O brasileiro é um ser bidimensional: egoísta e supersticioso

Blair
Linda Blair, em “O exorcista” – ou como nosso cotidiano e nosso futuro são mais excêntricos e apavorantes – foto: vwww.cinemaemcena.com.br

Duas histórias cotianas [1], daquele tempo no qual ainda usávamos calças curtas (não existiam bermudas ainda) e calções puídos (na maioria das famílias não havia dinheiro suficiente para a renovação constante do “guarda-roupa”) ilustram as palavras-chave do título.

Próximo ao centro da cidade, creio que num bairro que mais tarde passou a se chamar São Joaquim, havia uma bica, uma fonte de água, da qual boa parte da população cotiana se socorria por alguns motivos: 1) água tratada e encanada era produto raro, 2) a água tratada era cara e 3) a água da bica era pura.

A prefeitura construiu uma caixa de concreto para proteger a fonte e afixou nela um cano que facilitava a coleta da água pela população, normalmente feita em panelas, baldes e garrafões.

Com a chegada das primeiras indústrias, já em meados dos anos 60, a cidade começou a crescer, a população aumentou e se espalhou para a periferia próxima, como era o caso do São Joaquim.

Era uma população de baixa renda que sem maiores condições para ter acesso à água encanada para usos gerais em suas casas não se fez de rogada: tirou a tampa da caixa da bica e transformou a fonte em um espaço para se lavar roupas e utensílios domésticos.

Na mesma época, a pouco mais de 400 metros de onde morava minha família (no bairro Nossa Senhora do Monte Serrat) foram construídas três casas de arquitetura igual e destinadas ao aluguel.

Por um tempo, morou na casa do meio um casal e mais uma pessoa adulta que produziam linguiça artesanal. Menos de dois anos depois o trio desapareceu da cidade, provavelmente fugindo da inadimplência do aluguel.

Uma ou duas semanas depois do sumiço do trio, os vizinhos começaram a sentir um fedor[2] vindo da casa fechada. Ato contínuo, espalhou-se pelo bairro e depois por toda a cidade que o trio estava morto, provavelmente assassinado ou vitimado por um suicídio coletivo. Os cotianos se dividiram entre uma ou outra versão.

O mistério das mortes só foi desvendado quando o proprietário das casas, juntamente com alguns policiais (o caso era grave e, portanto, a presença da polícia era necessária), entrou no imóvel para descobrir que se seus inquilinos fugiram da inadimplência, esqueceram (ou fizeram de propósito) de levar junto alguns quilos da linguiça artesanal.

Das misturebas

Em países (como o Brasil) de ocupação forçada pelo expansionismo europeu do século 16, de pouca atenção para a educação do povo e ainda transpassado pelo misticismo religioso da Idade Média e pela religiosidade dita primitiva de índios e negros africanos, não é de se espantar a popularização de comportamentos egoístas e supersticiosos.

Acossada pela ignorância e pela pobreza, a população tende a se apropriar de espaços e de coisas que são públicas/coletivas, como se fossem suas exclusivamente, e a se esconder atrás de soluções mágicas, que a separam do conhecimento formal (técnico e acadêmico) e a empurram para um tempo futuro (quase sempre localizado no pós-morte), mas, antes, a confinam a um presente a ser vencido ou suportado, cheio de bruxas e duendes, de figuras más e perversas.

O “esquecimento” do passado e a recusa em se reconhecer fatos e acontecimentos (muitos dos quais ocorrendo no próprio presente da população) são estratégias de defesa.

É melhor (e mais cômodo, mesmo que doloroso) “esquecer” do que buscar conhecer e entender, até porque buscar conhecer e entender é trabalhoso, e mais trabalhoso ainda quando falta à população a base da educação ou, pelo menos, a popularização do conhecimento, por exemplo, via meios de comunicação.

Das desmemórias

Não nos é surpreendente, portanto, que uma parte considerável da população nacional não conheça a sua origem; não saiba como e porque que por aqui chegaram os portugueses; quem foram os nossos imperadores e quem foram e são nossos presidentes; ou, ainda, que este país (a história dele) é repleta de convulsões sociais e já tenha sido vitimado, pelo menos, por duas ditaduras, que, a rigor, são responsáveis pela supressão de direitos, pela perseguição a adversários e inimigos, pela repressão injustificada às pessoas (principalmente as mais pobres).

Não se faz nexo entre as coisas e, num país como o nosso, nem é possível fazer.

Das evidências

No entanto, não há que se fazer relação formal e exclusiva (a despeito do que se exemplificou acima) da “ignorância” com as camadas mais pobres da população brasileira. A incapacidade de conhecer e de resgatar experiências e histórias não é exclusividade delas, muito pelo contrário, é matéria-prima presente em todas as camadas sociais, que também são vítimas da precariedade da educação e reféns das superstições.

A propósito, hoje na Folha de São Paulo, o jornalista Elio Gaspari (O que vem a ser o golpe de 2016) tangencia a questão (com o viés político-ideológico, é verdade), ao lembra que há poucas décadas Aloysio Ferreira, José Aníbal e Dilma Rousseff estiveram “do mesmo lado”, mas, hoje, numa eliminação estúpida de história e de experiências, estão em fronts [3] diferentes e divergentes, como se o passado nada importasse, e a história e as ideologias fossem, apenas, matérias-primas a serem moldadas ao gosto e às necessidades de cada um.

Notas

[1] Referente a Cotia, município da Região Metropolitana de São Paulo.

[2] Fedor ou fedô – mau cheiro; odor desagradável.

[3] Front – palavra inglesa usada em Português também como “fronte” – conjunto de unidades mais avançadas num confronto militar (p.ex. in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

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