Imprecisões e manipulações comprometem textos até de gente com talento para escrever

Minha avó paterna, Lourdes, uma doceira de “mão cheia“, costumava manter um ritual na feitura de cada guloseima (já citei isso por aqui em outros textos). Dizia ela que se batesse a massa do bolo, por exemplo, num sentido inverso àquele que costumeiramente fazia, o bolo não “crescia” e o doce se perderia.

Um professor da escola de jornalismo (também já citado por aqui em outras ocasiões), chamado Vieirinha,  costumava recorrer a uma metáfora, ao comparar um texto ruim à possibilidade de algum motorista misturar areia ao combustível.

São testemunhos de técnicas nas artes doceira  e da escrita.

No texto Imprensa estaria poupando o vice-presidente e interino Michel Temer de críticas e cobranças (?) – de 20 de agosto deste ano – se lembrava por aqui que ‘Boulos [1], apesar de bem formado e de ter estudado em “boas escolas”, nunca primou por um bom texto. Pelo contrário, seus textos, normalmente, são bastante imprecisos (embora sempre se trate de opinião, mas a opinião não prescinde da precisão), quase sempre agressivos e, digamos assim, de “poucos modos”’.

Em ‘O Brasil e a “alucinação negativa”’,  o jornalista Flávio Aguiar [2] faz toda uma peroração sobre as amizades perdidas por conta dos atritos provocados nestes últimos anos em razão da  política nacional, confessando, inclusive, que já perdeu “Um amigo – ou ex-amigo, nesta altura – (que) virou um anti-petista ferrenho, o que é, convenhamos, um direito dele. Ele já era de direita, o que também é um direito dele. Mas extrapolou”.

Sofisticando o texto, Aguiar confessa que “Curioso, perguntei a um outro amigo meu, psicanalista, como se poderia chamar esta atitude de negação contumaz da realidade (ele estava se referindo ao não-reconhecimento dos avanços conduzidos pelo PT na presidência da república). Ele me disse que há uma qualificação clássica na psicanálise que se chama de “alucinação negativa”[3], em que as pessoas que dela são objetos se negam a ver uma coisa – até mesmo objetos concretos, por vezes, ou a ouvir algo que não querem admitir’.

O escorregão do jornalista (experiente) se dá, no entanto, logo o início do texto (e na sua sequencia, até  o final, portanto), quando lembra da ‘entrevista recente dada pela ex-secretária [4] de Joseph Goebbels [5], hoje com 105 anos (!) e a única sobrevivente do círculo próximo do Führer. Nela, a entrevistada afirma , sobre os crimes genocidas dos nazistas, que “não sabia de nada”, que só datilografava o tempo inteiro. A provecta senhora que me desculpe, com todo o respeito, mas é mais fácil acreditar que ela simplesmente não queria saber de nada desde sempre. Posto que ela até se recorda do estranho sumiço de amiga judia. Sé depois da guerra ela ficou sabendo que esta pessoa fora levada para Auschwitz. O mesmo aconteceu e acontece com gente que até hoje nega que tenha havido tortura no Brasil durante o regime civil-militar de 1964. Ou os que o querem de volta, embora haja os que querem que ele volte com tortura e tudo’.

Das omissões

Óbvio que o texto de Aguiar é uma defesa ferrenha do petismo e um contra-ataque à disseminação da ideia de  que os pouco mais de 13 anos de governo petista foram um engodo, uma enganação, uma mentira.

Mas é interessante notar que ao se referir ao  (eu) “não sabia de nada” de Brunhilde Pomsel, Aguiar tenha se esquecido (sic) do uso reiterado da mesma frase pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sua incansável tática de se defender das acusações que o cercam.

Trata-se, portanto, de um caso clássico de omissão. Um típico caso de “esquecimento” deliberado – uma tática premeditada.

Desse jeito fica realmente difícil manter amizades.

Notas

[1] Guilherme Boulos é formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), ativista político e social e membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. (wp)

[2] Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. (extraído do site Boimtempo)

[3] Freud denomina a atração de desejo primária e defesa primária como uma alucinação negativa a um  objeto que se entende como hostil.

[4] Aguiar não a identifica em seu texto, mas seu nome é  Brunhilde Pomsel.

[5] Joseph Goebbels – político alemão e ministro da Propaganda da Alemanha nazista (1933 e 1945).

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