Janelas e panelas ajudaram a derrubar Dilma Rousseff

Penelaço
Panelaço contra Dilma – só a “zelite” participou? – foto: http://www.pragmatismopolitico.com.br

A partir do momento em que parte da sociedade brasileira ocupou as janelas de seus apartamentos, casas e estabelecimentos comerciais para bater panelas contra Dilma Rousseff, pedindo a sua destituição da presidência da República, petistas e o pró-petismo partiram em reação com dois argumentos:

– eram apenas as “zelites”;

– lugar de luta são as ruas e não as janelas.

Ambos os argumentos têm seus acertos e seus erros; mais erros que acertos.

É correto dizer que a maioria dos batedores de panelas é/foi formada por gente que possui uma conta bancária mais recheada que os demais brasileiros.

Mas é desonesto dizer que tenham sido apenas as “zelites”, pois as batições de panelas ocorreram praticamente em todos os bairros da maioria das cidades brasileiras (especialmente nas capitais), como registraram pesquisas de universidades (1) e como eu mesmo apontei por aqui no Núcleo Bandeirante, Distrito Federal.

O Núcleo (já disse anteriormente) é uma cidade-satélite de Brasília, majoritariamente habitada por gente de classe média baixa e por pobres (inclusive por migrantes haitianos que agora estão nos deixando para migrar para o Chile).

A batição de panelas correu solta por aqui e um dos ativistas mais expressivos foi um casal de classe média baixa (ambos pretos) que mora no mesmo edifício que eu e até hoje mantem afixado na janela o cartaz “Fora Dilma”.

Das simbologias

As ruas (generalizando) são efetivamente o melhor palco para revoltas, para externar repúdio e aversão, para derrubar governos e para fazer revoluções.

Neste aspecto, petistas e o pró-petismo estão corretos, mas (sempre tem um “mas”) onde o “bater panelas em janelas” entra nessa história?

Em dois dos termos da frase e das suas representações.

A história registra e guarda que ”bater panelas” é uma exteriorização popular contra a carestia, a falta de comida.

Bater panelas vai baixar o preço dos alimentos e fazer com que eles retornem aos nossos pratos?

NÃO! Trata-se de um ato simbólico, assim como o são queimar bandeira dos Estados Unidos ou sutiãs em lugares públicos.

Usar janelas para essa batição toda é estratégico para que exprimamos nossos descontentamentos?

É SIM! Como “bater panelas”, o uso das janelas se transformou num ato simbólico; numa forma de ver e buscar um novo mundo, um novo tempo (por mais piegas que isso possa parecer).

Na pobreza do contra-argumento de petistas e do pró-petismo foi isso que não se viu: a simbologia dentro das panelas e no vão das janelas.

Das janelas

Exceção feita às habitações de aldeamentos das sociedades primitivas (que não me tenham escapados outros exemplos), as janelas compõem a geografia das edificações, desde que o primeiro arquiteto teve a feliz ideia de criá-las.

Mais do que “arejar a casa”, as janelas são espaços de convivência, de abertura para o mundo externo e, no caso, para que indivíduos ou famílias inteiras externem suas opiniões e insatisfações.

Negar isso é só uma bobagem antidemocrática. (2)

A importância das janelas pode ser medida pela quantidade incontável de seu aparecimento em estudos, na sociologia, na psiquiatria, na psicologia, na urbanística, nas religiões e naquilo a que chamamos (generalizando) de cultura.

Por exemplo, na literatura: “Não basta abrir a janela / Para ver os campos e o rio /
Não é bastante não ser cego / Para ver as árvores e as flores
” (Alberto Caeiro [heterônimo de Fernando Pessoa], in Poemas Inconjuntos) ou “Da mais alta janela da minha casa / Com um lenço branco digo adeus / Aos meus versos que partem para a Humanidade” (Ibd).

Ainda também na MPB, no verso de Beto Guedes, em Paisagem na Janela (Da janela lateral do quarto de dormir / Vejo uma igreja, um sinal de glória / Vejo um muro branco e um voo pássaro / Vejo uma grade, um velho sinal”) ou em Chico Buarque de Holanda (A noiva da cidade): “Ai, como essa moça é descuidada / Com a janela escancarada / Quer dormir impunemente / Ou será que a moça lá no alto / Não escuta o sobressalto / Do coração da gente”.

Das notas

(1) Veja, por exemplo, em Outra leitura do papel dos movimentos sociais na queda de Dilma.

(2) Democracia não se constrói apenas através da Constituição e de sua garantia pelos poderes. A democracia não prescinde da participação do povo, quer seja votando, quer seja participando das políticas públicas, quer seja, ainda, se manifestando livre, espontânea ou de forma organizada.

Obs. 1 – Não se pode reduzir, por certo, a crise vivida pela presidente Dilma às janelas e às batições de panelas. Papel importante, e, quiçá, mais importante, tiveram o comportamento da imprensa corporativa nacional e as maquinações de empresários e políticos contrários do PT, como, de resto está perfeitamente espelhado pelo áudio vazado pela Folha de São Paulo, esta semana, que envolve o senador Romero Jucá (PMDB/RR).

A parte que coube ao povo foram as janelas, as panelas e as manifestações de rua.

Obs. 2 – Uma pergunta que se impõe necessariamente: quem antecedeu quem ou quem seguiu quem?

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