“Em Chiapas, papa reconhece povos indígenas como sujeitos da Teologia da Libertação”

Papa
Reprodução

[Na histórica catedral de San Cristóbal de Las Casas, o papa Francisco visitou, no último dia 15 de fevereiro, o túmulo de Samuel Ruiz (1924-2011), o bispo mais polêmico da Igreja no México, que defendeu os indígenas e foi mediador com a guerrilha zapatista de Chiapas. “Tatic” (nosso pai), como o chamavam os indígenas, foi perseguido por governantes e caciques e, inclusive, criticado por seus próprios pares por sua proximidade com a Teologia da Libertação, e por ser defensor e voz dos indígenas oprimidos.

Alguns analistas se perguntam: “Não se dará conta o papa que vai semear confusão com esse gesto? Não se dará conta que se pode reativar a Teologia da Liberação?”. Se Francisco se ajoelhou em frente ao túmulo de dom Samuel significa que o papa simpatiza com o marxismo?.

O papa Francisco fez da sua presença uma ampla reivindicação dos povos indígenas, de quem, disse, temos muito que aprender. Também chamou a pedir-lhes perdão, e, ao final da missa, em San Cristóbal de Chiapas, na qual entregou um decreto pelo qual ficam formalmente autorizadas as cerimônias litúrgicas em línguas indígenas. Com isto, e sua posterior homenagem em silêncio ao tatic Samuel Ruiz García, ante o seu túmulo na catedral, a igreja autóctone e a Teologia Indígena receberam do Vaticano o reconhecimento que por anos lhes foi negado, comenta Bernardo Barranco, no jornal La Jornada (1).

Um dia depois de pisar o Município de Ecatepec, paradigma da pobreza urbana, colado à Cidade do México, o papa Francisco pisou o persistente paradigma da pobreza rural, Chiapas. Transcorridos 22 anos do levante do Exército Zapatista de Libertação Nacional, este Estado segue encarnando a iniquidade no México, com 76,2% dos seus habitantes na pobreza, entre os quais se conta, 1,6 milhão (sobre uma população de 4,7 milhões) em pobreza extrema, segundo dados oficiais, cifra que se aproxima à percentagem da população indígena de Chiapas, 27% dos chiapanecos.

O que o governo mexicano mais temia aconteceu: o papa Francisco, cuja liderança mundial transcende o religioso, entrou na selva de Chiapas e pronunciou um duro discurso contra “a dor, o maltrato e a iniquidade” sofrida pelos povos indígenas, que, no México, somam 11 milhões de pessoas de um total de 50 milhões em toda a América Latina. Jorge Mario Bergoglio pediu perdão aos indígenas e animou a que os governantes também o façam, por “excluí-los, menosprezá-los e expulsá-los de suas terras”.

As organizações integrantes da Rede pela Paz Chiapas e Melel Xojoba denunciam um contexto de exclusão estrutural que, “desde o levante armado do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em 1994, o Estado mexicano implementa uma política de contra insurgência, que fomenta conflitos intercomunitários, deslocamentos forçados, crimes de lesa humanidade, agressões de todo o tipo, como o assassinato do professor Zapatista Galeano, em maio de 2014, que resulta em uma decomposição social, que polariza as comunidades e organizações sociais, gerando poucas possibilidades de solução para os conflitos, obstaculizando, com isto, os projetos de autonomia dos povos e comunidades zapatistas, bem como de outros povos organizados, que pleiteiam seu próprio caminho para resolver seus problemas, a partir de suas próprias formas e modos de organização” (2).

Francisco, em San Cristóbal, desenvolveu uma homilia profunda, crítica, com maneiras suaves. A entrada não pôde ser mais emblemática, pois começou com o Êxodo, texto clássico da Teologia da Libertação e muito utilizado por Samuel Ruiz. Disse: “Um povo que havia experimentado a escravidão e o despotismo do faraó, que havia experimentado o sofrimento e o maltrato, até que Deus disse ‘basta‘, até que Deus disse ‘não mais!’ Vejo a aflição, ouço o clamor, conheço sua angústia (cf. Ex 3, 9). E aí se manifesta o rosto do nosso Deus, o rosto do Pai, que sofre ante a dor, o maltrato, a iniquidade na vida de seus filhos, e sua palavra, sua lei, se tornou símbolo de liberdade”. O êxodo como a intervenção indignada de Deus na busca de liberdade e de dignidade dos povos indígenas. Nessa busca do amanhecer indígena, citou o Popol Vuh, como uma ânsia que tem sabor para a terra prometida, onde a opressão, o maltrato, onde a desvalorização seja superada pela fraternidade, a injustiça seja vencida pela solidariedade e a violência seja calada pela paz. Francisco denunciou que, de muitas maneiras, tem se querido silenciar e calar essa ânsia indígena, anestesiar a alma “com a insinuação de que nada pode mudar ou de que são sonhos impossíveis… A violência que existe no coração humano, ferido pelo pecado, também se manifesta nos sintomas de enfermidade que verificamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados está nossa oprimida e devastada terra, que geme e sofre dores de parto (Rm 8, 22).

