Os conservadores avançam e só nos resta ir morar no Paraguai

Larissa
A paraguaia Larissa Riquelme, atriz, modelo e musa da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul: “vem pra cá você também, vem” (paraguaia.extra.globo.com)

Quando éramos adolescentes dizíamos, em tom de brincadeira provocativa e ofensiva, que nos exilaríamos no vizinho Paraguai assim que a metade da população brasileira “virasse crente”.

“Crente”, entenda-se, é todo aquele cristão não católico.

O Paraguai sempre foi o “patinho feio” da América do Sul, um país mediterrâneo (sem saídas para o mar), vítima de uma das maiores atrocidades da história mundial (A Guerra do Paraguai).

A sociedade e o(s) governo(s) paraguaio(s) são responsabilizados pelos seus vizinhos por um rosário enorme de mazelas e malfeitos: prostituição, contrabando, violência, corrupção e por aí vai.

Com tantos “crentes” espalhados pelas ruas brasileiras “pregando a palavra do Senhor”, o mais sensato seria morar no Paraguai.

Eram tempos de medos superdimensionados e de previsões catastróficas:

– até 2000 não restará uma única árvore na Amazônia (a rigor quase chegamos lá mesmo);

– em 2000 a maioria da população mundial será negra (Nossa! Que medo!).

Dos “crentes”

Embora não tenha religião definida, já fui a cultos, cerimônias religiosas, missas e pregações as mais diversas, tanto de igrejas e confissões cristãs, como as de origem asiática (budismo, bramanismo); a centros espíritas e de matriz africana.

Há coisa de dois ou três anos até pensei em produzir um documentário sobre a religiosidade brasileira, coisa que não saiu das intenções e das primeiras anotações e pesquisas.

Já narrei em outras oportunidades (portanto vou saltar essa parte) o impacto que me causaram as cerimônias do catolicismo e todo gestual e suntuosidade de “um terreiro de umbanda” na Bahia.

Tenho dois primos que são “pastores” de igrejas neopentecostais cujos nomes me escapam.

Um deles, inclusive, publicava um artigo por mês no jornal que eu editava no Embu, na Grande São Paulo, hoje Embu das Artes.

Eram artigos bons, bem escritos e quase eruditos. Sempre achei que não eram dele os textos, mas nunca consegui provar o plágio.

Jornalista e observador (tarefas que eu mesmo me impus) conversei diversas vezes com esses meus dois primos, assim como com outros pastores (“crentes”) e com alguns fiéis dessas igrejas, para buscar entender que fé era/é essa que professavam/professam.

Das farsas

Diferente de Karl Marx, não entendo a religião como “o ópio do povo” , mas um espaço de espraiamento de ideologia (no mais de vezes conservadora) e um modo de subsistência de seus padres, pastores, mulás, mestres, gurus, guias, monges etc. e tal

As religiões, no mais das vezes e em seus inícios, têm um quê revolucionário, que vai se perdendo com a criação e evolução de seus dogmas (todas têm dogmas) até se transformarem em meios de vida “dos escolhidos” e em formas diversas de ilusionismo e de enganação.

Dos perigos

Uma das variantes não levadas em conta por Marx e pelos críticos das religiões é o “livre arbítrio”, ou seja, a condição de o ser humano dar destino à sua vida segundo sua própria vontade.

Que não se descarte, mesmo assim, o poder que as religiões têm de “fazer a cabeça” ou de doutrinar os “fiéis”.

Ocorre que se forçamos olhar com mais atenção e acuidade para o comportamento da sociedade, vamos começar a entender que o que vemos de “conservador” não vêm das religiões, muito pelo contrário, saem dele para contaminar as confissões religiosas.

No atual momento da vida política nacional estamos todos prontos para estirar os nossos dedos acusadores na direção a pastores e a “crentes”, responsabilizando-os pela onda preconceituosa e conservadora que varre o país (homofobia, sexismo, violência contra a mulher, negação das políticas públicas inclusivas etc.).

Será isso mesmo?

Já paramos para conversar com essa gente toda que vai às ruas clamando por retrocessos e pela punição dos infiéis e desregrados?

Seriam todos eles “crentes” ou pelo menos os “crentes” formariam a maioria dos protestadores?

Já prestamos atenção aos “programas policialescos” das emissoras de rádio e TV? No discurso de líderes partidários? Na doutrinação dos programas de ajuda, tipo AAA? No que dizem nossos professores e educadores e cientistas? No comportamento da classe média e da população que habita a periferia? Já dirigimos a nossa atenção ao que falam e defendem nossos parentes e amigos; nos ateus, nos agnósticos, nos progressistas, nos esquerdistas, nos liberais?

Das impropriedades

Se a equação de Marx não fecha, a nossa também não, ao inferiorizarmos o papel do tecido social como um todo para elevarmos à categoria de demônio as religiões e muito particularmente as confissões pentecostais ou neopentecostais, os chamados “crentes”.

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