A sensaboria no discurso de Michel Temer, o interino

Temer

Com o televisionamento intensivo do julgamento da AP 470 (Mensalão do PT) descobrimos que existe um grupo de brasileiros que fala e escreve numa língua diferente da nossa. Para entendê-los precisamos mais do que bons dicionários especializados, mas, também, de intérpretes capacitados.[1]

O que nos vem das senhoras e dos senhores juízes do Supremo são falas e textos longos, cheios de reticências; pontos-e-vírgulas; referências e citações; latins e gregos; sinonímias[2] e mesóclises[3], à moda do interino Michel Temer.

Quando morava em Manaus (nos anos 80) o município convivia com um vereador e presidente da câmara local (um sujeito cujo nome me escapa e dono de um táxi-aéreo) que destilava na edilidade[4] um linguajar repleto de mesuras, de mesmices; cheio de rococós[5].

Foi a palavra rococó, usada por mim num texto para identificar o seu discurso, que o levou a “pedir a minha cabeça” do jornal no qual trabalhava na época.

Não conseguiu. Eu tinha mais talento para escrever do que ele para falar.

Assim me pareceu na época, como parece agora com  Temer, pura embromação, forma de dizer alguma coisa que não se quer dizer, mas que, mesmo assim, acaba por encontrar ouvidos e  aplausos de algumas pessoas.

Das modernidades

O Modernismo[6] (tardio no Brasil, lembre-se) colocou a pique as formas e as maneiras “antigas” (sic) de falar e de escrever.

Antônio de Alcântara Machado, Érico Veríssimo e João Guimarães Rosa [7] (cada um a seu modo e com intensidades próprias) capturam a língua falada pelo povo e a transportam impunemente para a literatura.

Há quem não goste disso, provavelmente por espelhar, nua e cruamente, o nosso falar das ruas e das casas. Macunaíma [8] estava certo: falamos numa língua e escrevemos em outra.

Das antiguidades

Diz-se, com certa liberalidade, que Temer, o mesóclida (me permito ao neologismo), busca no Romantismo[9] a sua verve.

Creio, no entanto, que o mergulho linguístico temeriano é mais profundo, vem de 400 a.C com o surgimento das línguas românicas ou latinas, derivadas do latim vulgar.

Trata-se de uma volta a um passado nobre que não teve e do qual não é herdeiro.

Posto isso, não se trata apenas de esconder e escamotear as razões do golpe que defenestrou Dilma Rousseff; é mais do que isso: é uma maneira de se contrapor à forma de falar popular dos “compas” do trabalhismo petista, essa gente que deve ser varrida do mapa, levada ao poder tanto por Lula quanto por Dilma.

Notas

[1] Sensaboria (no título) – característica do que é sensabor; insipidez; conversa enfadonha; escrito monótono, sem estilo.

[2] Sinonímias – palavras distintas que possuem o mesmo significado.

[3] Mesóclises – interposição de variações pronominais aos verbos; o mesmo que tmese; forma de combinação de um verbo flexionado no tempo futuro do presente ou futuro do pretérito, com um pronome oblíquo ou outra partícula, na qual a partícula é colocada entre o radical e a desinência modo-temporal.

[4] Edilidade – conjunto dos edis ou vereadores; assembleia legislativa municipal; câmara municipal.

[5] Rococó (no contexto) – estilo artístico e literário que exprime contradição.

[6] Modernismo – principal movimento literário do século 20, que rompeu com a tradição clássica e deu início à formação de uma identidade genuinamente brasileira na literatura.

[7] Antônio de Alcântara Machado, advogado e jornalista paulista, modernista tardio e autor de (entre outros)  Pathé Baby e Brás, Bexiga e Barra Funda.

Érico Veríssimo, escritor gaúcho, autor (entre outras obras) de Clarissa, Música ao longe, Olhai os lírios do campo, O tempo e o vento (tomos 1 e 2).

João Guimarães Rosa, mineiro de Cordisburgo, diplomata e escritor, autor de Sagarana e Grande Sertão: Veredas.

[8] Obra de Mário de Andrade.

[9] Romantismo – movimento artístico, político e filosófico surgido nas últimas décadas do século 18 na Europa que durou por grande parte do século 19 e caracterizou-se como uma visão de mundo contrária ao racionalismo e ao iluminismo, buscando um nacionalismo que viria a consolidar os estados nacionais europeus.

 

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