O sumiço de dois amigos e o fim das ilusões políticas e sociais

Tao 04
Crédito da foto: pimentacomlimao.wordpress.com

Helena e Fernando foram duas personas (segundo C.G. Jung, persona é a personalidade que o indivíduo apresenta aos outros como real, mas que, na verdade, é [pode ser] uma variante às vezes muito diferente da verdadeiraw.p.) que acabei por conhecer dos tempos da escola de jornalismo ao início das minhas intensas andanças pelo país.

Eles não se conheciam, mas deduzo que se conheceram mais tarde.

Helena

Não sei o nome de família de Helena (no vulgar, o sobrenome), só sei que era uma mulher extremamente bonita, com esse cobre na pele que nos vem dos índios, nascida ou no Vale do Paraíba paulista, ou nos interiores mineiros.

Fora secretária executiva de uma das diretorias da Johnson & Johnson Brasil; era um bocado culta, dominava algumas outras línguas que não a portuguesa (inglês, francês, espanhol e quem sabe italiano e alemão) e fora casada com um engenheiro da própria empresa, com quem tivera um filho.

E é exatamente aí que se inicia a singularidade de sua vida.

Recém-mãe, Helena se fartou da vida de secretariado e se assustou com as responsabilidades da maternidade.

Numa manhã de verão dos meados dos anos 70, Helena desancou o diretor da empresa, pediu demissão e foi para casa.

Assustado, o executivo chamou o marido da, agora, ex-secretária para que desse um jeito na situação.

O engenheiro encontrou Helena de malas prontas e com o filho nas mãos: “toma que o filho é teu! Cuide dele!” e desapareceu.

Helena reapareceu nos altos de Olinda (PE), onde comprou uma casa e onde a conheci. Ela costuma frequentar a praia do Janga, onde eu morava na época, e o seu aparecimento domingueiro causava furor entre os homens e ataques de ciúmes nas mulheres.

Helena tinha dinheiro, não vivia de especiarias como os hippies tradicionais e também adquirira uma casa na Chapada dos Veadeiros (GO) – ou em Alto Paraíso, ou na Vila de São Jorge (não sei ou certo) – e dividia sua jornada anual entre as duas moradias.

No início do milênio, em Alto Paraíso, cruzei com uma senhora toda sorrisos e simpatias, de cabelos longos e vermelhos, com uma bata imensa colorida (proposicional ao seu corpo).

De pronto entendi que fosse Helena, mas resolvi não abordá-la, provavelmente com medo da decepção.

Fernando

Fernando era Mesquita (não esse Mesquita jornalista, diretor de imprensa do Senado, gente ligada ao Sarney e hoje enrolado nessa história das medidas provisórias, investigada na Operação Zelotes) e o conheci no curso de jornalismo da Casper Libero (SP).

O colega de turma (que nunca exerceu a profissão de jornalista) era estudante da sociologia da USP, nos anos 60, e foi preso no Congresso da UNE , em Ibiúna, em 1968; e torturado e julgado e condenado a dois anos de prisão, da qual saiu para cursar jornalismo na Casper.

Fernando Mesquita era um cara divertido e criativo.

Naqueles tempos ainda distantes da internet e do photoshop, Mesquita construía, com tesoura, papel, caneta e cola, divertidas sátiras ao regime militar, sátiras essas que colocava em murais estudantis e/ou pregava em postes e muros da cidade.

Assim que terminou o curso de jornalismo, Fernando Mesquita desapareceu de São Paulo e foi reaparecer em Alto Paraíso.

Assim como Helena, Fernando Mesquita era um ambientalista/ecologista precoce; assim como a bela da Johnson & Johnson Brasil primava pela liberdade, execrava os partidos políticos e as militâncias ideológicas.

Ambos usavam a ironia, o cinismo e o bom-humor para sobreviver num mundo árido, pleno de contradições e de verdades absolutas, algumas delas explícitas, outras submersas na nossa pequenez.

É provável (não tem como ter sido o contrário) que tenham se conhecido na Chapada dos Veadeiros – ou em Alto Paraiso, ou mesmo na Vila de São Jorge.

O que fica

Dessa jornada dupla e provavelmente confluente fica a vontade de viver, de viver livremente, sem as amarras convencionais antigas (estado, família, religião, partidos políticos, sindicatos, empregos) ou modernas (grupos militantes e sectários, os neo-evangelizadores, os trazedores das boas novas do mundo contemporâneo).

Mas fica também outra lição: não se vive sem coragem, sem rupturas, sem jogar tudo para o alto e sem seguir adiante.

Embora a história seja bem mais velha que Helena e Fernando, ainda hoje poucos a entendem, especialmente políticos e empresários, e seus aderentes, que dos dois primeiros (sobre)vivem calados, ordeiros e pacíficos.

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