CONTOS CURTOS – A bunda de Estenio

A bunda de Estenio

A bunda
Crédito da foto: mggsport.com.br

Estenio (ele mudou o nome depois para Stenio) era um cara pacato, comum, pai de duas filhas e de um filho e marido de Efigênia.

Stenio cursou, com aquele esforço que todos podemos imaginar, engenharia civil, mas nunca exerceu a profissão. Preferiu ser dono de um armarinho no bairro (distante do centro da cidade) onde nasceu e vivia com a família.

Stenio seguiu os passos de um de seus avós, um lituano que migrou para o Brasil no início do século 20 e tinha um nome impronunciável. Achava que assim dava mais segurança financeira à família.

Numa sexta-feira, 13, Stenio foi ao centro da cidade comprar, a pedido de Efigênia, um novo armário para a casa.

Stenio não gostava de sexta-feira 13. Achava que era um dia de azar.

Assim que desceu do ônibus (Stenio não tinha carro e nem gostava de dirigir), o dono do armarinho derrubou o celular quando tentava falar com uma de suas filhas, no justo momento em que por ele passava Augusta, uma jovem que nunca havia visto e que trajava uma calça legging preta, uma camiseta azul justa e tênis branco sem meias.

Assim que Stenio se abaixou para pegar o telefone a moça parou, virou-se para ele e aos gritos o acusou de machista e sexista.

Ante a surpresa, um breve filme (daqueles que soe aparecem em momentos agudos e graves) passou pela cabeça de Stenio: na juventude realmente fora mulherengo, saiu com a maioria das colegas de escola, com muitas vizinhas e mulheres que até então não conhecia e até com algumas parentes.

Casado, Stenio prometeu se comportar, promessa renovada com o nascimento de sua primeira filha.

Stenio observou a jovem por alguns instantes. Não viu nela nada demais, mas admitiu que se fosse jovem e solteiro até sairia com Augusta.

“Desculpe, minha senhora, mas eu me abaixei para pegar o telefone. Nem vi que senhora estava na minha frente.”

O “minha senhora” irritou Augusta que o lembrou do quanto era velho (Stenio tinha 45 anos), estava ficando careca, barrigudo e provavelmente usasse viagra para dar conta do recado e continuar perseguindo mulheres pelas ruas.

“Minha senhora, sim, vou insistir no minha senhora, apesar da sua juventude, em minha defesa devo lhe dizer algumas coisas (a senhora acredite se quiser, que isso não fará diferença): não costumo olhar para peitos e bundas pelas ruas e, acrescento, os seus peitos e a sua bunda nem são lá essas coisas ao ponto de me tirar da promessa que fiz a mim mesmo, mas promessa essa que não lhe interessa”.

A discussão entre Stenio e Augusta atraiu um grupo de pessoas. A maioria apenas observou; alguns se alinharam à causa da jovem e outros poucos saíram em defesa de Stenio.

Decidida, Augusta disse que iria à delegacia da mulher prestar queixa.

“Portanto, o senhor tenha a dignidade de me dar seu nome e seu endereço.”

“Não precisa nada disso, minha senhora, eu a acompanho até à delegacia.”

Cada um dos contendores levou a reboque duas testemunhas.

As testemunhas de Augusta admitiram que a olhada para bunda de Augusta não estava clara, mas uma delas acreditava ter visto “uma rápida olhadela”.

As de Stenio também não sabiam dizer ao certo se a olhada para a bunda acorrera ou não, mas que o dono do armarinho parecia ser um sujeito honesto e sincero.

Firme, Augusta não esmoreceu e mudou a acusação para ofensa moral por Stenio ter-lhe dito que “os seus peitos e sua bunda nem são lá essas coisas”.

A agente não sabia se o caso era para a abertura de um processo por ofensa moral ou simplesmente para uma admoestação ao acusado.

Belarmino, conhecido por Bel entre amigos e parentes, que estava na cena do crime, mas não fora chamado a testemunhar nem por um, nem pela outra, mas mesmo assim acompanhou o grupo à delegacia, achou de ter uma “ideia genial“ para solucionar o caso.

“Vamos fazer o seguinte. Vamos voltar para a rua e fazer uma votação com quem passar sobre os peitos e a bunda da moça. Se a maioria disser que eles são bonitos e apetitosos, esse cafajeste vai ser processado e preso; se der o contrário, essa vadia paga uma multa ao senhor e ainda publica nas redes sociais um pedido de desculpas”.

Bel foi preso em flagrante, mais tarde processado e agora cumpre pena socioeducativa.

Stenio foi liberado, fez as compras que tencionava fazer e voltou para a sua vida comum, jurando continuar cumprindo sua promessa.

Augusta desistiu da ação contra Stenio, mas foi peça importante de acusação contra Bel; nos meses que se seguiram, denunciou outros homens por sexismo e assédio, venceu algumas ações e perdeu outras tantas.

(MTS/BSB/Fev.2016)

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