O papa Francisco acrescentou, frente a 100.000 representantes dos povos indígenas de Chiapas e da América Central: “a criação também sabe levantar sua voz; “esta irmã clama pelo dano que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus colocou nela. Crescemos pensando que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a espoliá-la”.

Afirmou: “O desafio ambiental que vivemos e suas raízes humanas impactam todos (cf. Laudato si’, 14) e nos interpelam. Já não podemos nos fazer de surdos frente a uma das maiores crises ambientais da história. Nisto vocês têm muito que nos ensinar, que ensinar a humanidade. Seus povos, como reconhecem os bispos da América Latina, sabem se relacionar harmonicamente com a natureza, a qual respeita como “fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhar humano” (Aparecida, 472).

“Entretanto, muitas vezes, de modo sistemático e estrutural, seus povos são incompreendidos e excluídos da sociedade. Alguns consideram inferiores os seus valores, suas culturas e suas tradições. Outros, deslumbrados pelo poder, pelo dinheiro e pelas leis do mercado, os despojam de suas terras ou realizam ações que as contaminam. Que tristeza! Que bem faria a todos fazer um exame de consciência e aprender a dizer: Perdão! Perdão, irmãos! O mundo de hoje, despojado pela cultura do descarte, necessita de vocês”, observou.

O método ver-julgar-agir

Bergoglio ligou a proteção dos imigrantes ao cuidado com a natureza, tema central da sua encíclica, Laudato si’. Disse que “o mundo de hoje” tem muito que aprender sobre a relação “harmônica” dos indígenas com a natureza e animou, de novo, os governantes a tomarem como exemplo de uma cultura que ainda educa seus jovens “com a sabedoria dos seus anciãos”. Após as palavras de Bergoglio, o bispo de San Cristóbal de las Casas, Felipe Arizmendi, leu uma emocionante mensagem, subscrito pelas comunidades indígenas: “Ainda que muitas pessoas nos desprezem, você quis nos visitar e nos levou em conta. Leva-nos em seu coração com a nossa cultura, com as injustiças que sofremos, com a dor dos nossos doentes. Obrigado por ter aprovado o uso na liturgia dos nossos idiomas. Queremos falar com Deus em nossa língua”.

O bispo de San Cristóbal de Las Casas, México, monsenhor Felipe Arizmendi Esquivel, comenta sobre o compromisso da Igreja Católica em favor dos mais pobres, través da metodologia Ver-Julgar-Agir, que se utiliza nas Comunidades Eclesiais de Base de toda a América Latina desde 1968, herança histórica da Juventude Operária Cristã (JOC).

“Ver: algumas pessoas se irritam quando o papa Francisco e outros membros da Igreja falam da situação de pobreza e exclusão em que vivem milhões de pessoas; quando se denuncia o sistema econômico atual, de idolatria do dinheiro; quando se convida os seguidores de Jesus a assumirem a opção prioritária que ele fez pelos pobres. Durante um tempo foram qualificados de comunistas, teólogos de uma libertação marxista, incitadores de uma guerra violenta entre classes sociais, pouco fiéis à missão da Igreja.

Em uma reunião eclesial latino-americana muito importante, da qual participei, em julho do ano passado, quando se propôs como objetivo ser uma Igreja pobre para os pobres, seguindo o sonho do papa Francisco, alguns protestaram, pedindo que se matizasse a frase, que isso escandalizaria alguns, que não voltaríamos a outros tempos de confronto interno por esses temas… Afortunadamente, a proposta foi aceita, pelo menos nos planos e papéis, pois não é fácil assumi-la com todas as suas consequências. O próprio papa encontra sérias resistências nisto, pois muitos questionam e se incomodam com a sua insistência e seu próprio estilo de vida, austero e simples.

