Quer homenagear a sua mãe? Então diga o que ela fez na vida para merecer

Dona Elvira
Elvira Boschetti dos Santos

Há alguns anos quando tentei levar a minha mãe e minha ex-esposa para um almoço festivo no “dia das mães” não consegui.

Os restaurantes estavam todos lotados. Eu não sabia que deveria “reservar” com antecedência uma mesa para o evento.

Assim como no “dia dos namorados” os motéis ficam abarrotados, carecendo de reserva, no “dia das mães” ocorre a mesma coisa.

Com o advento e o rápido crescimento das redes sociais ficou mais fácil homenagear as mães e ainda não gastar muito (não sei se isso funciona no “dia dos namorados”).

Basta postar uma foto de mami e dizer uma série de lugares comuns; de bobagens falsas e ridículas; de frases tolas, fúteis, caretas e toscas para que nossa alma de bom filho e de boa filha fique lavada.

E muitos e muitas que ainda têm o desplante de mostrar essas coisas para a ”mãezinha querida, mãezinha do coração”.

Se fosse mãe e um filho me aprontasse uma coisa dessas jogava eu uma panela de água fervente em sua cabeça.

Dos filhos-da-mãe

Quantas pessoas têm coragem de expor o que suas mães fizeram na vida para sobreviver, não importando o que: prostituição, ciência, agricultura, emprego doméstico…?

Talvez se envergonhem do que a mãe fez ou deixou de fazer, e isso os impeça de homenageá-las, o que não implica em dizer necessariamente que esteja o filho e a filha desobrigados a custear um bom e substancioso almoço, sem esquecer, é claro, o presentinho, esteja a mãe viva ou morta, não interessa.

Das raízes maternas

Minha mãe é esta da foto, casmurra, malcriada e muitas vezes injusta como todas as mães.

Elvira Boschetti dos Santos, ou dona Elvira ou, para os de casa, Vira.

Em 9 de julho deste ano completa 92 anos (esperemos que complete).

Tem lá seus probleminhas de saúde como todos os velhos e todas as velhas têm.

Mas continua falante e autoritária. Deve morrer assim.

Veio de uma família paupérrima; alguns diriam humilde, definição com a qual não concordo, pois a palavra humildade não é verbete no dicionário da família.

São gentes vindas da região do Veneto, na Itália; meu avô, José Boschetti, nasceu numa aldeia próxima à Veneza; minha avó, Laurentina Bonadio, no interior de São Paulo, mas sua família também é migrada daquela região.

Zé Boschetti foi pai de nove filhos em dois casamentos (dois no primeiro, sete no segundo, com dona Lora, a Laurentina).

É dessa segunda prole que vem minha mãe, nascida de Araçoiaba da Serra (no sudoeste paulista), de onde a família migrou para Cotia (na grande São Paulo) em 1929.

Da labuta

Dona Elvira iniciou-se na labuta diária aos 9 anos como lavadeira de roupa em rio.

A profissão praticamente não existe mais no Brasil, mas talvez resista em áreas mais pobres do país, ainda não contempladas pelo trabalho formal remunerado e pelos direitos trabalhistas.

Fez isso até mais ou menos os 20 anos quando começou a namorar meu pai (Libânio Sílvio dos Santos) com quem se casou 5 anos mais tarde e teve quatro filhos, um deles, o segundo, Antônio Carlos, morto com menos de um ano.

Logo após meu nascimento, graças a um QI (“quem indicou”), dona Elvira virou funcionária pública no Estado de São Paulo, na qualidade de “servente extranumerária”, aposentando-se 33 anos e meio depois.

Para quem não sabe, as obrigações básicas dessa atividade eram: varrer e limpar o chão e lavar as privadas da escola aonde trabalhou e ainda tomar conta de meninos e meninas no recreio.

Hoje, com quase 92 anos, vive de uma aposentadoria mixuruca, com dores e neuroses cultivadas, ao lado de um cara (o seo Libânio, meu pai) que também deve completar 92, em 7 de dezembro, e de meu irmão (Carlos Roberto, 55 anos), tido como incapaz.

Há coisa pra se festejar? Provavelmente não!

Mas muito o que homenagear. Viva dona Elvira!

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