A cusparada do Zé de Abreu e o processo civilizatório brasileiro

Nem vou lá muito com a cara do ator-militante José de Abreu.

Ele tem lá uma bela história de resistência à ditadura militar, mas isso não lhe é passaporte para dizer a montanha de sandices que costuma dizer nas redes sociais (mais que em entrevistas).

Mas ele agiu correto ao dar a cusparada no casal de agressores do restaurante japonês em São Paulo.

Foi até ameno. Poderia atirar, por exemplo, um copo na cabeça do macho do duo e dar um beliscão nos peitos da fêmea.

Repetiu o que fez Jean Wyllys, recente, com Bolsonaro, o insano.

Estiveram ambos certos e corretos.

É preciso reagir sempre. Atitudes complacentes e passivas não ajudam em nada. Pelo contrário: dão força ao crescer da onda de intolerância.

Reagindo podemos chegar a uma conflagração?

Pode ser! Mas e daí?

O interessante é ler e ouvir o que diz a insanidade, ao qualificar a reação de Zé de Abreu como um marco da incivilidade de petistas, esquerdistas, anarquistas, comunistas e blábláblá.

Xingar o cara de “ladrão” e a sua parceira de “vagabunda” vale, faz parte. Reagir não!

Tristes trópicos”!

Por muito menos, um amigo chamado Galvão, no balcão de um boteco em Cotia (SP), deu uma tapona na cara de um sujeito que lhe enchia a paciência, e este, surpreso, não conseguiu reagir.

A história acabou por aí.

Das civilidades

Quando éramos adolescentes costumávamos dizer que Norodom Sihanouk (rei do Camboja em dois períodos – de 1941 a 1955 e de 1993 a 2004) criara um ótimo método para civilizar o seu povo: varadas.

Cuspiu no chão: 5 varadas; ofendeu outro com palavrão: 10 varadas; urinou na rua: 20 varadas.

A brincadeira não nos serve de consolo e nem de exemplo, pois coisa parecida ocorreu por aqui com índios e negros, e ainda acontece com quem ousa desafiar a bandidada que domina o tráfico (o que é uma antecipação do assassinato).

Mas coisa parecida também foi imposta na breve presidência de Jânio Quadros e suas multas contra cuspir no chão e usar biquíni nas praias.

Das humilhações

Cuspir e dar uma tapa na cara são atos de humilhação.

Por mais que a “vítima” reaja e até, eventualmente, vença da briga, vai ter de carregar pelo resto da existência a marca do desprezo e do escárnio.

São fardos ruins de carregar.

Wyllys, Abreu e Galvão até foram “bonzinhos” e complacentes.

Outro(s) de pavio mais curto poderia(m) ter atirado em seus agressores.

C’est La Vie, baby!

Referências

Tristes Trópicos

As cidades de Tristes trópicos

O Processo Civilizador Segundo Norbert Elias

O Processo Civilizatório – Etapas da evolução sociocultural  Darcy Ribeiro

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