Pensar: A respeito, o papa Francisco tem sido muito explícito: “O coração de Deus tem um lugar preferencial para os pobres, tanto que até ele próprio se fez pobre. A pobreza está no centro do evangelho. Como quisera uma igreja pobre e para os pobres!”.

Existe um vínculo inseparável entre a nossa fé e os pobres. Da nossa fé em Cristo feito pobre, e sempre perto dos pobres e excluídos, brota a preocupação com o desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade.

Hoje e sempre, os pobres são os destinatários privilegiados do evangelho. Para a Igreja, a opção pelos pobres é uma categoria teológica, antes do que cultural, sociológica, política ou filosófica. Sem a opção preferencial pelos mais pobres, o anúncio do evangelho corre o risco de ser incompreendido. É necessário que todos nos deixemos evangelizar pelos pobres.

Todas as pessoas, verdadeiramente todas, são importantes aos olhos de Deus. O rico e o pobre têm igual dignidade, porque o Senhor criou os dois. O papa ama todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de recordar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los, promovê-los. Nunca os deixemos sozinhos.

Somos chamados a descobrir Cristo nos pobres, a emprestar-lhes nossa voz em suas causas, mas também a sermos seus amigos, a escutá-los, a interpretá-los e a recolhermos a misteriosa sabedoria que Deus quer comunicarmos através deles.

Ninguém pode se sentir excluído da preocupação pelos pobres e pela justiça social. Rogo ao Senhor que nos dê mais políticos que se doem de verdade à sociedade, ao povo, à vida dos pobres! Como os chamados a reconhecer Cristo sofredor nos sem teto, nos toxicodependentes, nos refugiados, nos povos indígenas, nos anciãos, cada vez mais sozinhos e abandonados, nos migrantes.

Há um sinal que não deve faltar jamais: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e joga fora. Jesus nos adverte: o amor aos demais — estrangeiros, enfermos, encarcerados, os que não têm lar, inclusive os inimigos — é a medida com a qual Deus julgará nossas ações. Disto depende o nosso destino eterno.

Temos que aprender a estar com os pobres. Não enchamos a boca com palavras bonitas sobre os pobres. Aproximemo-nos deles, olhemos em seus olhos, escutemo-lhes. Os pobres são, para nós, uma ocasião concreta de encontrar o próprio Cristo, de tocar sua carne que sofre. Ajudar os pobres com dinheiro deve ser sempre uma solução provisória para resolver urgências. O grande objetivo deveria ser sempre permitir-lhes uma vida digna através do trabalho. A pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de atenção espiritual”.

Agir: Para que a visita do papa comece a dar frutos, revisemos nossos critérios e nossas atitudes diante dos pobres, que estão em todas as partes”, concluiu o bispo de San Cristóbal de Las Casas (3).

Homenagem à Igreja Católica rebelde de Chiapas

Há mais de cinco séculos, a Igreja Católica latino-americana e a luta indígena caminham de mãos dadas. Na guerra de extermínio contra os povos indígenas, o catolicismo foi simultaneamente instrumento de dominação e espaço de resistência. A visita do papa Francisco a San Cristóbal de Las Casas está inscrita nesta complexa dialética.

A respeito, Luis Hernández Navarro analisa, em sua coluna do jornal La Jornada, que “dizia o historiador e antropólogo Andrés Aubry que, em Chiapas, a Igreja Católica “nasceu rebelde porque o fundador da diocese, frei Bartolomé de Las Casas, foi condenado pelo rei e pela Inquisição, em 1570. A razão? Entre muitas outras, mas a maior: sua tese de que a soberania do continente é dos índios…”

O Chiapas que fray Bartolomé forjou, uma das origens da consciência moderna dos direitos humanos, foi – recorda Aubry – a tribuna mundial dos indígenas. Deixou de ser o refúgio dos comendadores prepotentes para converter-se na Igreja popular, a partir da qual falam os explorados.

Trata-se de uma Igreja popular nascida da força da identidade e cultura indígenas, de sua capacidade para impactar as instituições eclesiais, que renasceu na década de 1960 do século passado, durante o bispado de Samuel Ruiz. Nessa época, convergiu um processo de reconstituição dos povos indígenas com o Concílio Vaticano 2º e a 2ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Medellín. O próprio dom Samuel Ruiz foi atravessado por essa dinâmica. “Eu acreditava – confessou – que tinham me enviado a Chiapas para evangelizar os indígenas, e resulta que sou eu o evangelizado por eles” (4).

