O que virá depois da queda de Dilma poderá ser o cu do pato

Cu

Dos vários depoimentos que colhi nas ruas por estes dias, vale destacar quatro.

O primeiro, o de um segurança noturno que (diz ele) sempre votou no PT e para quem não há a menor possibilidade de a presidente Dilma Rousseff cair.

O segundo, de uma senhora aposentada que também diz ter sempre votado no PT, mas que não sabe dizer se Dilma cai ou não cai, mas reza para que não caia.

O terceiro, de um comerciante que diz ter votado todas as vezes em Lula, mas nunca em Dilma, mas para quem a presidente não cai por estar mancomunada com Eduardo Cunha, que, para ele, também não cairá.

O quarto, de um mecânico que diz ter votado (todas as vezes) em Lula e em Dilma, mas se sente traído e diz que Dilma cai dia desses.

Noves fora a certeza, a dúvida e a incógnita dos três primeiros, vale ressaltar aqui o complemento do quarto.

Não interessa o que vai acontecer depois. O importante é a queda de Dilma. Depois a gente cuida do resto.”

Tangentes

Argumentei com o mecânico que o seu discurso era escapista e moralista.

Ele pediu para eu explicar.

“É escapista, pois você está querendo, pelo visto, apenas derrubar a Dilma sem se importar com o que vem depois. Essa história de que ‘depois a gente cuida do resto’ não funciona. Quem lhe garante que as ruas vão voltar a se agitar para derrubar o próximo presidente, mesmo que ele seja um bandido?”

“É… pode ser”, respondeu.

“E é moralista, pois você (e todo resto de batedores de panela) está usando a velha tática de acusar de crime quem você não gosta e amenizar ou desprezar o crime dos outros.”

“É… mas ela vai cair, não tem (outro) jeito.”

Percepções

Apesar da boa reação nas ruas, como a de ontem, por exemplo, em praticamente todo país, as pessoas (em sua maioria) tendem a acreditar que Dilma Rousseff não resiste.

Cai mais cedo ou mais tarde.

Há vários divórcios aí, no entanto:

– uma coisa é o que a rua pensa, outra é o que farão deputados e senadores ao votarem o impeachment;

– uma coisa é o que a rua pensa, outra é como o Supremo irá reagir ao imbróglio;

– uma coisa é o que a rua pensa, outra é o que os apoiadores de Dilma (artistas, intelectuais, ativistas e militantes) querem que ela pense.

No balanço de perdas e ganhos, a rua aparenta estar dividida e desconfiada, mas Dilma mantem-se ameaçada de queda.

Até Luiz Inácio anda pessimista e acha que não há mais jeito de a presidente se salvar.

O cu do pato

Como se vê na ilustração acima, um sujeito resolveu barbarizar a Fiesp e o seu pato de borracha, mas não sem antes barbarizar a ortografia.

Cu é um monossílabo com uma semivogal (u) e monossílabos assim não levam acento.

Essa história remete a uma dos templos da ditadura, quando um painel humano, montado nas arquibancadas do estádio do Pacaembu, em SP, mandava a ditadura militar “tomar no cú”.

O acento do cu (que não tem acento) era “um japonesinho” (deveria ser sansei, creio).

O erro de ortografia chamou mais a atenção da imprensa do que o protesto contra os ditadores.

A ditadura não caiu por aqueles dias, só bem depois e não foi pelo cu do japonesinho.

Assim como Dilma não ficará no poder por conta do cu do pato.

Protestar é sempre legal, mas é preciso bem mais do que esperanças, raivas, ansiedades e erros de ortografia.

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