O irreversível fim do Capitalismo e da liderança norte-americana

Varoufakis: o mundo após o fim do Minotauro Global[1]

Minotauro
Imagem: Edward Burne-Jones, Teseu e o Minotauro no labirinto (1861) / Outras Palavras

[Agora somos um império e, quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto vocês estão estudando essa realidade – judiciosamente, como o farão – nós iremos agir novamente, criando outras novas realidades, as quais vocês podem estudar, e isso é como as coisas irão se desenrolar. Somos atores da história (…) e vocês, todos vocês, vão limitar-se a estudar o que fazemos.[2]

Com estas palavras, um oficial norte-americano de alto escalão captura bem a essência da magnífica audácia da Casa Branca no pós-guerra. Não uma vez, mas duas vezes, os Estados Unidos despedaçaram realidades pré-existentes para criar outras novas. Na primeira vez, eles não tinham escolha. A Segunda Guerra Mundial empurrara os Estados Unidos a assumir o papel de um relutante modelador de realidade. Eles responderam de forma brilhante, com um Plano Global que produziu o melhor momento do capitalismo global. E quando seu Plano Global atingiu o prazo de validade, os Estados Unidos não gastaram nenhum minuto hesitando ou “estudando” a realidade existente.

Em vez disso, eles buscaram ativamente desintegrar a realidade que se degenerava, de modo a causar uma grande crise a nível mundial que geraria uma nova hiper-vibrante realidade: o Minotauro Global. Era a segunda vez em sua história que os Estados Unidos reformulavam o mundo não tanto à sua imagem, mas de uma forma que convertia uma rastejante fraqueza em uma majestosa hegemonia.]

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[O capitalismo global não pode ser estabilizado com base em mais investimento, melhores dispositivos, ferrovias mais rápidas, inovações mais inteligentes. Este é o erro vulgar de keynesianos que pensam que se o Estado gastasse e investisse com sabedoria, tudo estaria bem. Da mesma forma, o capitalismo global não irá recuperar a sua confiança perdida se bancos centrais se concentrarem na estabilidade dos preços, e se a tarefa de reequilibrar a economia mundial for deixada para as mágicas manobras da oferta e da demanda. Este é o erro ainda mais ameaçador dos liberais. A estabilidade do capitalismo global, mas também do regional, requer um mecanismo mundial de reciclagem de excedentes – um mecanismo que os mercados, não importa quão globalizados, livres e eficientes sejam, não podem fornecer.]

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[Um cenário brilhante seria a formação de uma grande coalizão de países emergentes que forjasse um efetivo MGRE com base em investimento planejado e transferências comerciais entre eles. Por exemplo, em vez da China simplesmente pisar nos antigos calos do Brasil e comprar apenas ativos produtivos brasileiros sem o consentimento das autoridades, imagine um sistema em que os investimentos da China são canalizados com base em algum acordo com o governo do Brasil que envolva fluxos de capital para o Brasil analogamente à venda de bens primários do Brasil para China, bem como a transferência de tecnologia chinesa para o Brasil. Tais acordos entre Brasil, China, Argentina, Índia, Turquia e determinados países africanos poderia agir como um MGRE que promoveria um crescimento estável. O fato de que isto neutralizaria as nossas bancarrotocracias ocidentais seria a cereja do bolo.]

Leia o texto completo de Yanis Varoufakis em http://outraspalavras.net/capa/o-mundo-apos-a-morte-do-minotauro-global/ (Outras Palavras).

Outras leituras

“Vivemos uma era de ansiedade irracional”

A desinvenção

A humanidade como um fio da teia da vida

Bem-vindos à quarta Revolução Industrial

No rastro da nova-velha direita e o giro reacionário do senso comum brasileiro

O Brasil na era dos esgotamentos da imaginação política

O mundo está com febre

Notas

[1] Yánis Varoufákis é economista, blogger e político grego membro do partido SYRIZA. Foi ministro das Finanças do Governo Tsipras em 2015.

[2] Estas palavras foram transmitidas a nós por Ron Suskind em seu artigo na New York Times Magazine, em outubro de 2004. Embora não seja atribuída, muitos acreditam que elas foram ditas no verão de 2002 por Karl Rove, um importante assessor do presidente George W. Bush (Nota 1 do texto original).

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Um comentário sobre “O irreversível fim do Capitalismo e da liderança norte-americana

  1. Eu estou muito curioso com os resultados da decisão britânica nos próximos anos. Se os resultados forem bons para eles o impacto sobre o discurso globalizante será imenso se forem ruins, a globalização sai ainda mais forte.

    Enfim, a globalização é boa para as pessoas? Vamos observar nos próximos anos essa hipótese ser testada num experimento de larga escala.

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