Eduardo Febbro, em sua coluna no jornal argentino Página 12 considera que “Deus em nossa língua”, assim se expressava há várias décadas o falecido bispo de San Cristóbal de las Casas, monsenhor Ruiz, a quem o papa ofereceu uma homenagem de alcance universal quando se ajoelhou ante o seu túmulo. Nessa história, convergem vários episódios que implicam o melhor intérprete da Teologia Indígena e um dos homens mais comprometidos e progressistas da Igreja, o bispo monsenhor Ruiz, e os próprios indígenas zapatistas, que há 22 anos, levantaram as armas contra a segregação e a dominação colonial, respaldados pelo próprio bispo, a quem os indígenas apelidavam de “tatic”, papai em tzoztil.

O papa foi até o túmulo de monsenhor Ruiz em um gesto que abarca um duplo significado: por um lado, a homenagem à parte progressista do clero mexicano e seu compromisso com os povos: por outro, a essa Teologia Indígena, que é, por sua vez, um capítulo da tão combatida Teologia da Libertação. O Vaticano via, nessa teologia, uma emanação diabólica do marxismo, e a perseguiu e isolou durante décadas. Agora, aquela ideia da esquerda católica latino-americana se vê reivindicada em sua identidade mais original através da homenagem papal a monsenhor Ruiz. O bispo definia essa Teologia Indígena como algo que “nasce no interior de um contexto de opressão. Não foi apenas uma conquista violenta dessa terra por parte da Espanha: também a religião, como a supremacia política, vem imposta”. A história pessoal de “tatic” descreve a trajetória de um descobrimento e da adaptação de um homem ao meio em que lhe tocou viver.

Longe de ser um teólogo progressista, quando chegou a Chiapas, em 1962, Samuel Ruiz tinha pouco mais de 30 anos e professava um conservadorismo que se traduziu imediatamente na denúncia contra o comunismo. Mas o meio ambiente o transformou em um militante da causa indígena. Como recorda nas páginas do semanário Proceso um dos colaboradores mais próximos de monsenhor Ruiz, Heriberto Cruz Vera, pároco do Santuário de Tila, “primeiro, teve que ocorrer a conversão de Dom Samuel, que deixou de pensar que vinha ensinar os indígenas a usar sapatos e a falar espanhol, para dar o passo seguinte: deixar que estes fossem sujeitos da sua história e reconhecer sua dignidade como filhos de Deus e como cidadãos”. Homem de caráter forte, de convicções adquiridas irrenunciáveis e de uma capacidade inata para aprender idiomas, Ruiz se transformou ele mesmo e sua própria Igreja. Tornou-se um porta-voz dos direitos das comunidades entre as quais vivia e aprendeu seus idiomas: o tzotzil, o tzeltal, o chol e o tojolabal, nos quais pregava.

No fim dos anos 1970, tornou pública sua adesão à “opção pelos pobres”. Hoje, a expressão é uma política de Estado do próprio Vaticano, mas, naqueles anos, era pouco mais do que um pecado. O padre Heriberto Cruz Vera recorda que era proibido dizer “a Igreja dos pobres”, assim como “a Igreja que nasce do povo”. Mas foi a Igreja que “Tatic” encarnou com suas formas de militar e de viver, montado a cavalo entre lodaçais e montanhas, com suas caminhadas por San Cristóbal de las Casas com os sapatos enlameados ou vestido com os adornos que lhe ofereciam os indígenas. Os símbolos estavam de acordo, ademais, com a realidade das suas decisões. Ruiz levantou um muro de indignação no Vaticano quando decidiu ordenar diáconos indígenas casados (340). A Santa Sé pugnou para deixar sem efeito a medida e teve que esperar até que chegasse o papa Francisco para que se levantasse a proibição de ordenar diáconos indígenas casados. Muito antes que o Trono de Pedro fosse ocupado por um papa latino-americano, Samuel Ruiz já professava a linha de Francisco: “Caminhar com eles”.

Durante mais de 40 anos, monsenhor Ruiz caminhou com os indígenas, com sua Teologia Indígena, sob o braço e uma espada de Dâmocles sobre a sua cabeça. O Vaticano e a Arquidiocese do México fizeram dele quase um herege. Em 1999, pouco depois da visita que João Paulo 2º fez ao México, a Arquidiocese mexicana publicou um documento no qual considerava que “a Teologia Indígena, além de não ser ortodoxa, pode deparar muitos males aos indígenas. A condenação papal tenta defender os indígenas desses males; é uma expressão do amor e solicitude do papa com os indígenas”.

