Evolução e redefinição das palavras na crise política e econômica brasileira

Fora Dilma
“Coxinha” ou “trouxinha” – foto: economia.uol.com.br

Um das coisas mais difíceis da vida é encarar o que se chama de choque cultural. Tenho uma experiência danada nessa história. Nascido no Estado de São Paulo, já migrei para 8 outras “unidades federativas” (estados e distrito federal), morei nas cinco regiões brasileiras e em 17 de suas cidades.

Se diz choque cultural em relação à ansiedade e aos sentimentos de surpresa, desorientação, incerteza, confusão mental que se apossam de uma pessoa que tem de conviver em uma diferente e desconhecida cultura ou ambiente social.

As primeiras semanas não são fáceis não, muita gente não aguenta e volta para a casa.

Das semânticas

Em novo ambiente você tem de se (re)adaptar: comida, clima, música, vestuário e por aí vai.

Talvez o mais difícil seja entender o que as pessoas dizem. Cada estado ou região denomina as coisas a seu modo, por exemplo, mandioca, macaxeira, aipim, aipinho; ou pernilongo, muriçoca, carapanã.

Todo mundo sabe que as palavras ora usadas pelo português brasileiro têm origens diversas: angu (africana), abacaxi (indígena), mosquito (portuguesa), abajur (francesa), por exemplo.

A religião e o ambiente também têm grande importância nessa história.

Alguém já contou quantas ruas, avenidas, bairros, municípios e até estados têm os seus “são” e as suas “santa”?

E “comprido”, “curto”, “dentro”, “fora”, “mato”, “branco”, “negro”?

Há usos bastante singulares para algumas palavras. No Amazonas, um dos estados no qual morei, um ônibus não está vazio ou com pouco passageiro, mas “seco”, e a catraca não é catraca, mas “borboleta”.

Há até usos de sentido conflitante para a mesma palavra, como por exemplo, “rapariga” que no sul brasileiro quer dizer uma “mulher jovem” e no nordeste, uma ofensa.

Das metamorfoses

Não se pode dizer, sem cometer equívocos, que apenas os momentos de extrema tensão social  gerem neologismos e/ou permitam que a sociedade dê novos significados a palavras e expressões já de uso comum.

Mas no atual momento da crise política e econômica brasileira e com o acirramento ideológico um sem número de palavras e expressões estão ganhando novas definições.

Petistas e esquerdistas são identificados como “enroladinhos” e “mortadelas”.

Os anti-petistas também ganharam suas distinções na guerra política e ideológica: “coxinhas” e “trouxinhas”.

Há aqui, no entanto, uma mutação, uma evolução que guarda em seu interior mais do que a ironia costumeira, mas uma crueldade que espicaça e humilha o adversário/inimigo político.

Se no caso petista há uma linearidade culinária, digamos assim – “enroladinhos” > “mortadelas” -, no caso dos anti há uma redefinição de sentido com a mudança da palavra: (“coxinhas” – gente pouco esclarecida, meio bobalhona) > (“trouxinha” – gente fácil e corriqueiramente enganável).

Com a nova pecha, os anti acabam aprisionados pela ideia de gente alienada, vítimas inocentes da manipulação e do engodo, que tenta se adaptar a uma nova situação, coisa que pode, com certa liberdade, ser enxergada na música de  Raul “Maluco Beleza” Seixas, “Metamorfose ambulante”.

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