Aventureiros e exploradores ainda buscam a destruição da Amazônia

Amazonas
Guerreiras amazonas, lenda criada pelo explorador espanhol Francisco Orellana, em 1540. O mito resiste até hoje – crédito da ilustração: noamazonaseassim.com.br

A maior figura da literatura brasileira não tem nenhum caráter. É Macunaíma[1], personagem de Mario de Andrade. Macunaíma é um amazônida[2]: “No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite” (Ibd.).

O “herói sem nenhum caráter” deixa a região rumo a São Paulo em busca de recuperar a sua muiraquitã levada por um mascate peruano, Vesceslau Pietro Pietra, o gigante Piamã, que morava na Paulicéia Desvariada.

O livro de Mario mereceu e continua merecendo uma miríade de estudos; obra considerada que foi e que é anti-modernista, surrealista e inovadora, mas na sua transposição para o cinema perdeu praticamente todos os seus dotes e dons e parte de sua geografia.

Nas lentes do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, já falecido, São Paulo não é São Paulo, mas o Rio de Janeiro. Uma carioquice!

Coisa pouco percebida por estudiosos e estudos sobre a obra (daí o estupro geográfico cometido pelo cineasta) é a dicotomia posta por Andrade: São Paulo versus “o resto do Brasil”; a Bélgica versus a Índia (a tal da Belíndia[3]).

Das lendas

As lendas, os folclores, as visões distorcidas que cercam a Amazônia não são poucas e são antigas.

Dataria mais ou menos da época de Cristo a chegada de navegadores vikings[4] ao estuário do “maior rio do mundo” (coisa que também não é, posto ser maior o rio Nilo [em extensão]).

É nada provável que os guerreiros e navegadores nórdicos tenham dado as caras por aqui com seus barquinhos diminutos e frágeis a enfrentar o sempre indomável oceano Atlântico, especialmente na altura da linha do Equador.

Dos tempos das caravelas, ou seja, do início do século 16, é a Lenda das Amazonas.

Essa história foi inventada pelo explorador espanhol Francisco Orellana, em 1540, numa adaptação livre que tem origem na antiga Grécia, lugar de mulheres guerreiras “que andavam a cavalo, manipulavam o arco e a flecha com rara habilidade e se recusavam a viver com os homens em seus territórios”. Orellana acresceu à sua história que as amazonas nossas (icamiabas) decepavam o seio esquerdo para melhor manejar arco e flecha.

Não bastassem os demais, há um problemão na historieta de Orellana: não existiam cavalos por aqui naquela época.

Das aventuranças

A Amazônia é assim, terra de gente acolhedora e solidária (isso é um testemunho; morei na região por mais de seis anos) e alvo de cobiças, de saques, de aventuras e de soluções extremadas e irresponsáveis (e isto é a realidade), como a política de incentivo à ocupação da região, da ditadura militar, na década de 70, cujo slogan era “Terra sem homens para homens sem terra”.

Sem entrar no mérito do machismo da frase, há que se notar o que os ditadores não notaram ou não quiseram notar: por lá habitavam gentes de todas as origens, credos, cores e especialmente indígenas, que por lá estavam (e estão) há cerca de 17 mil anos.

Mas que os ditadores não purguem o pecado sozinhos, mas que dividam a purgação com o lulo-petismo que empurrou goela abaixo da natureza amazônica e dos amazônidas mirabolantes projetos de usinas hidrelétricas, que nada dizem respeito aos locais, mas, sim, ao desenvolvimentismo míope do Sul Maravilha[5].

Das intemperanças

No entanto, não só de aventureiros exteriores, estrangeiros e de paulistas[6] pena a Amazônia. Há os locais, como o controverso governador do Estado do Amazonas, José Melo (Pros), que, a revelia de estudos e pareceres, sancionou lei permitindo a criação de peixes não nativos nos rios que cortam o Estado.

Catástrofe ambiental a vista!

Melo tem histórias. Em 2014, a propósito de “apoiar” a reeleição de Dilma Rousseff, propôs a transposição das águas do rio Amazonas ao Nordeste, numa releitura da aventura são-franciscana inviável e inconclusa de Luiz Inácio Lula da Silva.

Matéria denunciadora da nova aventura melista publicou o jornal O Estado de São Paulo, em texto republicado pela Folha de São Paulo: “Nova lei estadual ameaça milhares de espécies de peixes em rios da Amazônia”.

A despeito das boas intenções, o texto do Estadão traz algumas desinformações, como:

– “O rio Amazonas tem mais de 600 km” – Não tem! A extensão total do rio é de 6.992,06 km.

– (o rio Amazonas) “corta seis países (Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia, Equador e Brasil)” – Não corta! O rio nasce na Cordilheira dos Andes, no Peru, com o nome Apurímac; no Brasil, ganha o nome de Solimões e no seu encontro com o rio Negro, na altura de Manaus, a capital amazonense, é “rebatizado” de Amazonas.

Como se vê, a Amazônia vive não somente à mercê de aventureiros forasteiros e locais, mas igualmente da escrita de gente que não a conhece e não faz a menor questão de conhecê-la.

[1] Macunaíma é um romance de 1928 do escritor e musicólogo paulista Mário de Andrade

[2] Amazônida se refere a o que é ou nasceu na Amazônia, diferente, portanto, de amazonense, referente ao Estado do Amazonas.

[3] ‘Esse termo foi popularizado em 1974 pelo economista brasileiro Edmar Lisboa Bacha, em sua fábula “o Rei da Belíndia“, de fundo ideológico, na qual argumentava que o regime militar estava criando um país dividido entre os que moravam em condições similares à Bélgica e aqueles que tinham o padrão de vida da Índia. “’ (http://brainly.com.br/tarefa/1851152)

[4] Viking (do nórdico antigo víkingr) se refere a exploradores, guerreiros, comerciantes e piratas nórdicos (escandinavos) que invadiram, exploraram e colonizaram áreas da Europa e ilhas do Atlântico Norte do século 8 ao 11º.

[5] Sul Maravilha é uma expressão jocosa e denunciadora que se refere, especialmente, a São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

[6] No contexto, paulista é todo chegante aos interiores brasileiros com intenções de exploração e aventura.

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