Os tempos transcorridos servem para narrar a história e medir, entre as superfícies lentas do passado e a velocidade do presente, as evoluções e os retrocessos. Em Chiapas, o papa Francisco admitiu os abusos e as ações eclesiásticas que os denunciaram, em uma região onde mais de um milhão e meio de pessoas, todas indígenas, vivem em condições de pobreza absoluta. Nada disso comovia João Paulo 2º e sua hierarquia. A Santa Sé provou o quanto pode para afastar Ruiz do seu cargo, sem êxito. Quando estalou a revolta do Exército Zapatista de Libertação, EZLN, em 31 de dezembro de 1993, monsenhor Ruiz foi acusado pelos guarda-costas da Santa Sé de ter fomentado e participado daquela organização. O bispo da Teologia Indígena sempre apoiou as reclamações zapatistas, saúde, alimentação, terra e justiça, ainda que não sua metodologia armada. Depois do levante, liderado pelo subcomandante Marcos, o religioso atuou como um mediador decisivo nos acordos de paz. Foi nomeado presidente da Comissão Nacional de Intermediação (Conai). Sua intervenção deu lugar aos primeiros acordos de paz entre os zapatistas e o governo (1996), mas os descumprimentos dos mesmos e as acusações de “imparcialidade” contra o monsenhor puseram término à sua mediação.

Em sua escala mais íntima com os povos originários do México e contra as causas que ainda os marginalizam, o papa, ao menos com o poder da retórica, apagou muitas décadas de desprezo por parte dos próprios poderes religiosos. A história não se transforma unicamente pelas palavras. Pelo menos estas sirvam, talvez, para arraigar na terra os cimentos de uma nova história que outros contarão mais tarde. Quiçá com menos mortes, menos fome, menos colonialismo e menos segregação, conclui Eduardo Febbro (5).

Um gesto equivalente à beatificação de Arnulfo Romero

O bispo Raúl Vera, um dos mais rebeldes à Igreja conservadora no México, aliado na causa de renovar o catolicismo em favor das pessoas mais vulneráveis, assim aconselhou ao papa: É preciso visitar o túmulo de Samuel Ruíz! “Para mim, esse gesto é equivalente à beatificação de Arnulfo Romero (bispo de El Salvador assassinado por criticar os abusos do exército)”, disse Vera.

Orar frente a esses restos (que se encontram na catedral de San Cristóbal de las Casas, Chiapas) é confirmar a Igreja que empurrou o bispo Ruíz”, adverte Francisco Magaña, superior provincial da Companhia de Jesus no México.

A mesma católica, mas centrada em organizar e instruir os mais pobres e, particularmente, os indígenas com quem trabalhou Samuel Ruíz durante 40 anos, para fundar as bases do que, hoje, é a Lei de Usos e Costumes, que não é outra coisa que o reconhecimento dos povos originários do México a terem seus próprios sistemas de governo e justiça, bem como o direito à propriedade.

Porque, quando o bispo que, hoje, venera Francisco chegou a Chiapas, em 1960 (na idade de 36 anos), aos indígenas nem sequer era permitido sentar-se nos bancos das praças, por onde passeavam os fazendeiros, cafeeiros, o clero e os políticos de raça branca, e mestiços.

“Era uma sociedade muito racista”, recorda Vera

Em 1995, Vera foi enviado por seus superiores à Diocese de San Cristóbal, para vigiar e contrarrestar as atividades de Ruíz; em contrapartida, se aliou a este e a seu trabalho de ensinar os tzolziles, tzeltales, tojolabales e outras etnias a criarem equipes de trabalho em saúde, direitos humanos, educação e, sobretudo, a questionar.

Como resultado dessa preparação, surgiu o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), para reclamar as terras que nunca foram dadas aos indígenas e a autonomia que se lhe foi negada desde a conquista espanhola. O movimento tomou várias prefeituras no dia 1º de janeiro de 1994, o mesmo dia em que arrancava o Tratado de Livre Comércio com a América do Norte, e isto enfureceu o governo.

“Teólogo da violência”, assim Vera foi chamado pelo então presidente, Ernesto Zedillo, para logo reclamá-lo como intermediário para a paz, um papel que exerceu até a sua morte, em 2011 (6).

