É um cara interessante sem ser brilhante, mas não é preciso brilhantismo para cuidar da fundação, apenas eficiência e honestidade.

Militante inicial do PCdoB, que migrou para o PT (partido pelo qual foi senador da República), Gonçalves da Costa tem um bom currículo: foi superintendente do Incra, no governo Lula, e sobre ele não pairam dúvidas de honestidade.

A questão é saber se Gonçalves da Costa está apto para tocar essa empreitada, num momento crucial para as comunidades indígenas brasileiras que se veem acossadas pela expansão do agronegócio, pelos extratores de madeira, pela construção das barragens (especialmente na Amazônia), pela violência das comunidades próximas e/ou envolventes, pelo descaso dos governos, especialmente do governo federal.

Como não temos mais por aqui o marechal Rondon (“morrer se preciso for matar nunca”) e Darcy Ribeiro, a luta pela auto preservação das comunidades indígenas mantem-se com gente que, grosso modo, não tem melhor trânsito na burocracia estatal e na mídia nacional.

O que se pode dizer do atual presidente (agrônomo) da Funai é que ele “não é da área” (antropólogo ou indigenista, por exemplo); é militante de um partido que está no poder (e que não morre de amores pelos índios), para o qual, aliás, fez acirrada campanha em 2006.

Isso tem importância?

Muita!

Deslocamento

Dar a direção de uma fundação cambaleante (e incômoda para os propósitos desenvolvimentistas do governo federal) para “um de fora” é como dar a condução de uma carroça de boi a um piloto de jato.

Não funciona!

Quando Aloizio Mercante foi levado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em 2011, algumas pessoas argumentaram ser esta uma boa medida, pois o atual ministro da Educação era do PT e sabia os caminhos do dinheiro (honesto e legal, diga-se).

Adiantou? Converse com qualquer cientista ou pesquisador brasileiro e terá você uma boa resposta.

A ambientalista Marina Silva chegou ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) em 2003 (onde permaneceu até 2008) sob suspeitas de pouco preparo e de acenar privilégio às coisas da Amazônia em detrimento do restante do país.

Puro preconceito, com um viés, por que não, machista. A política acreana (hoje líder da Rede) foi uma boa ministra, e isso se pode medir pelo ódio crescente do agronegócio à sua figura e pela forma intempestiva pela qual saiu do MMA e do PT, após um longo e acirrado atrito com Dilma Rousseff, hoje presidente do país, e declaradamente desenvolvimentista.

“Ser ou não ser, eis a questão”

Num país de natureza e clima generosos, mas que se quer (por razões obtusas e obscuras) integrar-se à comunidade internacional via intensas urbanização e industrialização, capitanear organismos estatais como o MMA e a Funai não é tarefa das mais simples e fáceis, muito pelo contrário.

Longe de se defender por aqui o tecnicismo, não dá para se levar a sério ações do governo que troquem gente especializada na área por políticos de carreira.

Voltamos à questão do carroceiro e do aviador.

A solução

Como de resto em todas as áreas, muito especialmente no que diz respeito às comunidades indígenas, as soluções efetivas e eficientes passam ao largo do estado (nacional).

A boa participação de antropólogos (via universidades públicas, por exemplo), de indigenistas (via organizações não governamentais) e da igreja católica (através do Cimi, por exemplo) tende a empurrar as comunidades indígenas a um novo nível de consciência do papel do estado e da comunidade envolvente em seus destinos.

Não será, portanto, uma Funai da vida (hoje desacreditada e praticamente falida – veja duas matérias abaixo) que irá resolver a questão.

O que vai, como se espera sempre, é a união “dos povos ancestrais”.

É daí que sairá a solução para o impasse.

Goste o governo ou não goste.

Goste a sociedade envolvente ou não goste.

Unidos e organizados, os índios vão acabar por descobrir que governo e sociedade não têm importância alguma.

São peças descartáveis.

Links para as matérias:

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/01/13/ha-setores-com-elevado-preconceito-contra-indios-diz-presidente-da-funai.htm

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/01/13/com-menor-orcamento-em-4-anos-funai-vai-recorrer-a-paises-estrangeiros.htm

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