As contradições da crítica ao culto à personalidade de Sérgio Moro

Moro montagem
Montagem sobre Sérgio Moro sobreposta à imagem de Neymar, outro execrado pelas esquerdas. Só se esqueceram de manipular a cor da mão esquerda do jovem craque do Barcelona – montagem Boimtempo.

Não são poucos os auto definidos como de esquerda (mais propriamente definindo: militantes e aderentes ao petismo) que estão a desfechar um sem-número de críticas ao “culto” que por agora se enxerga (pelo menos eles enxergam assim) ao juiz paranaense Sérgio Moro[1], que lidera as investigações da Operação Lava Jato.

Se possível fosse (creio que não seja o caso), devessem refletir um pouco, pois é exatamente isso que fazem com a figura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Heróis de cá, heróis de lá – todos nós temos um, e, parece, gostamos de ter.

Para além do que disse Marx, a história, no Brasil, se repete rapidamente – menos como uma combinação de tragédia e de farsa, mas mais como uma recorrência tosca e infantil.

Lembram os críticos do morismo que não há muito tempo o herói da vez era o ex-juiz do Supremo, Joaquim Barbosa, que, assim como Moro, foi “lançado”, sem que pedisse, candidato à presidência da República (veja, por exemplo, em “Herói: tem para todos os gostos”, no blog da Boimtempo).

Faço minhas, como já disse acima, as palavras que dão título ao texto: herói tem para todos os gostos.

Das mudanças

Não custa lembrar que chegado ao STF pelas mãos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o “menino pobre de Paracatu” foi recebido – por essa mesma militância e pela aderência – com hurras e vivas por se enquadrar no figurino do petismo: era negro, era pobre, subiu na vida pelo próprio esforço (seria isso meritocracia?) e se tornava, assim, o primeiro exemplar das classes sociais espoliadas a chegar tão alto nos poderes da república (graças ao PT e à Lula, óbvio), sendo o primeiro negro a galgar os degraus de uma escadaria tão alta – o que era uma mentira, pois Barbosa foi o quinto homem negro a ser juiz do STF.

Mas quem liga para a mentira e para as distorções nas lutas políticas e ideológicas?

Caiu nas mãos de Barbosa a relatoria do julgamento do Mensalão do PT, que, entre outros, meteu na cadeia José Dirceu e José Genoíno.

Pronto! A aura de misticismo que o cercava (pelo menos entre petistas e aderentes) se desfez, e Barbosa passou a ser um “negro de alma branca”, um traidor, um vendido; um ser humano abjeto a ser execrado e combatido.

A história de Moro percorre caminhos mais tortuosos. Não chegou aonde chegou graças às benesses de Lula da Silva; é um sujeito de classe média, que não deve ter enfrentado as dificuldades e as vicissitudes pelas quais passou Barbosa, e, ainda, para maiores dos pecados, é um sujeito branco e de nome familiar italiano.

Com tantas “qualidades” assim dava para desconfiar o que viria a ser o juiz paranaense.

Mas Moro também se beneficiou das “benesses petistas”; pois não foi o petismo que, ao se apossar (legalmente e via eleições diretas e livres) do Planalto, deu todas as condições para “o pleno funcionamento” da Polícia Federal e, por que não, da justiça brasileira?

Então, onde está o problema? Está nos resultados de ambos os casos. O desfecho de ambos não é do agrado do petismo e da aderência. Aparenta que eles, que tanto falaram em republicanismo, quiseram obrar uma República particular, cujos resultados de sua funcionalidade não os desagradassem.

Das incongruências

Não se tire daqui que exista um culto à personalidade de Sérgio Moro, pois ela existe sim, partindo especialmente de uma parcela da população nacional que não gosta do petismo e muito menos de Lula da Silva; mas, grosso modo, o “culto de personalidade ou culto à personalidade é uma estratégia de propaganda política baseada na exaltação das virtudes – reais e/ou supostas – do governante, bem como da divulgação positivista de sua figura”.

Nesta definição ligeira, então, há que se entender que o culto se dá a partir de grupos organizados (um partido político, por exemplo) ou como estratégia de quem está já no poder: Mao Tse Tung, por exemplo, é um ótimo exemplo na história.

Não estaria, portanto, Moro enquadrado nessa categoria, assim como não estaria Barbosa, pois, em ambos os casos, a cultuação pode ser classificada como expontaneista, posto ter partido de um segmento (apenas) da população, provavelmente (diriam petistas e aderentes) insuflado pela mídia.

Ocorre que não dá para aceitar uma extrapolação tão rasteira assim; pois o que há, tanto com relação a Moro, como a que ocorreu com Barbosa, é um culto (expontaneista, repita-se), assim como há um culto à personalidade de Lula da Silva, culto este nada espontâneo, muito pelo contrário, adrede preparado e gestado por interesses partidários e eleitorais.

Nota

[1] Na foto acima, aliás como está ressaltado em sua legenda, a figura do juiz Sérgio Moro foi manipulada sobre a do jogador de futebol Neymar. A Boimtempo, que manipulou a imagem, só se esqueceu de um detalhe: a mão negra de Neymar. Moro é branco.

 

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