José Serra é um entreguista ou um estrategista equivocado?

Serra TerryA abertura dos jogos olímpicos ontem jogou para a gaveta das notícias sem importância o encontro do ministro das Relação Exteriores do Brasil, José Serra (PSDB/SP), com o secretário de Estado dos EUA, John Kerry.

Poucos veículos de comunicação cuidaram ou estão cuidando do assunto. É possível, no entanto, ler uma breve referência ao encontro no site do Opera MundiSerra discute relação bilateral entre Brasil e EUA em encontro com John Kerry.

No ministério do interino Michel Temer, o político tucano se credencia como a principal força de seu partido para as eleições presidenciais de 2018.

Serra deve refazer com Temer a mesma trilha que abriu quando foi ministro de Fernando Henrique Cardoso, e afogar, na sua caminhada, os tucanos Aécio Neves e Geraldo Alckmin.

O tucano já foi duas vezes candidato do PSDB à presidência da república, perdendo, em segundo turno, para Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Vana Rousseff.

Quem dava Serra como (politicamente) morto se enganou.

O “trator” vem com tudo e não é exatamente fácil enfrentá-lo.

Das pavimentações

O político José Serra tem origem na militância estudantil da década de 60; foi exilado, estudou e se casou no exterior, voltou, se colocou contra a ditadura militar, ajudou a fundar o PSDB; deu, igualmente, uma mãozinha na criação do PT, e de um sujeito de perfil centro-esquerdista católico migrou para o centro, com acenos à direita mais moderada.

Sobre Serra pairam acusações de ser entreguista, tese que o afasta da esquerda tradicional e moderada, mas que, no entanto, não têm maiores repercussões junto ao centro e à direita (muito pelo contrário).

Serra nunca foi um nacionalista nos moldes, por exemplo, do petismo; muito pelo contrário: filho de um comerciante do Mercado Central de São Paulo sempre teve, desde os tempos de estudante, uma visão liberal (em economia) muito ao gosto da classe média paulista e do empresariado nacional.

E aí que reside a sua força e o seu charme político. Daí que, apesar das duas derrotas eleitorais reportadas acima, é sempre difícil batê-lo.

Na conversa de ontem, Terry deixou claro a confiança dos EUA em Serra: “foi uma oportunidade muito importante, pois temos muito a conversar e a fazer juntos…” e que “questões políticas dos últimos anos impediram que Brasil e EUA potencializassem parceria”.

Óbvio que as duas frase de Terry remetem diretamente à relação do Brasil com os EUA nos governos petistas de Lula e de Dilma.

Caberia a Serra, se eleito vier a ser, reconstruir o caminho da “parceria” entre os dois países.

Restaria saber em que moldes essa “parceria” seria restabelecida: aos moldes da chilena, que tem origem na ditadura de Pinochet, ou da mexicana, sedimentada na economia das maquilas [1]e dos olhos fechados para os gravíssimos problemas de tráfico de drogas e de pessoas?

Resta, igualmente, uma outra questão: a quem essa parceria unilateral (sic) beneficiaria?

Não sejamos ingênuos em acreditar que uma parceira desse porte, entre a principal potência econômica do mundo e a principal potência econômica da América Latina só terá ganhadores e beneficiários.

Nota

[1] “Uma empresa maquiladora é uma empresa que importa materiais sem o pagamento de taxas, sendo seu produto especifico e que não será comercializado no país onde está sendo produzido. O termo originou-se no México, país onde o fenômeno de empresas maquiladoras está amplamente difundido. Em março de 2006 mais de 1.300.000 de pessoas trabalhavam em fábricas maquiladoras.” (wp)

Na origem, em língua espanhola, “refere-se à prática de moer o trigo em moinho de vento, pagando ao moinho com uma parte da farinha produzida. Também ocorreu com a forma tradicional de produção de açúcar nos engenhos das Antilhas (wp).

Na prática, as maquilas são plantas industriais (montadoras) que se caracterizam pelo uso intensivo de mão de obra, preferencialmente de jovens mulheres, e pela supressão dos direitos trabalhistas.

 

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