Quem tem medo do mercado de trabalho?

Pedras
Fora do Estado é preciso suar e produzir – ilustração retirada do http://www.youtube.com

Chama atenção de quem não está acostumado com o dia a dia de Brasília [1] a quantidade de pessoas (especialmente as mais jovem) em busca de “uma vaguinha” de trabalho no setor público.

Há várias razões para essa busca frenética, a principal delas, óbvio, por ser Brasília a capital federal e, supostamente, ter uma oferta de postos de trabalho no setor público mais abundante.

Mas ao contrário do que reza a lenda, Brasília nem tem o maior número (em %) de trabalhadores no setor público (é apenas a 12ª) e nem o setor público é responsável por empregar a maioria das pessoas no Distrito Federal. O setor privado (juntamente com as organização não governamentais) é responsável pela absorção de 52,4% dos trabalhadores, com tendência, óbvio, de crescimento. (IBGE/IPEA/DIEESE/UnB)

O Distrito Federal já é o terceiro maior mercado de trabalho não público, perdendo apenas para o gigantismo dos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro (Ibd.)

Das razões

São várias as razões para o crescimento desse mercado de trabalho não público em Brasília, o principal deles foi (e é) o crescimento populacional. O DF tem hoje mais de 3,7 milhões de moradores com renda média relativamente alta, a despeito da pobreza crescente nas cidades-satélites (periféricas); além de sediar um sem número da organizações sociais nacionais e internacionais.

Mas contam também para inversão (público versus “privado”) os cortes no “funcionalismo“ (sic) feitos por Collor de Mello, via PDV, e a opção pela terceirização da era FHC, tendência que se manteve com Lula e Dilma, embora os petistas tenham inflado a máquina estatal de “compas” pagos pelo erário.

A possível efetivação do interino Michel Temer e uma eventual vitória da “direita” na eleição de 2018 pode diminuir ainda mais os “cabides de emprego” no setor público no DF.

Um dos indicativos interessantes (creio que desprezado pelos estudos e estatísticas) que mostra a pujança (sic) quando o assunto é mercado de trabalho não público é o número de vezes que um dado trabalhador migra para uma região em busca de emprego.

No início dos anos 90, viajou ao meu lado (de Natal a SP) um trabalhador do interior de RN que já “estava indo” para São Paulo pela 27ª vez. O sujeito era trabalhador da construção civil, e pelo jeito dos muito bons para ser requisitado tantas vezes assim. Ele só não se acostumava, me confidenciou, morar permanentemente em SP.

Uma amiga paulista, esta bastante qualificada, jornalista com mestrado e outras especializações, já migrou para Brasília cinco vezes a trabalho, intercalando as vindas ao DF como voltas a SP e uma estada de um ano em Londres.

Dos medos

Não poderia dizer eu aqui, sem corar, que nunca “trabalhei no Estado”, digamos assim, porque já estive numa prefeitura e numa câmara municipal, em duas empresas estatais, já fui (brevemente) professor da rede pública (SP e AM) e já prestei e presto (na qualidade de consultor) serviços ao Estado, neste caso, via organizações sociais (OS).

A maioria do meu tempo desperdiçado trabalhando, no entanto, se deu em empresas privadas, em ONGs e em algumas experiências empreendedoras mais ou menos frustrantes

Tudo isso posto, não entendo muito essa louvação e essa busca pelo serviço público.

Muita gente argumenta, a título de defesa, que o serviço público oferece maiores garantias (estabilidade e aposentadoria, por exemplo).

Não acredito muito nessa conversa.

Tenho certeza que essas pessoas, no fundo, no fundo, temem competir no mercado de trabalho fora do setor público, mercado mais acirrado, mais exigente, mais competitivo, que não admite (ou admite pouco) falhas e erros e sempre exige produtividade (de preferência alta).[2]

Ou seja, é necessário ser competente para sobreviver no mercado de trabalho fora do Estado.

Notas

[1] No texto, ora se fala em Brasília, ora se fala em Distrito Federal, o que, a rigor, quer dizer a mesma coisa.

[2] A Pesquisa de Inovação (Pintec) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que apenas 8% dos pós-graduados atuam diretamente no setor produtivo (quer seja no comércio, nos serviços, na indústria ou na agropecuária). Os demais (92%) estão em universidades, ministrando aulas (e eventualmente pesquisando) e/ou exercendo cargos burocráticos e/ou administrativos.

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