Crise coloca a pique sonho higienista de Brasília

Moradores de rua no DF
Moradores de rua no Distrito Federal – foto g1.globo.com

Projetada, desenhada e cravada nos chãos do Cerrado do planalto central brasileiro por três comunistas (Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Burle Marx) Brasília se pretendeu moderna, eficiente e… higienista.

Higienismo, na área médica, diz respeito à higiene, ao que é sanitário, mas quando a palavra é levada à sociedade como um todo e às divisões de classes se aproxima perigosamente do eugenismo – ou seja, da busca por uma seleção nas coletividades humanas.

Brasília (quase) sempre foi hábil em esconder suas mazelas e escorraçar moradores de rua, pedintes, pobres desempregados e marginais para as periferias de suas cidades satélites, deixando limpo e arejado o corpo do avião, por onde circulam burocratas do serviço público, autoridades governamentais e aquelas gentes das embaixadas.

Mas nem tudo é o que parece ser. Sempre foi possível encontrar, especialmente na rodoviária do Plano Piloto, um ou outro estranho no ninho, sujo, mal cheiroso, inconveniente na sua pedição por alguma esmola.

Num ou noutro ponto da curta história brasiliense se permitiu que essa gente diferenciada por aqui aparecesse para externar as suas lamúrias e lamentações, especialmente em épocas natalinas.

Passada a efeméride, estavam obrigados a retornar aos seus cantos distantes e desconsiderados.

Não obedecessem à ordem de retorno, a polícia cuidava, como cuida costumeiramente dos pobres e desvalidos. Isso se não aparecessem bandos de jovens bem nascidos e de boa cepa a queimar índios e a espancar moradores de rua com tacos de beisebol.

Das responsabilidades

Dá-se como responsável pelo rompimento da bolha higiênica que envolvia a ilha da fantasia cerradina o ex-governador Joaquim Roriz, que incentivou a migração de hordas de miseráveis e flexibilizou o trânsito dessa gente pelo corpo de avião.

É uma acusação um tanto quanto exagerada, pois o fenômeno se daria de qualquer forma, em razão do crescimento físico e populacional do DF, da demanda por serviços vagabundos e mal remunerados e pelo esgotamento do receptor histórico de migrantes, ou seja, o Estado de São Paulo.

Do crescimento

As políticas públicas implantadas pelo governo petista não fizeram cessar a migração, muito pelo contrário, pelas razões expostas logo acima.

Brasília, à época, transformou-se em um Eldorado e suas ofertas de oportunidades e de empregos, em manás.

A ilusão, como é comum nesses casos, iria, mais cedo ou mais tarde, se dissipar.

A crise econômica, iniciada nos meados da década passada, e agudizada nestes meados de agora, pegou essa gente toda desprevenida e despreparada.

Se o sonho ainda se mantém (até porque a maioria não tem como voltar às suas terras de origem), a crise empurrou parte desse contingente para as largas ruas e avenidas do Plano Piloto.

A bolha, antes hermética, explodiu de vez.

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