Esquerda e direita se unem na incompreensão e no repúdio às manifestações de rua

Passagens
Manifestação contra as tarifas do transporte público – reações desmedidas e obtusas do governo federal e dos governos estaduais – foto: http://www.passapalavra.info

Quase ao final da ditadura militar (1983)[1] trabalhadores do bairro paulistano de Santo Amaro foram às ruas em protesto contra o locaute dos ônibus, contra o desemprego e contra a carestia.

O regime militar, presidido por Figueiredo, a segurança pública de São Paulo e o SNI (Serviço Nacional de Informação) davam como certo que a manifestação terminaria no mesmo dia.

Não terminou! Chegou ao Palácio dos Bandeirantes (sede do governo paulista), alastrou-se para outros bairros e pelo centro da cidade; e, nos dias que se seguiram, espalhou-se por Campinas, Rio de Janeiro, Volta Redonda, Salvador e Recife, entre outras cidades e Estados.

Comerciantes paulistanos e muitos de seus funcionários reagiram à manifestação; fecharam as portas dos estabelecimentos comerciais e, muitos, se armaram de porretes, facas e revólveres para enfrentar os manifestantes.

A moribunda ditadura já vinha sendo solapada pelas manifestações de artistas e intelectuais no Brasil e no exterior;  pelos EUA, que exigiam a imediata retomada do Estado de Direito, e pelo crescimento e resistência do sindicalismo do ABCD paulista liderado por Luiz Inácio Lula da Silva.

Figueiredo, insuflado pelo ex-presidente Geisel, escudado por Tancredo Neves e sob a complacência de Ulisses Guimarães tentou uma “gambiarra” constitucional para se candidatar a um novo mandato (agora tampão, de 2 anos) antes de entregar a presidência, via eleição direta.

Não funcionou! No ano seguinte, Figueiredo teve de passar a faixa presidencial (ele faltou à cerimônia) a Sarney (Tancredo, eleito presidente indiretamente, estava fulminado por uma diverticulite[2]).

Foram 4 anos, depois transformados em 5, de um governo-tampão mergulhado numa enorme crise econômica.

O fim da ditadura teve, ainda, de enfrentar duas grandes manifestações de massa pelas ruas brasileiras: o Diretas Já e a eleição indireta de Tancredo/Sarney.

Em ambos os casos, as manifestações sofreram com a resistência de políticos, de empresários, de militares e de parte da classe média e da imprensa.

#tamodevolta

O brasileiro só iria voltar às ruas para (ajudar a) derrubar Collor, um político alagoano insignificante, um empresário menor do interior de seu Estado, que chegou ao Palácio do Planalto graças a uma construção de imagem feita pela Rede Globo de Televisão (“O Caçador de Marajás”).

Quando Collor não interessava mais aos empresários brasileiros, arrumaram-lhe um Fiat Elba e um escândalo meia-boca, insuflaram estudantes, capturaram a esquerda e defenestraram o Caçador; não sem muita resistência de parte da sociedade brasileira que temia estar-se abrindo uma brecha para Lula da Silva chegar à presidência da república, e, os mais sofisticados, temerosos de uma ruptura institucional, e até uma guerra civil – coisa não muito comum por aqui, especialmente da segunda metade do século passado para cá.

#tamodevoltadenovo

Os governos Itamar, FHC e Lula deram a impressão de que a casa estava arrumada, que os brasileiros estavam mais ricos e que, então, poderiam tranquilamente ficar em seus lares assistindo TV e indo aos shopping center para consumir.

Junho de 2013 pegou de surpresa políticos, imprensa e parte do empresariado. Estudantes secundaristas e de terceiro grau tomaram a av. Paulista para protestar contra o aumento das tarifas no transporte público.

Quem mais se assustou com a manifestação foi o Partido dos Trabalhadores, que, àquela altura, ocupava o Palácio do Planalto pela terceira vez (agora com Dilma Rousseff) e a prefeitura paulistana, com Fernando Haddad.

Ao invés de buscar entender o protesto e dialogar com a estudantada, o PT, via militância e seus blogueiros ditos independentes ou de esquerda, especialmente o jornalista Paulo Henrique Amorim, buscou carimbar na testa de quem protestava a pecha de direitista e de ser contra os avanços sociais proporcionados por anos de petismo no governo federal.

Das reviravoltas

De olho na presidência da república, para a qual já havia sido derrotado por Lula, o governador paulista Geraldo Alckmin não se fez de rogado: botou as tropas nas ruas.

A espertalhice inconsequente e desumana de Alckmin fez crescer e espraiou os protestos por todo o país, agora inflados por todo tipo de gente, da direita à esquerda, das classes empresarias às organizações sociais que atuam nas periferias, passando, necessariamente, e como era previsível, pela classe média descontente com a ascensão de pobres e miseráveis.

Todas essas reações, em todas as ocasiões citadas acima, apenas mostram uma coisa: reacionários são todos, à esquerda e à direta, que a seus modos e lugares sempre reagem aos clamores legítimos da população, desqualificando as manifestações e buscando apenas defender o seu naco no butim ao poder.

Notas

[1] A ditadura militar durou de 1º de abril de 1964 até 15 de março de 1985, quando foi empossado José Sarney na presidência da república.

[2] Diverticulite – inflamação de um divertículo, especialmente do cólon, que pode apresentar perfuração e abscesso.

 

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