Para o bispo Raúl Vera, não tem nada de estranho que Bergoglio visite, no México, preferencialmente lugares empobrecidos, marginais, onde está presente a violência, a exclusão e a corrupção. “É o estilo próprio do papa Francisco, e este é o papa que temos. Ele foca seu serviço pastoral à Igreja a partir dos mais vulneráveis. Disse desde que começou seu pontificado: ‘A Igreja tem um poder e esse poder é o amor, manifestado no serviço aos mais pobres’. Impressionante! Por outro lado, anunciar o Evangelho em lugares de conflito e de grandes contradições é muito próprio da Teologia latino-americana, na qual temos avançado, apesar de muitas carências, de muitos ataques, inclusive da própria hierarquia eclesiástica”, diz o titular da Igreja em Saltillo.

“O papa está assumindo com muitos fiéis a cruz do sofrimento social, está correndo muitos riscos, mas também sabe que o caminho da cruz leva à ressurreição. É uma maneira de acompanhar a Igreja latino-americana e muitos grupos sociais que estão lutando e resistindo, para construir uma nova sociedade, e ele é um profeta que vem mudar a história” (7).

Apoia o Vaticano indígenas que participaram de encontro latino-americano em Chiapas

Horas antes da visita do papa à cidade, foi concluído o Encontro Latino-Americano com a Encíclica “Laudato Si’”, que durante os dias 13 e 14 de fevereiro e como motivo da visita papal, convocou, na cidade, mais de 100 pessoas, representantes de organizações indígenas, campesinas e ambientalistas, bem como movimentos sociais e acadêmicos de 17 países. Esse encontro foi organizado pela Aliança Mesoamericana de Povos e Florestas (AMPB), a Coordenadoria Indígena da Bacia Amazônica (Coica), o Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé de Las Casas, AC, a Rede Mexicana de Organizações Campesinas Florestais (Rede Mocaf).

O encontro Laudato Si’ faz referência ao título da segunda Carta Encíclica do Papa Francisco e primeira encíclica na história dedicada à situação ambiental, já que, em seu conteúdo, o máximo chefe da Igreja Católica exorta para a responsabilidade comum do cuidado da Mãe Terra, advogando pelo desenvolvimento sustentável e integral, e representa uma crítica ao modelo econômico imperante.

“Buscamos conhecer o alcance da Carta Encíclica do papa Francisco para uma nova ética ecológica integral e, além disso, valorizar o aporte da Carta Encíclica do papa Francisco para a agenda indígena latino-americana em matéria de florestas, direitos de povos indígenas e a defesa da mãe terra e do território”, assinalou, em seu comunicado, o Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé de Las Casas, fundado pelo bispo Samuel Ruíz García (8).

O Vaticano, através do presidente do Pontifício Conselho de Paz e Justiça, cardeal Peter K.A. Turkson, informou sobre o respaldo da Santa Sé para com os indígenas e camponeses, que lutam pela terra ante as ameaças dos “modelos” de progresso que não respeitam a harmonia com a natureza.

A missiva, lida por Gustavo Sánchez Valle, representante da Aliança Mesoamericana de Povos e Florestas (AMPB) e presidente do Conselho Diretor da Rede Mexicana de Organizações Campesinas Florestais (Rede Mocaf), na inauguração do “Encontro Latino-Americano com a Encíclica Laudato Si´, defendemos os direitos à terra, ao território e às florestas”, iniciado em San Cristóbal de las Casas, Chiapas, demonstra a necessidade de defender a “Casa Comum”.

Na presença de representantes de organizações indígenas, campesinas, movimentos populares, organizações da sociedade civil, teólogos e estudiosos, de mais de 15 países da América Latina, a missiva do Vaticano teve repercussão nos participantes, já que nela se admite que “vivemos momentos particularmente difíceis. Vivemos em uma globalização da indiferença, marcada pelo paradigma tecnocrático”.

O presidente do Pontifício Conselho de Paz e Justiça, cardeal Peter K. A. Turkson, manifestou, em sua mensagem: “Temos conhecimento do seu trabalho em defesa dos direitos à terra, ao território e às florestas, os mesmos que são, hoje, ameaçados por um sistema que idolatra o dinheiro e que não respeita a dignidade das pessoas nem a fragilidade do planeta…”

Ademais acrescenta: “A Igreja quer unir suas mãos nesses processos e ajudá-los a que, a cada dia, suas cooperativas sociais, suas associações comunitárias, suas comunidades campesinas e indígenas se fortaleçam, para que possam dar mais e melhores condições para o desenvolvimento integral dos excluídos como pessoas, famílias e povos”.

