Leituras superficiais destroem debate político e aprofundam crise de acesso à informação

Triplex
Condomínio Solares é dor de cabeça para o ex-presidente Lula e para quem não consegue entender textos simples. Foto: oglobo.globo.com

O século passado, no auge do neoliberalismo, um mecanismo de leitura prometia cria uma legião de gente culta e de sábios (detentores do saber). O modismo, que, aliás, não era novo, estendeu-se da fase de alfabetização de crianças até aos adultos profissionais, muito especialmente aos chamados “executivos“, que não podiam perder seus preciosos tempos, dedicados todos eles que estavam à produtividade das empresas e ao enriquecimento pessoal; para os quais, portanto, não cabia gastar tempo com demoradas leituras e reflexões sobre o que se lia.

Foi a grande era da leitura dinâmica que prometia “uma forma de ler os textos de maneira rápida e clara, com o mesmo entendimento, apesar da maior velocidade” (esta definição, por exemplo, está no site InfoEscola).

No âmbito profissional, no entanto e na prática, o modismo gerou uma horda de gente sem qualificação, de precário conhecimento dos mecanismos sociais e de baixa capacidade produtiva.

Sem conhecimento e sem condições de refletir sobre questões mais complexas, o que se viu foi o crescimento de meros cumpridores de ordens (não de executores, como se definia então) e de reprodutores insensíveis, de perfil conservador e ideologicamente de direta.

Dos aprofundamentos

Se num país como o Brasil, por exemplo, o índice de leitura (a relação entre o número de obras publicadas X o número de leitores) já era baixo (precário), o crescimento no uso da internet e o surgimento das redes sociais agudizaram ainda mais o problema e rebaixaram ainda mais a capacidade de compreensão de textos e, por que não, de mensagens e de informações disponibilizadas em áudios e vídeos.

Um exemplo clássico dessa incapacidade bombou na internet, no início deste ano, quando uma jovem estudante, que participava dos protestos anti-governo na avenida Paulista (SP), ao ser entrevistada por um canal de TV socorreu-se da mãe, que estava ao lado, pedindo que ela confirmasse ou não ser ela, a jovem, “de direta”.

Não é necessário citar aqui inúmeros casos parecidos, mas é sempre bom lembrar os exemplares dizeres de uma faixa portada nos protestos pedindo “intervenção militar constitucional” e, por consequência, a deposição legal (sic), via golpe militar, da presidente da república, eleita pelo voto direto e popular.

Das profundidades

Muito embora os exemplos acima possam dar a entender ser este um fenômeno que acomete apenas “gente de direita”, há que se acrescentar, no entanto, que esta razia é democrática e universal, abrangendo, também, gente dita de esquerda ou que se identifica como tal.

Talvez o acirramento dos confrontos políticos e ideológicos a partir de 2013 possa ser apontado como uma das causas (se não a principal causa) na pressa como lê as informações, o que, por consequência, leva à incompreensão do que foi dito e a uma distorção no seu entendimento.

Não é esta, no entanto, uma boa explicação, posto que boa parte das pessoas que, por exemplo, postam e leem na internet e nas redes sociais possuem tempo de sobra para outros afazeres não-produtivos, tanto na web quanto fora dela.

Das pendengas político-ideológicas acabou-se por originar dois outros fenômenos: 1) a leitura daquilo que apenas interessa e faz coro ao partidarismo e/ou à ideologia do leitor e 2) a leitura fracionada de textos.

Das exemplares

São inúmeros os exemplos que se pode tomar para um bom estudo de caso, mas por aqui se fica com o do Tríplex do Guarujá, que envolve o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, familiares e empresários.

Semana passada, a Polícia Federal divulgou informação dando conta que, finalmente, se identificou o nome da proprietária do imóvel, uma publicitária que prestou serviços ao ex-presidente e ao seu partido, o PT.

Ontem, sexta-feira, a mesma PF indiciou Lula, sua esposa e mais algumas pessoas “sob suspeita de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica no inquérito que investiga a propriedade do tríplex” (veja, por exemplo, aqui).

O primeiro anúncio, o da semana passada, provocou alvoroço (positivo) entre os defensores do ex-presidente, em seu partido e no próprio Lula, já que, finalmente, estava provado que o ex não tinha nada a ver com o imóvel do Condomínio Solaris.

O segundo anúncio, o de ontem, igualmente provocou alvoroço (negativo): “Mas como? Se ele não é dono do imóvel, porque está sendo indiciado? Isso é perseguição política e ao Lula”.

Ninguém pode ser suficientemente ingênuo a ponto de acreditar que as reações, nos dois casos, sejam apenas espontâneas e que não haja manipulação (desinformação/contrainformação) cuja origem está não apenas no partido do ex-presidente, como nele próprio.

Mas há de outro lado, e em sua maioria, um quê de ingenuidade e de incapacidade de ler e de entender o que se lê.

Se, no primeiro caso da semana passada, a PF identificou a real proprietária do imóvel, ela também afirmou que as investigações prosseguiam para, também, identificar quem estava “por trás” da aquisição e de onde era originado o dinheiro destinado à compra.

Já no caso de ontem, a Polícia Federal não informou estar indiciando o ex-presidente Lula por ser proprietário do imóvel (até porque ter ou comprar imóvel não se constitui em crime). Indicia-se o ex-presidente e demais pelos crimes, no caso do imóvel, “de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica”.

Como se vê, a superficialidade e/ou a falta de leitura e a incapacidade de entender mensagens simples (como no caso) são problemas seríssimos que deveriam ser sanados ou pelas escolas ou através de esforços individuais.

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