Então, por que as feministas desapareceram?

Feminismo
Torcedores assistem Santos e Rio Preto, ontem, no primeiro jogo da final do Paulista feminino de futebol, na Vila Belmiro, em Santos – foto: Moacyr Lopes/Folhapress.

A foto acima, da Folhapress, mostra dois torcedores [1] assistindo ontem, na Vila Belmiro, à primeira partida entre Santos e Rio Preto, na final do campeonato paulista feminino de futebol. Claro que uma foto é apenas um recorte de um dado momento, por isso mesmo incompleto e, por que não, injusto. Sempre tive curiosidade em saber o que apareceria para além das fronteiras das fotos e dos quadros (pinturas), mas isso nunca aparece e nem nos é mostrado.

Mas não se assuste com a crueldade chocante da foto acima: os dois torcedores são homens, os malditos machistas e sexistas; mas havia mais torcedores (+ 698), alguns deles (minoria, é verdade), torcedoras.

Nos jogos olímpicos do Rio, recém-acabados, o futebol feminino foi bandeira de luta do feminismo contra a opressão e o machismo no futebol. Era Marta, mais 10 e mais uma imensa maioria (a média de público da seleção brasileira feminina nos jogos registrou 40 mi torcedoras/es).

Mas o perrengue foi mais do que isso: foi uma luta político-ideológica contra a homarada que não ganha mais nada, que havia sido humilhada, há dois anos, pela Alemanha, no Mineirão, e contra Neymar, guindado ao posto de demoniozinho de ocasião, por ter a ousadia de apoiar Aécio Neves (PSDB/MG) na eleição presidencial de 2014.

Mesmo se estivéssemos numa ditadura eu iria achar um bocado estranha essa censura ao craque do Barcelona e da seleção nacional.

Das durezas

Fritados todos os ovos, ficou que Marta, mais 10 e mais a imensa maioria não levaram nem mesmo uma mísera medalha de bronze para casa, enquanto Neymar e companhia (como se costuma dizer no futebol masculino) levaram o ouro, que se não resgata o prestígio do futebol brasileiro (como gostam de dizer os apressados de sempre) pelo menos deu um refrigério à combalida, humilhada e esquentada cabeça do torcedor brasileiro.

Ovos todos fritados e voltando todos nós para casa, um pouco desiludidos, um pouco eufóricos, tem-se que a realidade do futebol feminino está estampada na foto cruel acima, menos por machismo e falta de investimento (que falta mesmo, reconheçamos), mas mais pela péssima qualidade do esporte praticado pelas mulheres.

Faço parte daquele enorme rol de pessoas que acha o futebol feminino um troço horroroso.

Das inconsistências

Mas não percamos a conexão, pois tudo tem a ver com a conturbação político-ideológica pela qual passa o Brasil neste momento.

Neste particular, Neymar é elo que liga a euforia passageira pelo futebol feminino ao impeachment de Dilma Rousseff.

Não poucas, se não a totalidade das femininas, acusam o processo de impeachment contra Dilma de coisa de homens; machista, sexista; de brancos, gordos e corruptos.

A arenga discursiva se esfarela em si mesma, pois nela não cabem o processo de impeachment contra Color e as duas ou três tentativas de impichar FHC.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff tem outros fins e objetivos que passam necessariamente pelo butim aos cofres públicos e por privilegiar com poder e com dinheiro quem já os tem.

Das evoluções

O minimalismo político-ideológico proposto pelas feministas durante os jogos olímpicos do Rio e a ausência ou a carência delas e de outras mulheres nos campeonatos femininos regionais/locais nos levam necessariamente a outra ausência sentida: onde estão os/as negros/as nas lutas para a sustentação de Dilma Rousseff na presidência da república?

Existem, mas são poucos/as e passam quase despercebidos/as.

Mas não seria o petismo na presidência (Lula e Dilma) que mais avançou nas lutas inclusivas dos/as afrodescendentes?

Então como explicar essa ausência ou quase ausência?

A ausência (ou quase ausência), em ambos os casos, guarda em si uma explicação bastante simples: há uma distância enorme entre aquilo que se discute, que se fala e que se prega daquilo que se pratica, que se faz e que se executa.

Talvez seja sensato e oportuno diminuir essas distâncias.

Leia também

A história de mulheres que torturam, agridem e matam (El País)

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Nota

[1] Futebol feminino volta à precariedade cotidiana após a Olimpíada – http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2016/08/1807661-futebol-feminino-volta-a-precariedade-cotidiana-apos-a-olimpiada.shtml

 

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