Ofensas pessoais são bumerangues que apenas voltam ou como o ódio tende a crescer no país

Odio
Em roda-viva, combatemos o ódio destilando o ódio / Ilustração – atarde.uol.com.br.

À luz da lua e das estrelas a frase do título não faz sentido e equivale à de Paulo Maluf [1], que, no início da semana, disse não ter sido preso, mas solto. Maluf se notabilizou (ao lado dos inúmeros processos a que teve e tem de responder) por obrar frases amalucadas, como Paris ser a Cidade Luz, pois, segundo ele, a capital francesa tem um bom sistema de iluminação pública.

É difícil saber quando Maluf está fazendo apenas ironia ou quando ele está realmente dizendo coisas estúpidas como nos casos acima.

Talvez ele e eu possamos entrar para o ranking das frases mais idiotas de todos os tempos.

Ninguém pode ser solto caso nunca tenha sido preso, assim como Paris é a Cidade Luz não por conta da qualidade de sua iluminação pública, mas por, especialmente, até mais ou menos meados do século passado, ter abrigado e acolhido centenas, talvez milhares, de artistas, escritores e filósofos.

Dizia-se, à época, ser impossível andar pelas ruas e bulevares parisienses sem tropeçar em algumas dessas figuras, assim como é impossível andar por Brasília, hoje, sem dar de cara com alguns corruptos e golpistas e com místicos de todos os credos.

Dos arremessos

O bumerangue é um objeto (artefato) australiano (mas que também aparece em outras culturas), destinado, primariamente, à caça, e que mais recente virou esporte e recreação.

O objeto tem formatos diversos e é construído de matérias-primas também diversas. Temos de arremessá-lo mais ou menos da altura de nosso peito, e, como recreação ou esporte, ele deve voltar às nossas mãos, caso não atinja, na sua trajetória, algum obstáculo.

Já tive um, comprado pelo correio; supostamente ele era australiano, coisa na qual não acreditei. Parecia apenas uma cópia, assim como o são aqueles supostos arcos e flechas de índios vendidos em feiras de artesanato.

Minha sugestão, especialmente para as pessoas mais jovens, é que deixem um pouco de lado os jogos eletrônicos e o pokemon go e comprem um bumerangue. Poderiam sofisticar o lazer e o divertimento e passar a jogar vôlei e basquete – são divertidos, fazem bem à saúde e aprimoram o físico.

Das ofensas

Segunda-feira um sujeito que não conheço entrou no meu perfil do Twitter para me chamar de “peteba”. Não conheço o sujeito, ele não segue meu perfil da rede e nem eu o dele; só deu para perceber que se trata de um cara jovem de Comodoro, no Mato Grosso, provavelmente soldado do exército ou policial (dedução tirada por mim por conta do corte de seu cabelo e pela sua fisionomia).

“Peteba” é um neologismo ofensivo, criado a partir da fusão das palavras “petista” e “ameba”; assim como “petralha” o é de “petista” com “metralha”, esta uma redução de “Irmãos metralha [2]”.

O mundo do ódio é muito estranho; enquanto o sujeito de Comodoro me chamava de “peteba” no Twitter, no mesmo dia e quase à mesma hora, um petista me chamava de “coxinha” no Facebook.

Dos desdobramentos

É de relevância pequena a conclusão do processo de impeachment, ontem, da presidente Dilma Rousseff. Há um mal-estar no país que vem desde a abolição da escravatura, das leis e iniciativas protetivas às comunidades indígenas do início do século 20, do fim da ditadura militar em 1985 e da subida do petismo ao poder em 2003.

Aquilo que estava “oculto” e sempre foi “óbvio” (aqui, em uso abusivo, mas não despropositado, da letra da canção “Um índio” de Caetano Veloso) veio às ruas e às janelas a partir dos protestos de 2013.

Não há de se ter ilusão, portanto, de que o “ódio” esteja estanque, a partir de agora, por conta de um procedimento institucional cometido pelo legislativo federal e acobertado e referendado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Esta carroça ainda vai rolar muito por ruas, estradas, praças, caminhos e trilhas brasileiras, muito provavelmente em passos ainda mais apressados.

A questão de fundo é que há (sempre houve) uma ruptura que separa as camadas sociais brasileiras, ruptura esta que não se remenda com aquelas colas instantâneas ou com durepox.

No perrengue político-ideológico que se agudizou a partir de 2013, se deixou de lado os embates das ideias (da ideologia) por se preferir, num primeiro momento, os embates político-partidários e, posteriormente, as agressões pessoais.

É nessa armadilha na qual caímos todos, e é nesse lamaçal no qual nós todos estamos chafurdando.

Ocorre que as ofensas pessoais mais mostram o que somos nós, os agressores, do que aquilo que gostaríamos que os agredidos fossem; até porque eles, os agredidos, são o que são (seja lá isso o que for) e sobre eles não temos nem domínio e nem conhecimento.

Notas

[1] Paulo Salim Maluf – empresário e político paulista (PP – Partido Progressista), hoje, deputado federal.

[2] Irmãos Metralha (The Beagle Boys em inglês) – quadrilha de ladrões atrapalhados das histórias em quadrinhos e dos desenhos animados da Disney, e que têm como alvo predileto a fortuna de Tio Patinhas (fragmento retirado da Wikipéia).

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