Não temos professores, mas “tecnólogos da educação”

Os professores já não estudam filosofia, história ou sociologia  enquanto estão em formação. Eu acho isso muito sério, porque essas disciplinas eram uma base da profissão e hoje os estudantes são formados quase como tecnólogos da educação, são  preparados para oferecer conjuntos de instruções.” (Michael Young, 2014)

Este trecho de Young abre texto de hoje do blog De Rerum Natura (Sobre a natureza das coisas)O “senso comum acrítico”: da formação de professores para a sala de aula’.

Começo a minha arenga discordando do trecho aspeado (no original) no título “senso comum acrítico”.

Não me parece que exista “senso comum crítico”.  Se é senso comum, é, por definição, acrítico. Trata-se, portanto, de uma redundância.

Também não concordo muito com essa história de que “antigamente” a educação era melhor e o professor melhor formado… a menos que isso tenha acontecido em outros países, pois no Brasil, tanto a educação, quanto os professores sempre foram muito ruins.

Portanto, vamos à nossa história.

Das histórias

Tenta-se vender, por um viés ideológico, que até a minha geração a educação brasileira era muito boa, alguns diriam até mesmo “ótima”.

Muita gente mais jovem chega a acreditar nisso e gente de minha geração tem certeza absoluta.

Não sei em que medida uma educação que alijava praticamente toda a população indígena, pelo menos 50% dos afrodescentes (negros e negras) e  2/3 da população pobre pode ser considerada ótima ou boa.

No meu tempo” a educação se dividia assim:

– primário (4 anos);

– ginasial (4 anos);

– colegial ou similar (3 anos);

– universidade (anos diversos, dependendo a formação).

No primário fomos “educados” por:

– uma professora que nos fazia rezar pais-nossos e aves-marias quatro vezes em cada aula, sem nenhuma consideração com uma colega judia, alguns protestantes de confissões cristãs diversas, um ou dois budistas, japoneses/as ou descendentes, e um ou outro ateu”;

– uma professora obesa, que comia compulsivamente durante as aulas e se orgulhava de ter dinheiro para comer o que quisesse e a qualquer hora;

–  um professor que fumava várias vezes durante as aulas sem querer dar conta de que éramos crianças presas numa sala de pouca ventilação.

A ida ao ginásio não melhorou a situação, muito pelo contrário. Sem entrar nas minúcias desse tempo, o que tivemos foram professores (sic) apoiadores da ditadura recém-instalada e que nos faziam cantar hinos nacionais e ainda uma droga de uma musiquinha que exaltava a inauguração de Brasília (só me lembro de um dos versos: “Brasília a capital da esperança”).

Das desesperanças

Sem terminar o ginasial, abandonei a escola e fiquei 5 ou 6 anos sem estudar.

Tive minhas razões:

– fiquei enojado com aquela história de sermos obrigados a rezar quatro vezes em sala de aula (no primário);

– os professores (todos eles, sem exceção) sempre me pareceram ruins, mal formados, covardes e desconectados da realidade que se vivia nas ruas;

– a ditadura militar, com as suas atrocidades, me inquietava, mas me inquietava mais a “alienação” dos professores que buscavam não tratar do regime de exceção em sala de aula.

Das maturidades

Não sei se perdi alguma coisa nesses anos todos fora da escola.

Acho que foi o contrário.

Amadureci um bocado.

Quando voltei, voltei com tudo: em dois anos recuperei tanto o ginasial, quando o colegial, fiz cursinho e entrei para a Casper Libero para estudar jornalismo, coisa que queria fazer desde os 9 anos de idade.

Mas a única coisa que guardo desse tempo é que tanto a educação, quanto os professores brasileiros eram muito ruins, péssimos.

E continuam assim, talvez apenas piores.

Sugestões de leitura

Nova edição do Boletim da SBHC traz entrevista com Kapil Raj

“Circulação não é fluidez” – Entrevista com Kapil Raj

Anúncios

Um comentário sobre “Não temos professores, mas “tecnólogos da educação”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s