Governo e sociedade brasileira flertam perigosamente com a extrema direita

Fascismo
Reprodução

Ainda se resiste por aqui entender que exista no Brasil um movimento fascista, como querem alguns. Crê-se, no entanto, que exista sim uma movimentação de extrema direita, mas com características nacionais próprias, que usa, vez ou outra, táticas e maneirismos fascistas e até mesmo nazistas.

Não creio que essa gente raivosa, intolerante e violenta (como o grupo que atacou a UnB na sexta-feira) tenha algum tipo de competência intelectual para saber e entender o que sejam fascismo e nazismo.

São filhos da fluidez da TV e da internet, cevados em academias de ginástica e nas drogas e estimulados por discursos fracionados e incompletos de militares aposentados e de políticos como Jair Bolsonaro.

Se é possível e necessário identificar e punir essa gente violenta e intolerante, também cabe lembrar da responsabilidade que têm os organismos de Estado, como, por exemplo, a Polícia Federal e a Abin, que fazem corpo mole e demandam tempo para estancar esses atropelos à Democracia brasileira, a fragilíssima democracia brasileira.

Cobre-se, igualmente, responsabilidade de grande parte da sociedade brasileira que mal quer ver o crescimento dessa gente violenta e intolerante, como se o caso não fosse com ela.

Das localizações

Por razões que remontam à antipatia histórica que se tem por São Paulo e pela permanência do tucanato na direção do Estado, somando-se a isso as manifestações da avenida Paulista, se viu por bem, por razões nem sempre justificáveis e claras, identificar a unidade federativa como o epicentro do “ressurgimento” (sic) do fascismo à brasileira.

Um olhar ligeiramente atento embaça a tese: boa parte das agressões, por exemplo, contra os haitianos ocorreram no Sul do País e a recorrência mais sistemática e organizada (mesmo que de maneira precária) das ações dos “fascistas brasileiros” se deu na capital da república brasileira.

Das lembranças

Já se disse por aqui, em outras oportunidades, que boa parte da resistência aos tais governos populares do PT (Lula e Dilma) ocorreu (e ocorre) no interior da própria máquina do Estado.

Está-se falando, especificamente aqui, do poder executivo, dos ministérios, das agências estatais, das secretarias e por aí vai.

Recente, uma pessoa garantiu que pelo menos 50% dessa gente que serve no executivo federal (concursados, contratados ou apadrinhados) milita incansavelmente contra o petismo e as suas políticas públicas sociais e inclusivas, usando, principalmente, as “ferramentas” de seus locais de “trabalho”: computadores, telefones, veículos etc. e tal.

Alguém, no entanto, também há de lembrar que gentes ligadas ao petismo igualmente faz o mesmo uso.

O que é correto dizer.

Enquadrar essa gente toda seria necessário, embora o Estado nunca tenha se lembrado de fazer isso.

Das brasilianas

Brasília nasceu embalada pelos sonhos dombosquianos [1]de JK e pelos interesses expansionistas do capital, estigmatizada pela reação carioca, que via esvaziado o seu poder, e ainda pelo desprezo dos militares golpistas que preferiram arquitetar e solidificar o golpe de 1º de abril de 1964 a partir da antiga capital federal.

Os candangos[2] sofreram [3]um bocado por aqui (há quem garanta, inclusive, que centenas deles foram assassinados pelas forças de repressão e enterrados em local incerto); já durante a ditadura, forças repressivas invadiram a UnB [4]a espancar estudantes e professores, o que deu ocasião a um discurso no pequeno expediente da Câmara do então deputado federal Márcio Moreira Alves (MDB/RJ) [5], tido como desculpa do regime militar para a assinatura do AI5[6].

Recentemente, como todo mundo já sabe, um grupo, tido como neonazista arquitetou plano de invasão (com direito a explosões e assassinatos) da UnB.

Seria, o grupo, uma espécie de pais dos treteiros de Kelly Bolsonaro [7]que atacaram a universidade na sexta-feira que passou.

Dos finalmentes

Para finalizar o texto socorro-me do post que fiz nas redes sociais ontem à noite, mas não sem antes lembrar da responsabilidade do Estado, das forças de repressão e de informação e da própria sociedade (grande parte dela) na escalada e no crescimento desses grupos raivosos, violentos e intolerantes.

TRETA FASCISTA NA UnB
Praticamente não há notícia na “grande imprensa” sobre o ataque de um grupo de fascista, sexta-feira à noite, na Universidade de Brasília (UnB).
Os caras estão contando vantagens no twitter e no instagram, mas acabaram apanhando um bocado.
A líder do grupo, Kelly Bolsonaro, inclusive teve de sair carregada do local.
Kelly Bolsonaro circula com bastante liberdade na Câmara dos Deputados.
É difícil ligar um ponto ao outro?
NÃO É NÃO!
A polícia só não pega essa gente toda porque não quer.

 Notas

[1] Referência a Dom Bosco, SDB, João Melchior Bosco sacerdote católico italiano, fundador da Pia Sociedade São Francisco de Sales, proclamado santo em 1934 e aclamado por São João Paulo II como o “Pai e Mestre da Juventude”.

Tido como visionário, Dom Bosco é o padroeiro da capital federal de Brasília.

Em sonho, o religioso viu entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério sul, um lugar de muita riqueza, próximo a um lago:

Tra il grado 15 e il 20 grado vi era un seno assai lungo e assai largo que partiva di un punto che formava un lago. Allora una voce disse ripetutamente, quando si verrano a scavare le miniere nascoste in mezzo a questi monti di quel seno apparirà qui la terra promessa fluente latte e miele, sarà una ricchezza inconcepibilie. (Memorie Biografiche, XVI, 385-394) wp

Esse lugar é atribuído por alguns intérpretes como sendo Brasília.

[2] Trabalhador da construção de Brasília; por extensão, pessoa que migrou de outro estado para a sua construção, primeiros moradores da capital federal.

Também: identificação de portugueses em países africanos de domínio lusitano; indivíduo desprezível, abjeto; destituído de bom gosto.

[3] Ver, por exemplo, Construção de Brasília e o lado obscuro de sua criação!, in https://www.youtube.com/watch?v=AJ0oFt4rRVs

[4] Invasão à UnB durante a ditadura completa 44 anos

[5] Discurso Marcio Moreira Alves AI-5

[6] AI5 Documento

[7] Como a direita organizou a invasão da UnB, in Luis Nassif Online.

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