Gustavo Sánchez, também presidente da Rede Mocaf, enfatizou que a mensagem da Santa Sé reconhece que vivemos uma globalização da indiferença, marcada pelo paradigma tecnocrático, e que há contínuas violações aos direitos humanos e sociais a cada passo e ao longo do planeta.

Por isso, o presidente do Pontifício Conselho de Paz e Justiça do Vaticano assegura, na missiva, indicou Sánchez Valle, que a esperança está no horizonte e que são os próprios povos em busca de uma mudança; os povos originários, os deslocados podem compartilhar com o mundo inteiro a valiosa mostra de uma vida em harmonia com a natureza.

A mensagem foi lida durante o ato inaugural do Encontro Latino-Americano, que contou ademais com as intervenções de Pedro Faro, representando o Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé de las Casas (Frayba); de Jorge Pérez Rubio, representante da Coordenadoria Indígena da Bacia Amazônica (Coica); e de Gustavo Sánchez Valle, representante da Aliança Mesoamericana de Povos e Florestas (AMPB) e presidente do Conselho Diretor da Rede Mexicana de Organizações Campesinas Florestais (Rede Mocaf).

Estela Barco Huerta, do organização Desenvolvimento Econômico para os Indígenas Mexicanos (Desmi), ‪comentou ao Observatório Selvas: “Damos um sim à vida. A tudo o que nos permita caminhar, trabalhar com dignidade pelas nossas comunidades, porque enfrentamos machismos em todos os âmbitos de luta. Recuperemos o trabalho da mãe terra, todo o necessário para a alimentação. O papa nos diz que este sistema é insustentável, é necessário criar um novo modo de vida e isto vem de baixo, dos povos”.

Pedro Gutierrez Jiménez, do Instituto Nacional para a Senilidade (Insen), ressalta que “receber a visita do Papa, sua palavra, representa alento, ânimo, fortalece a nossa esperança. Antes, cuidávamos dos caminhos, sobre os quais se dizia e para a construção de outro modo de vida e de fazer igreja. “Desde 1991, começamos a caminhar aqui, em cinco zonas, para recuperar, visibilizar, compartilhar nossa voz teológica e experiência de vida. A Teologia Indígena, uma voz profética e que se queixa e se lamenta. Um manancial de humanidade, que pode ser fortalecida, para a vida da humanidade”.

Jennifer Haza, diretora de Melel Xojobal, destaca que: “As organizações que integramos a Rede pela Paz e Melel Xojobal pedimos ao papa Francisco que exorte os governos estadual e federal a que respeitem, garantam e protejam os direitos humanos, resguardem e garantam um verdadeiro estado de direito; que atendam às causas que geram os conflitos e situações sociais desfavoráveis para a população, e que prestem atenção às suas obrigações e responsabilidades políticas, sociais e jurídicas, que permitam uma vida mais justa, digna e em paz, em Chiapas”.]

Notas

(1) http://www.jornada.unam.mx/ultimas

(2) http://www.melelxojobal.org.mx/posicionamiento-ante-la-visita-del-Papa-francisco-a-chiapas/

(3) http://signisalc.org/redes/teologia/2016/02/francisco-iglesia-pobre-con-y-para-los-pobres/

(4) http://www.jornada.unam.mx/2016/02/16/opinion/020a2pol

(5) www.pagina12.com.ar

(6) http://www.laopinion.com/2016/02/15/por-que-francisco-visita-una-tumba-en-chiapas/

(7) http://m.eleconomista.mx/entretenimiento/2016/02/14/Papa-reivindica-obispo-samuel-ruiz-su-visita-chiapas

(8) http://www.somoselmedio.org/article/pueblos-ind%C3%ADgenas-env%C3%ADan-mensaje-en-defensa-de-la-tierra-al-Papa-francisco

Cristiano Morsolin, trabalhador social e pesquisador italiano radicado na América Latina desde 2001, com experiências no Peru, Colômbia, Equador, Bolívia, Paraguai, Brasil. Cofundador do Observatório sobre a América Latina Selvas de Milão (Itália), autor de vários livros.

Blog: https://diversidadenmovimiento.wordpress.com/

Link: Agência Adital.

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