Decadência do Rio de Janeiro escancara a enorme crise do Brasil

Ciclovia
Ciclovia da avenida Niemeyer que desabou este ano – “o Rio de Janeiro continua lindo?” – vadebike.org. Eric Poseidon/Reprodução

Definida as eleições estaduais para o último quadriênio da década de 80, governadores da Amazônia uniram-se para discutir problemas e traçar o futuro da região.

As reuniões foram sucessivas e contemplaram todos os seis Estados da época (Tocantins ainda não existia e era parte de Goiás, que fica no Centro-Oeste).

Eleito governador por Rondônia, Jerônimo Garcia de Santana [1] (já falecido), do PMDB, se destacava pela verve: falava bastante e tinha mil ideias e mil projetos.

Fui cobrir a reunião dos governadores que ocorreu em Manaus. Uma jornalista da IstoÉ era toda entusiasmada pela performance de Jerônimo Santana e dizia, em roda de jornalistas, que ele seria o “grande líder” na Amazônia.

Disse-lhe que ela estava enganada. A “liderança” da política amazônica se dividia entre Pará e Amazonas, Estados com maior riqueza, poder e influência política.

A jornalista não gostou da minha contradita; deu uma rabiçaca [2] e saiu pisando duro.

Imagine um jornalista da Amazônia [3] contradizendo uma profissional enviada diretamente de São Paulo para acompanhar as reuniões governamentais amazônicas.

A “liderança” de Jerônimo Santana, prevista pela jornalista da IstoÉ, foi pulverizada em poucos meses.

Das futurologias

Quem também fez futurologia, mas não sobre a Amazônia e Jerônimo Santana, foi o Financial Times.

Definido o Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas, que, aliás, acontecem este ano, e o encerramento da Copa do Mundo de Futebol na mesma cidade, a publicação açodou-se em dizer que a “Cidade Maravilhosa” voltava a ser mais importante que a cidade de São Paulo, coisa, aliás segundo o jornal, que deveria se manter dali para frente, tal qual a “liderança” de Jerônimo Santana (a ilação é minha e não do FT).

O tempo (assim como as fotografias) é cruel: a final da Copa do Mundo (que os paulistas queriam que fosse na “Paulicéia Desvairada”) não teve sequer o Brasil como protagonista; os índices de violência do Rio continuam altos e aumentando cada vez mais; as obras para as Olimpíadas deste ano estão inacabadas e algumas recém-inauguradas estão com problemas; autoridades internacionais (mais de uma centena) não devem aparecer por aqui durante os jogos olímpicos e ainda pairam sobre o evento ameaças de desistência por conta da zika.

Se São Paulo virou o epicentro das manifestações estudantis que se irradiam pelo Brasil; dos protestos contra “isso tudo que está aí” e das resistências contra o interinato de Michel Temer, isso é coisa secundária, que talvez faça apenas o gozo de paulistanos, paulistas e admiradores do Estado.

O certo é que a previsão do FT furou, como furou a previsão da jornalista da IstoÉ lá nos longínquos anos 80.

O que se tem de concreto é que o caos (permanente?) do Rio de Janeiro espelha, principalmente por estes dias, a decadência brasileira; país desgovernado (politicamente) e metido num trio de crises (política, econômica e social) sem que veja a manjada “luz no fim do túnel”.

Notas

[1] Filho de Lúcio Garcia Santana e Julieta Vilela Veloso, advogado formado pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1963. Após militar no Movimento Revolucionário Oito de Outubro ingressou no MDB sendo eleito deputado federal em 1970, 1974 e 1978. Com a reforma partidária efetuada no governo João Figueiredo ingressou no PMDB e foi candidato a senador em 1982 sendo derrotado, porém, pela votação maciça dos nomes do PDS.[1] Eleito prefeito de Porto Velho em 15 de novembro de 1985 e empossado no primeiro dia do ano seguinte, renunciou ao cargo em maio de 1986 a fim de disputar as eleições de novembro nas quais foi eleito governador de Rondônia. Tendo cumprido integralmente o seu mandato tentou retornar à política como candidato a governador pelo PPR em 1994 e deputado federal pelo PFL em 1998, porém não obteve êxito (https://pt.wikipedia.org/wiki/Jer%C3%B4nimo_Garcia_de_Santana).

[2] Ato de jogar a cabeça com menosprezo

[3] Na época eu era correspondente da Folha de São Paulo para quem cobria as reuniões.

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