Escrever é uma arte um bocado perigosa

Escrita

Quem não conhece os meandros da profissão talvez não perceba que editar uma página de jornal é, por vários motivos, uma grande tortura, especialmente pelo profissional ter de se submeter aos rigores da diagramação, rigores esses impostos pela limitação do espaço físico da página (a mancha) e pelo tamanho que títulos, textos e ilustrações devem ou podem ter (veja tb. nota abaixo).

Como profissional de imprensa trabalhei em nove jornais diários. Em um deles (Folha de São Paulo) fui correspondente no Amazonas (Amazônia Ocidental); nos demais sempre editor de alguma coisa: política, economia, nacional, internacional, turismo, opinião e primeira página.

1 X 32

A experiência mais insólita se deu no Jornal do Commercio, de Manaus, onde fui editor de primeira página por mais de dois anos.

A manchete estava presa em apenas uma linha de 32 caracteres, incluindo-se os espaços que separam as palavras, como no exemplo fictício abaixo:

Brasil perde de sete da Alemanha

Fosse qual fosse o assunto (economia, polícia, política etc.) a manchete necessariamente deveria caber em uma linha de 32 caracteres.

Mas podíamos exercitar o nosso lado minimalista, como por exemplo após mais um anúncio do salário mínimo (isso na era do Sarney): Saiu o mínimo. É mínimo (23 caracteres com espaços).

Ou no dia seguinte à desclassificação do Brasil para a França, no segundo mundial do México, quando a capa foi editada sem título e sem chamadas e ilustrações, toda negra, apenas com o logotipo do jornal no alto da página.

Das pontuações

O título do salário mínimo leva a outra discussão interessante.

Não se usa pontuações em títulos (vírgula, ponto, ponto final, ponto e vírgula, dois pontos, exclamações e interrogações).

O que fizemos, no JC da época, foi um atropelo das “regras vigentes” para chamar a atenção do distinto público e mostrar a nossa insatisfação (e a de toda população) para com os reiterados anúncios (mensais) do salário mínimo que nunca repunham as perdas salariais provocadas pela inflação.

Já a capa toda negra, nem original era, nem teve uma justificativa aceitável. Mas cometemos a besteira, fazer o que?

Dos artigos

Muita gente reclama da ausência dos artigos definidos nos títulos, por exemplo: O Brasil perde de sete da Alemanha.

Em alguns casos se usa sim, como nesse próprio exemplo, onde o “a” aparece na contração “de” + “a”.

Iria soar estranho escrever Brasil perde de sete de Alemanha.

Alemanha, assim como Rio de Janeiro, exige o uso do artigo definido quando a palavra tem função de complemento nominal.

A ausência de artigos definidos obedece a uma lógica econômica: desocupam espaço. Só isso. Pode acreditar.

Mas há casos em que não se pode e nem se deve usar mesmo, por exemplo, antes de nomes próprios: o Pelé diz, a Fernanda Montenegro cai do palco

Dos tempos

Se alguém não percebeu ainda, vale chamar a atenção para o tempo do verbo em jornalismo.

Ele está sempre no presente do indicativo, tenha já o fato acontecido ou esteja alguma coisa para acontecer.

Ainda no exemplo primeiro deste texto, Brasil perde e não Brasil perdeu.

No futuro, Empossado, Temer sai de férias amanhã, e não Empossado, Temer sairá de férias amanhã.

Aqui também a regra segue a uma lógica.

Coisas do passado normalmente não despertam atenção do consumidor de informação; para as coisas do futuro ele espera acontecer para depois consumir.

Mas se há regras, também existem exceções. Ninguém vai escrever Jesus Cristo é crucificado por

Da web

A entrada em cena das mídias pela web bagunçaram as certezas absolutas dos jornalistas mais conservadores.

Blogs, sites de notícias usam e abusam das pontuações, dos tempos verbais diversos e não obedecem (no geral) limites de espaços em títulos e textos.

É uma mudança e tanto, mas que precisa ser usada com lógica e parcimônia.

Imagine alguém escrevendo este título sobre a saída de Dilma da Presidência:

A ex-guerrilheira de 68 anos, Dilma Vana Rousseff deixa o Palácio do Planalto hoje para dar lugar a seu vice, o paulista Michel Temer, acusado de articular a sua queda após meses de crise econômica e política que assolam o país e assustam os brasileiros.

Não há quem aguente um troço desse.

Nota: o texto se limitou aos jornais, mas o mesmo vale para as revistas; não se entrou para o campo da radiodifusão (TV e rádio) que segue outras regras, mas igualmente castradoras e limitantes.

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