Legado de Temer será maior que perdas trabalhistas e diminuição das políticas sociais inclusivas

Conferência Nacional
Conferência nacional de Direitos Humanos – a partir de agora o povo volta a ser apenas um detalhe – foto: conexaoto.com.br.

É muito justo e compreensível que sindicalistas e ativistas sociais estejam irritados e assustados com as medidas adotadas (até agora) pelo interino Michel Temer.

A face visível do desmonte do interinato é essa mesma: retrocesso nos direitos trabalhistas e a supressão e/ou o acanhamento dos programas sociais – nas ciências, na educação, na saúde, na moradia, na transferência de renda etc.

É a face visível, mas não a profunda, daquilo que está sendo tramado e preparado.

E as profundidades é que são o problema, não apenas no imediato, mas para o futuro do país, que está sendo empurrado rapidamente para um passado que soma algumas décadas – pelo menos.

Das histórias

É possível buscar alguns pontos de contato do lulo-petismo[1], que faleceu de morte matada há pouco mais de um mês (dentro daquilo que já ganhou o selo irrecorrível de “Golpe!”), com “águas passadas”.

Com a Era Vargas [2]e os avanços trabalhistas e salariais e a defesa do petróleo nacional[3].

Com a brevidade da presidência de João Goulart[4] e o chamamento de grupos sociais (especialmente de classe média e urbanos) para coparticipar das políticas públicas nacionais e locais.

Dos petismos

A chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto, em 2003, não apenas resgata parte daquilo que foi proposto por Getúlio Vargas e por João Goulart, como fez subir à superfície os anseios e as ansiedades de milhões de brasileiros presos, por séculos, aos seus grupos sociais, sem direito a participar, diretamente, daquilo que de melhor do país poderia produzir e fazer.

Apenas nos oito anos de Lula da Silva o governo federal realizou 57 conferências nacionais, espaços abertos para que a sociedade expusesse à luz do dia suas necessidades e vontades.

Embora se reconheça que apenas parte dos “reclamos” sociais tenha sido transformada em políticas públicas, o certo é dizer que foi exatamente isso que assustou as elites nacionais e, por extensão e copismo, grande parcela da classe média, que, por alguma razão inexplicável, se sentiu ameaçada pela presença “dos pobres” em escolas de terceiro grau, em viagens internacionais etc. e tal.

Dos choques

Num país acostumado com o elevador de serviço, com o “você sabe com quem está falando”, com “cada um no seu quadrado[5]  foi um choque considerável para a elite e a subelite (a classe média) e isso (essa ousadia da pobreza, ousadia patrocinada pelo petismo) teria de ter um fim.

Numa narrativa ligeira, em reunião da qual participei na Câmara dos Deputados, ainda durante o primeiro governo de Lula da Silva, a deputada Luiza Erundina falava do desconforto de alguns “de seus pares” frente a essa história de “o povo agora poder decidir” sobre o seu próprio futuro.

Era um alerta para o que viria pela frente e que acabou por defenestrar a presidente Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, sob a sempre oportuna arenga da “corrupção”.

Das tramas

A trama não apenas foi muito bem urdida, com milhões de pessoas espalhadas pelo país pedindo “punição aos corruptos”, como se mantém nas investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, nos processos nas várias instâncias do judiciário, nos discursos e nas palavras de jornalistas, como, por exemplo, editorialistas de O Globo e de O Estado de São Paulo, e de blogueiros como Reinaldo Azevedo – de tantos fãs e seguidores.

Das idolatrias

O destronamento das políticas públicas inclusivas (como as propostas pelo lulo-petismo) não se basta por si só.

É preciso mais do que isso: é necessário matar no imaginário popular os ganhos reais (tratados, a partir de agora, como falácias e demagogias) das políticas inclusivas; e para sustentar a matança é necessário e urgente a criação de um novo mito que venha substituir o antigo.

E esse mito tem nome, cargo e função: o juiz federal Sérgio Moro.

Por aqui não se tem nada contra a pessoa do juiz Moro. Por aqui não se trata de gostar ou de desgostar de pessoas; se trata de discutir discursos e as ideias neles embutidas.

Apenas se nota por aqui que a idolatria a Sergio Moro é uma velha história brasileira que já se concretizou em outras passagens da vida nacional, por exemplo, como aquela que levou ao suicídio de Getúlio Vargas ou à ditadura militar em 1964.

De negativo, além da recorrência que nos deixa patinando na história, o recuo dos direitos sociais, que demandarão algumas décadas para serem repostos.

Creio que, pela idade, eu não venha assistir a  essa reposição.[6]

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Notas

[1] Veja, por exemplo, “Os sentidos do lulismo – Reforma gradual e pacto conservador”, de André Singer (Companhia das Letras).

[2] Era Vargas é o nome que se dá ao período em que Getúlio Vargas governou o Brasil por 15 anos, de forma contínua (de 1930 a 1945). Esse período foi um marco na história brasileira, em razão das inúmeras alterações que Getúlio Vargas fez no país, tanto sociais quanto econômicas http://www.sohistoria.com.br/ef2/eravargas/.

[3] A campanha do petróleo movimentou o Brasil a partir de 1947, com o fim da 2ª Guerra Mundial e a derrubada da ditadura do Estado Novo. A ela se opunham setores liberais, chamados de “entreguistas” pelos grupos nacionalistas. À frente da campanha, o escritor Monteiro Lobato e os generais Leônidas Cardoso (pai do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) e Júlio Caetano Horta Barbosa, entre outras figuras ilustres da época.

Para os setores nacionalistas, a independência econômica deveria ser um complemento da liberdade política trazida pelo movimento democratizante e isto só seria possível com a exploração do petróleo brasileiro, um grito de guerra lançado na década de 30 pelo escritor paulista (http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/campanha-petroleo-nosso-mobilizou-brasil-no-final-da-decada-de-40-10401791).

[4] João Belchior Marques Goulart, conhecido popularmente como “Jango”, foi um advogado e político brasileiro, 24° presidente do país, de 1961 a 1964. Wikipédia

[5] Verso da letra da “Dança do quadrado” de Sharon Acioly.

[6] Dos adendos

A propósito do que se discute no texto todo, reproduzo aqui a inserção do jornalista e amigo Sérgio Del Giorno, ontem, no Facebook:

O cara que chamou a Letícia de puta responde em processos trabalhistas; é filho do então presidente do Banestado na época do megaescândalo que deu um rombo de 30 bi no erário (e ninguém foi preso); sobrinho da mulher condenada por matar uma criança em ritual de magia negra; e primo de um rapaz que matou a tiros um adolescente de 16 anos na praça Espanha, em Curitiba, que atirou em outro em outra ocasião e que agora acaba de fugir da cadeia???? Confere, produção??? É esse cara que tá indo pra rua agredir os outros e gritar contra a corrupção??

 

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