Marta Suplicy está certa ao falar dos interesses da periferia

Marta
Marta Suplicy: de dondoca petista a inimiga mortal – http://www.diariodocentrodomundo.com.br

Há uma sub-leitura possível e necessária de se fazer sobre a resposta de Marta Suplicy à terceira pergunta da entrevista que concedeu (semana passada) ao El País: “Meu voto pelo impeachment não é relevante para o eleitor da periferia”:

Mas existe um núcleo que se sentiu traído e a acusou de golpista…

Acho que são dois momentos diferentes. Quando eu saí do PT eu senti que houve uma compreensão grande mesmo entre os petistas mais acirrados. Na militância como um todo. Com a questão do impeachment, eu acho que a militância petista radicalizou. Porque está tentando salvar o insalvável. Agora, na periferia, com as pessoas que são minhas eleitoras e foram do PT, isso não tem a menor relevância. Eles acham que, e isso é até interessante, que tanto faz o partido que eu estou. Eles me dizem: ‘eu voto em você porque você fez pra gente’. Eles estão muito contra o PT, se sentem traídos pelo atual prefeito, então a situação é essa.

Quem é petista e/ou votou no partido esses anos todos já foi alvo de inúmeros/as questionamentos/acusações de que o PT é corrupto e até que “inaugurou” a era da corrupção no país.

Das gênesis

Essa arenga vitimizadora e acusatória não vem, como muitos pensam, dos protestos de junho de 2013 ou de seus desdobramentos com a infiltração de grupos de direita que acabaram por atingir a presidente Dilma Rousseff.

É coisa mais longeva que nos remete a 2005 com o início das denúncias sobre o Mensalão do PT.

Nas ruas, vestida de verde e amarelo, e nas janelas, batendo panelas e assoprando apitos, a classe média (majoritariamente) fez o que as elites esperam que faça: dar a cara a tapa e demonizar quem está no poder.

Trata-se de um discurso moralista, cujo interesse de fundo é o interesse (viva a redundância!) de parte da elite empresarial e econômica escanteada pelos governos petistas.

Das histórias

Eu, não poucas vezes, fui abordado por conta da “corrupção do PT” e sempre dei a mesma resposta: a quem interessa esse discurso anticorrupção; à periferia (que aqui estendo para todas as outras periferias urbanas; para os índios, os quilombolas, os ribeirinhos, os pobres em geral)?

Entendo que não!

Estou dizendo, com isso, que as periferias não se interessam pela corrupção e a ela são coniventes?

Não!

Estou dizendo que se a corrupção é a principal preocupação das classes médias, não o é para as periferias, que já têm de enfrentar a pobreza, a violência policial, a ausência do Estado, os desmandos da política e a luta por uma sobrevivência miserável.

Das profundidades

As respostas de Marta Suplicy, por óbvio, se constituem numa defesa de suas teses; numa justificativa à mudança de partido; num mea culpa por ter abandonado parte de sua história e da história de seu partido original.

Mas não deixa de ter razão quanto ao pouco caso da periferia sobre a corrupção e sobre o seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Se atenta fosse, a sociologia política deveria se preocupar em estudar e entender as periferias brasileiras e suas relações com os desvios morais das classes política e empresarial.

Talvez não faça isso (como não fez até hoje) por duas razões:

– num primeiro momento, quem vive nas periferias aparece como avalista das diversas modalidades de corrupção e de desmandos;

– num segundo, mais profundo e mais atento, se chegará a águas não facilmente navegáveis, qual sejam, os interesses (pragmatismo[1]) imediatos de uma grande parcela da população que vive acossada pela permanência da miséria, mesmo que esforços contrários (oficiais) tenham sido feitos recentemente.

Nota

[1] Pragmatismo (no contexto): uso, como critério, da verdade de utilidade prática, identificando o verdadeiro como útil; senso prático; filosofia de resultado.

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