Campanhas de boicote são ineficientes caso não interessem à população

boicote
Campanha e desfiles – um raro acerto brasileiro – foto: jsb.org.br

A primeira campanha de boicote da qual me lembro foi desfechada, no Brasil, contra o refrigerante coca-cola por um padre italiano que morava no antigo Estado de Mato Grosso (antes da divisão territorial que deu origem ao Mato Grosso do Sul).

Os argumentos usados pelo religioso católico (os mesmos usados no exterior de onde copiou) era ser o refrigerante viciante (um de seus componentes, à época, era um alcaloide derivado do arbusto Erythroxylum coca [1]) e nocivo à saúde, especialmente das crianças.

Poucas centenas de pessoas, se tanto, participaram do boicote.

Anos mais tarde outra campanha de boicote prometia barrar o acordo nuclear Brasil-Alemanha, que deu origem às usinas termonucleares de Angra dos Reis (RJ) [2].

Como no caso anterior também não funcionou.

Algumas campanhas podem até funcionar. São vários os exemplos, como a campanha pela abolição da escravatura e a nacionalista “o petróleo é nosso”.

Mas, nesses casos e em outros similares, não se tratou de campanhas “contra” ou de “boicote”, mas a favor, especialmente se o mote da campanha vier a ser uma causa humanitária (contra a escravidão) ou em defesa dos interesses nacionais (petróleo).

Mais recente, uma série de boicotes visaram à imprensa, especialmente a Rede Globo. Nenhum deles funcionou e, pelo menos no caso da Globo, teve feito contrário: cresceu o índice de audiência da emissora, com reflexos no jornalismo e nas novelas, por exemplo.

Em artigo publicado ontem no site Outras Palavras, Reginaldo Nasser, chefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP e professor do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP), pergunta “E se boicotarmos a Folha de S.Paulo?”.

Nasser inicia o texto dizendo que:

Creio que desde o inicio da década de oitenta, nos estertores do período ditatorial,  estamos debatendo uma série de questões relacionadas à mídia e democracia. O que é mais angustiante é que após anos de muitas lutas parece que sempre voltamos ao ponto inicial. Atingimos a intensidade máxima desse debate com a participação e ou conivência de boa parte da mídia na arquitetura do Golpe em curso.

E o finaliza com a sugestão de boicote:

Será que não devemos pensar em outras formas de ação? O boicote, por exemplo. Boicote de articulistas, especialistas e, claro, de assinantes. Não tenho nenhuma certeza sobre isso, mas será que não valeria a pena tentar? Creio que com o boicote o jornal que já disse, certa vez, que  tem ‘rabo preso com leitor’ ficará, simplesmente, sem rabo!”.

O último parágrafo do texto de Nasser já antevê o desfecho da campanha: “Não tenho nenhuma certeza sobre isso”.

Que o país adernou à direita e que parte da mídia colaborou com o fenômeno, pouca gente pode duvidar.

A questão, no entanto, é se ações pontuais, localizadas e restritas a pequenos grupos funcionam.

A história indica que não; pelo contrário, mostra que apenas a participação maciça da população, seja por ações espontâneas e/ou de grupos organizados, pode recolocar, como no caso, o país de volta à normalidade e de respeito aos direitos humanos.

Das contribuições

A propósito da crise, de suas origens e razões e dos rumos que o Brasil está tomando seguem abaixo cinco textos bastante relevantes.

Alguns são bastante longos, o que deve espantar a maioria dos leitores; mas todos eles deveriam ser lidos com bastante atenção.

Aquarius, uma fresta para o futuro, de Cristina Martins Tavelin (Outras Palavras).

Caça às bruxas: a pré-estreia da “Escola sem Partido” , de Andrea Dip, na Pública (Outras Mídias).

Kenarik Boujikian: A polícia vandaliza o direito de protesto (Opera Mundi).

O “petismo” como problema moral, de Mauro Iasi (Blog da Boimtempo).

Sobre mesóclises, mediocridade e a ameaça fascista , de Fran Alavina (Outras Palavras).

Notas

[1] O refrigerante (atualmente) tem como ingredientes aromatizantes naturais, água gaseificada, açúcar, cafeína, extrato de noz de cola (*), corante caramelo IV, acidulante ácido fosfórico.

(*) A noz-de-cola (também chamada de abajá, café-do-sudão, cola, mukezu, obi, oribi e orobó) é o fruto das plantas pertencentes ao gênero Cola da subfamília Sterculioideae (Malvaceae).

[2] O acordo nuclear Brasil-Alemanha foi assinado em 1975 e visava a construção de oito reatores nucleares no litoral sul do Rio de Janeiro para a produção de energia termonuclear. Até hoje foram construídas apenas duas das oito usinas previstas inicialmente.

 

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