Trabalhar de graça é uma boa para quem não tem de pagar

EXploracao
Crédito: oblogouavida.blogspot.com

Um traço irritante (existiriam outros, mas não sei quais) da antropóloga e professora Rute Cardoso, ex-esposa de Fernando Henrique Cardoso, e, sob sua presidência, primeira-dama, era a insistência nos trabalhos voluntários.

Trabalho voluntário quer dizer uma coisa só: você trabalha pra danar, é cobrado um bocado e não recebe nada por isso.

Minha tese sempre foi a seguinte: cobre sempre, mesmo que pouco, mas cobre, e, de preferência, receba.

Num país onde o trabalho remunerado sempre foi escasso, mesmo nas épocas em que se dizia não ser, defender e pregar a favor do voluntariado soa como heresia e desfeita a quem não tem nenhuma coisa, nem outra: trabalho e remuneração.

Essa prática, no entanto, não se restringe a países subdesenvolvidos, com mercado de trabalho escasso.

Pelo contrário, é prática corrente nos países desenvolvidos e atinge especialmente as populações de baixa renda e de educação precária.

Quem fala disso é o jovem jornalista britânico James Bloodworth em seu livro “O mito da meritocracia” e em matéria para Folha de São Paulo: “Jornalista ataca crença de que a sociedade é meritocrática”.

Dos exemplos

Na matéria, para embasar o que fala, Bloodworth cita o seu caso com o site Huffington Post, que por aqui tem seu similar, o Huffington Post Brasil.

O Huffington Post é tido como um “site progressista”, assim como Bloodworth.

Convidado para escrever sobre o seu próprio livro no Huffington Post, Bloodworth descobriu que não seria remunerado por isso.

Bem humorado, retribuiu convite com um texto curto e grosso:

1) “A Acabei de escrever sobre as dificuldades que jovens da classe trabalhadora têm de se dar bem em suas profissões por causa da proliferação do trabalho não remunerado.”

2) “O site Huffington Post disse que parecia interessante. Me pediram para escrever algo.”

3) “Infelizmente, não podia me pagar – apesar de serem uma companhia multimilionária.”

4) “Então, eis meu artigo: você faz parte do problema, Huffington. Fim.”

Nas 144 páginas do livro, Bloodworth é menos conciso e nelas demole o mito, arraigado em países como Estados Unidos e Grã-Bretanha, segundo o qual “se você for bom e trabalhar duro (mesmo sem receber), terá a sua chance”.

Leituras complementares

Os mitos da meritocracia e da brasilidade a serviço dos privilégios no Brasil – Desmascarando o mito do mérito individual

Em questão, o mito da meritocracia

A desigualdade no século XXI. A desconstrução do mito da meritocracia

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