Lulismo e desenvolvimentismo precarizam trabalho e rebaixam salários na periferia

“A dessolidarização social e a ostentação pelo consumo: um novo retrato do Brasil à luz da periferia urbana de São Paulo. Entrevista com Thais Pavez[1]

Periferia
Periferia sonha com ascensão, mas vive e dorme precarizada – foto : IHU – Unisinos / Adital

[As mudanças sociais, econômicas e políticas que estão ocorrendo no Brasil desde os anos 1990 têm dado origem a um “movimento preocupante”, denominado pela cientista política Thais Pavez de “dessolidarização social”. Segundo ela, tal fenômeno é vivido por aqueles “que ascendem socialmente” e “não necessariamente permanecem ligados aos interesses do próprio grupo social; ao contrário, às vezes, ocorre um processo de desvalorização do próprio grupo para aderir a uma identificação, por exemplo, de classe média, ou quem vive do crime passa a ostentar seu consumo”.

De acordo com Thais, esse fenômeno tem sido recorrente nas periferias [2]de São Paulo, onde o consumo se tornou um dos principais desejos dos membros das comunidades.

Autora da dissertação de mestrado intitulada “Política pública e formação de capital social: avaliação da política municipal de urbanização de favelas de programa ‘Santo André mais igual’, e da tese “Crime, trabalho e política: um estudo de caso entre jovens da periferia de São Paulo”, Thais reflete sobre as expectativas de vida dos jovens que vivem nas periferias em relação aos projetos de vida [3]de seus pais e avós, e frisa que “há uma mudança fundamental de expectativa entre os mais pobres”. Enquanto as gerações passadas tiveram seus projetos de vida associados à migração do campo para a cidade e foram empregados no setor industrial, as novas gerações foram integradas ao “mercado moderno de consumo”, o qual passou a ocupar um espaço central em suas vidas.

Junto com essa mudança de perspectiva, explica, houve também uma reestruturação do mercado do tráfico nas periferias, bem como do mercado de trabalho durante o lulismo, que embora tenha garantido aumento do emprego formal, também assegurou a precarização e os baixos salários. Com isso, menciona, “duas possibilidades reacenderam entre os jovens: se envolver no crime ou seguir no caminho do trabalho”.

Na avaliação da pesquisadora, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, o movimento que hoje melhor exprime os anseios dos jovens da periferia é o chamado “rolezinho”, “que expressa o desejo desses jovens de participar dos shoppings, de passear, de ter acesso a lazer”. Para ela, hoje “há uma dificuldade de apresentar um projeto que contribua para aproveitar esse movimento reivindicatório dos jovens, como o dos rolezinhos ou outros que têm acontecido, e que vão no sentido de organizar esses jovens politicamente, porque esse projeto de integração ao mercado é o que está posto”.

Em termos políticos, pontua, “há dificuldades para a esquerda fazer trabalhos de base na periferia, principalmente por conta das igrejas evangélicas, que acabam inibindo muitas ações mais reivindicativas, em razão de toda essa associação que elas fazem das manifestações aos baderneiros, inclusive aos bandidos; e por conta do PCC, que tem a gestão e o controle territorial das periferias”.]

Patricia Fachin

Veja texto na íntegra e confira a entrevista em IHU – Unisinos e em Adital.

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Notas

[1] Thais Pavez é doutora e mestra em Ciência Política pela Universidade de São Paulo – USP e graduada em Administração Pública pela Universidade do Chile.

[2] A título de contribuição à reflexão estendo aqui o conceito de periferia para além da periferia de São Paulo, mas igualmente para outras periferias urbanas, para os grupos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outros segmentos sociais explorados e precarizados.

[3] Em outras postagens já se referiu por aqui à formação precária do trabalhador jovem e a sua exploração por pequenos e médios empregadores; e à enorme rotatividade de mão de obra que freia a ascensão desses trabalhadores e os joga na berlinda do desemprego.

 

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