Até o japonês da federal foi preso, menos o Lula

Teje preso
Até o Japa foi em cana, menos o Lula? Poxa! – montagem: escandalohoje.com

Acompanhei, ontem à tarde, um debate num perfil do Facebook sobre a prisão do agente Newton Ishii, o “japonês da Federal”, condenado a 4 anos por facilitar a entrada de contrabando no País.

Debate é uma forma amena de dizer, posto que debater é enfrentar; é um choque de opinião; o que, no caso, não aconteceu em momento algum.

Quando todos têm uma mesma opinião não se trata de um debate, mas de uma conversa, de um acordo, de um aprovo.

Resumo em apenas uma frase a impressão dos “debatedores” sobre o evento prisão: “poxa, estou desapontado, não tem jeito mesmo, agora é que ninguém prende mesmo o Lula”.

A frase acima é minha, mas todas as palavras nela contidas são dos debatedores, assim como as suas disposições nas falas originais e os contextos nos quais foram colocadas.

O que se depreende, portanto, é que a prisão de um agente corrupto e já condenado (“coitado”, alguém usou essa palavra “no debate”) é questão secundária, o problema maior é a não prisão de Lula.

Não se trata, no entanto, de uma forma inédita de análise (sic) de um fato acontecido.

Um dia antes do caso do “japonês da Federal”, o procurador geral da república, Rodrigo Janot, pediu a prisão de Renan, Cunha, Sarney, entre outros.

Mal a informação foi divulgada sua repercussão seguiu a mesma linha de raciocínio: o pedido de prisão dos políticos era apenas cortina de fumaça, uma espécie de preparação do terreno para algo maior, que seria a prisão de Lula.

Como no caso acima, a importância do pedido de prisão dos políticos (o fato real, o acontecido) foi relegado a plano secundário, porque o perigo mesmo (para algumas pessoas) era a “iminente” prisão do ex-presidente (o que não ocorreu ainda – se é que irá ocorrer algum dia).

Dos anseios

Em ambas narrativas ocorreu a marginalização e um rebaixamento de importância do fato principal (a prisão do agente da PF [1ª] e o pedido de prisão de políticos importantes [2ª]) e a introdução de um elemento (narrativo) que não estava presente em ambos os casos: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Cada grupo, a seu modo, expressou os seus anseios particulares com o destino de Lula, distorcendo o objetivo da narrativa.

Das irracionalidades

A introdução de elementos novos numa narrativa original e as deduções supostamente lógicas por quem consome a narrativa levam à descaracterização do fato, re-arrumando o que foi contado, de forma até a se inverter totalmente o seu sentido original.

Em casos mais extremados, as distorções de narrativas originais e o ajuntamento de várias delas (também distorcidas) acabam por dar origem a “um fato novo”, na maioria das vezes irreais e inverossímeis.

Jornais internacionais, como New York Times, El País e Le Monde, estão sendo identificados por conservadores brasileiros como esquerdistas.

O norte-americano NYT ainda ganhou mais duas identificações: “petista” e “bolivariano”.

Se esse tipo de (i)racionalização se restringisse às redes sociais  não causaria maiores espantos.

Ocorre que não! Ocorre que a (i)racionalização vem sendo estimulada por jornalistas ligados à maior rede de TV do Brasil (a Globo) e pela maior e mais importante revista nacional (a Veja).

Alguém poderia chamar a atenção que nenhum jornalista desses dois veículos disse ou escreveu “diretamente” isso.

Tenderia a concordar se as ações humanas se pautassem apenas por uma lógica narrativa formal, sem subterfúgios ou interesses submersos.

Acredito que pelo menos parte de nós conhece a palavra “sub-reptício”: aquilo que é obtido por meio de fraude, alcançado através do dolo, feito às escondidas, de forma clandestina e furtiva.

Profissionais de comunicação são mais preparados e mais espertos do que muita gente  imagina.

Não é preciso dizer alguma coisa de maneira explícita para  induzir as pessoas a que cheguem a conclusões que se quer buscar.

Sempre haverá alguém capaz de ampliar o que foi dito (“quem conta um conto aumenta um ponto”) e outros capazes de ligar informações distintas dando origem a um fato novo e esperado pelo narrador.

O ônus das conclusão, por óbvio, fica com quem consome a narrativa e dá a ela destino e forma que mais lhe convém e convém ao narrador.

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