Quando a crítica ao discurso nasce ruim e termina pior ainda

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Imagem autoaplicável – reprodução pracadobocage.wordpress.com

Uma professora dos interiores mineiros postou uma mensagem nas redes sociais criticando o uso da palavra “olimpíadas” para identificar os jogos olímpicos que se encerram neste domingo no Rio de Janeiro.

Segundo ela, “gente ignorante usaram (sic) olimpíadas no lugar de olimpíada”, que, para ela, é o correto, posto não estar vendo nenhuma outra olimpíada ocorrendo simultaneamente aos jogos do Rio de Janeiro.

Se eu fosse seu aluno ou colega ou da direção da escola onde trabalha estaria seriamente preocupado. Alguém que diz uma coisa dessas deve dizer outras maluquices tão ou mais graves. A começar pelo “gente ignorante usaram”…

Mas, porém, há mais profundidades na fala da professora, posto ela não ter percebido (ou não tenha capacidade para perceber) que os plurais – “jogos olímpicos” e “olimpíadas” – são cabíveis, no caso, pois o evento se refere às disputas de várias modalidades e no qual atletas (individual ou coletivamente) vão ao olimpo, ou seja, ao pódio.

Numa analogia inversa seria o mesmo que dizer não caber a palavra universidade, pois uma escola de terceiro grau assim identificada não está espraiada por todo o universo.

Nem poderia estar. Não sabemos o que ocorre para além do planeta Terra e a identificação universidade para algumas escolas de terceiro grau indica que ela abarca em seus cursos toda a gama de estudos e conhecimentos – exatas, humanas e biológicas.

Das reminiscências

O caso da professora mineira me remete à reação de um professor da escola de jornalismo recriminando um de nossos colegas que a título de escrever um texto irônico atropelou algumas regras da língua portuguesa.

Questionado, o colega esclareceu que se tratava apenas de uma “licença de linguagem”, de uma ironia (como dito acima).

O professor isolou algumas das passagens “erradas” do texto e perguntou ao colega se ele saberia dizer como elas seriam se escritas corretamente, segundo as normas gramaticais.

O colega não soube responder e recebeu (nós todos recebemos) uma lição preciosa do mestre: você pode até escrever como escreveu, mas antes deve conhecer as regras gramaticais, até para contestar quando algum chato como eu venha a lhe questionar o nível de seu texto.

Essa história me leva a outra. Quando ainda escrevia para um site chamado Primapagina, o linguista Sírio Possenti foi questionado por um dos leitores, que estava incomodado com as justificativas do linguista para com os textos que, no mais das vezes, atropelavam o “bom português”.

O leitor perguntou a Possenti se essa liberalidade que ele defendia nos discursos e nos textos da imprensa ele igualmente admitia nos trabalhos de seus alunos na Unicamp.

Possenti disse que não. Que a eles exigia a observância rígida das regras gramaticais.

Ou seja, Possenti repete a lição do professor de jornalismo.

Você pode até se aventurar pelos escorregões na língua portuguesa, mas antes é necessário conhecê-la.

Lição que parece não ter aprendido a professora dos interiores mineiros, muito provavelmente por não ter tido a oportunidade de conhecer o meu professor do curso de jornalismo e nem o linguista Sírio Possenti.

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