Jornalistas vestem a camisa dos patrões e isso é ruim para o jornalismo

DCM
Reprodução de página do DCM.

Não raras vezes – parcial ou totalmente – discordo e tenho críticas aos textos do Diário do Centro do Mundo e daqueles escritos pelo jornalista Paulo Nogueira, que, alias (já disse isso inúmeras vezes), foi meu colega da faculdade de jornalismo.

Os textos têm essa peculiaridade – embora não estranha a outras atividades – de poderem ser aceitos na sua íntegra, parcialmente aceitos ou não aceitos integralmente.

Nossas leituras de textos (isso vale igualmente para o audiovisual, filmes, documentários e músicas, por exemplo) têm como base nossa experiência, nossa cultura e nossos valores sociais e religiosos; e, ainda, políticos e ideológicos.

Nem sempre o que pensam e dizem os autores batem com os nossos valores individuais, daí as discordâncias.

O texto A cobertura repulsiva da Globonews sobre a fase final do julgamento do Senado (de Paulo Nogueira), de hoje, entraria na minha galeria pessoal dos “bem aceitos”, tirando os exageros de praxe no jornalista, como o uso, em tom agressivo e acusatório, de: “vomitando”, “patada nela”, “amiguinhas no recreio do colégio”, “três comadres”, “três comadrinhas”, “pseudojornalistas”, “repórter patético” e “fâmulos[1] dos patrões”.

Não sei se o jornalista tenha usado palavras e expressões tão duras e hostis nos tempos em trabalhou na Editora Abril e na Rede Globo para falar de colegas de profissão; embora creia que não.

Das vestimentas

Uma das coisas que mais me irritaram na minha relação com os patrões que tive (empresas privadas) e nas organizações não governamentais (ONGs), às quais servi, foi ouvir a expressão “vestir a camisa” (da empresa ou da organização).

Um de meus ex-patrões, pouco atento aos meus maus modos, me fez uma reprimenda, dizendo que eu deveria “vestir a camisa da empresa”.

No meu jeito civilizado de ser, respondi-lhe que minhas camisas comprava e vestia eu, e o que ele me pagava para trabalhar (como de resto para todos os outros funcionários/trabalhadores da empresa) era menos do que deveria(mos) receber.

Sempre entendi a frase “vestir a camisa” como um insulto ao trabalhador, uma forma de rebaixá-lo à condição de mera peça de uma engrenagem que traz apenas benefícios e ganhos ao patrão.

Pois é exatamente nesse ponto que o texto de Paulo Nogueira acerta: a transformação, pelas empresas de comunicação, de jornalistas em meros fâmulos, a servir os interesses patronais e corporativos-empresariais.

Esse tipo de jornalista parece não ter percebido, ou não queira perceber, que é mera peça de engrenagem e, como peça, descartável e substituível.

Das responsabilidades

Estou a buscar na minha pequena biblioteca um livro editado pela Universidade de Brasília (UnB) que navega por essas águas, mas em sentido oposto ao meu: o texto, em seu todo, culpa (apenas) o patrão/empresário pela submissão do jornalista aos seus gostos e interesses. Um dia o reencontro e faço um texto sobre ele.

Mas não tenho como concordar com o seu teor. Somos todos livres para decidirmos sobre as nossas vidas.

Não se perca aqui, porém, que pessoas (trabalhadores) têm necessidade de trabalhar e de receber pelo trabalho, mas não se perca de vista também que nada e ninguém está no direito de nos exigir comportamentos que extrapolem aos nossos afazeres.

Mas se mesmo assim os aceitamos, teremos, mais cedo ou mais tarde, de dar conta do infortúnio à nossa própria consciência.

Nota

[1] Fâmulo – serviçal, criado.

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