Alienação e crueldade em tempos de barbáries brasileiras

Tortura
Crédito da ilustração: jornalggn.com.br

Vou tentar não ser muito cruel. A vida já faz a sua parte, embora seja ela, no geral, muito boa.

Há instantes recebi notícia de que um ex-colega de trabalho (creio termos trabalhado juntos por seis anos) faleceu, bêbedo, numa sarjeta.

Não quis saber maiores detalhes do acontecido.

Trabalhamos juntos de 70 a 75, o que quer dizer no auge da repressão da ditadura.

Não me lembro de ele se interessar pelo que acontecia por esses brasis sob o tacão dos ditadores.

Era cioso, apenas, de sua noiva (com a qual, acredito, acabou casando) e com sua carreira na empresa na qual trabalhávamos.

Minha relação com esse tipo de gente era superficial e do que me lembro, uma vez ajudei-o a se livrar de uma enrascada na qual se meteu por conta de dinheiro.

Me estranhava muito que gente de todas as idades, especialmente gente jovem, como erámos na época, não se interessasse pela ditadura, pela tortura, pelos sequestros, pelas mortes.

Talvez isso, pelo menos em parte, explique o meu pouco caso para com a notícia de sua morte, e da maneira como ela pode ter ocorrido.

De outra parte tendo a reconhecer: conta muito algumas pechas que me colocaram ao longo da vida – a de ser frio e a de ser cínico.

Frio não sei ao certo. A vida não me testou ainda.

Cínico, sim. E como já respondi, meio que irritado e sarcástico a um amigo, prefiro o cinismo à ingenuidade.

Coxismo e Direitos Humanos

Já discuti/revelei em outros textos neste blog (matéria-prima com a qual poucos gostam de trabalhar) que a maioria absoluta dos brasileiros apoiava a ditadura militar ou pelo menos lhe era indiferente, assim como indiferentes eram às atrocidades por ela praticadas.

Isso fez com que eu rompesse com a maioria dos meus amigos de então.

Foi um corte abrupto que muita gente não entendeu.

Aqueles que ainda demonstravam alguma sensibilidade, com o passar do tempo evoluíram para uma posição reativa à democracia e aos direitos humanos e passaram a apoiar ou pelo menos minimizar as atrocidades perpetradas pelas forças repressivas, principalmente no pós-ditadura.

Esse pode ser um bom início para se começar a entender o “fenômeno coxinha” que se alastrou pelo país, e que, entre outras brutalidades, criminaliza e agride até gente que veste vermelho.

Apostaria todos os meus parcos caraminguás que o meu ex-colega morto, bêbedo, numa sarjeta caberia como uma luva nesse modelito.

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