“Aquarius” é um filme com boas surpresas e um bocado de clichês

aquarius
Reprodução

Comecemos pelas coisas boas: o elenco.

Exceção é Bárbara Colen, a Clara dos anos 80, que ainda teima em entender que atuar é balançar os braços e fazer careta.

Os outros todos estão ótimos, principalmente os mais jovens.

Essa gente (não os conheço) deve ter feito escola de interpretação ou coisa do gênero.

É um avanço em relação aos velhos canastrões do cinema nacional, tipo José Wilker, Fernanda Montenegro e quetais.

Os tais dos intuitivos que acham que interpretar é ter talento “nato”.

Já disseram isso também do futebol e do samba.

Para ambos, segundo os brasileiros, não era preciso estudar e aprender, porque já se nascia sabendo.

O samba está quase morto e nunca conseguiu chegar nem ao Paraguai.

O futebol a gente sabe como anda.

Sônia Braga

Sônia Braga merece uma palinha à parte.

Semana passada ela disse, em tom de ironia, que não era atriz.

Não era mesmo, mas virou atriz.

Quando ela tinha bunda e peitos para mostrar (e por isso fazia sucesso), Sônia Braga já era um bocado esforçada, inteligente e determinada.

Lutou como ninguém para aprender a interpretar e aprendeu muito.

Está soberba no filme. Extraordinária! Só por “Aquarius” merecia uma porção de prêmios.

Filme nacional

Quem me conhece mais de perto sabe da antipatia que tenho pelo cinema nacional.

Reluto em ver algum filme feito por aqui (só fui hoje porque minhas filhas Pacira e Mariana me convidaram), e não gosto de filmes brasileiros por quatro razões: pelos artistas, pelo roteiro, pela direção e pela qualidade técnica.

Elenco/atores

O que tinha a dizer sobre os atores de “Aquarius” está dito acima.

Roteiro/enredo

A história é banal, cheia de clichês no meio para tentar segurar o espectador, com diálogos longos e inúteis: por exemplo, quatro ou cinco mulheres falando por mais de 10 minutos num forró do Recife.

Se alguém quiser ver um filme com a mesma temática, e muito bom, deveria assistir “Uma nobre intenção”, um filme belga, que não se perde em encher linguiça para alongar a história.

Em “Aquarius” há muitas passagens como essa, longas e inúteis.

Se tirarmos todas, dá um curta de uns 15 minutos.

Direção

É sofrível e apenas leva adiante alguns clichês que devem estar no roteiro.

Por exemplo, gente ouvindo música e balançando a cabeça dentro de um carro. Coisa típica do cinema para jovens norte-americanos.

Outro: um diálogo entre Sônia Braga e a empregada, na qual a câmara vai pra lá e vai pra cá sem nenhum corte (coisa típica do cinema nacional).

Quem editou o filme deveria nos ter livrado dessa e de outras.

Técnica

Há muita coisa tenebrosa no filme, mas só colocar os sonhos/pesadelos de Clara (Sônia Braga) numa espécie de penumbra é das coisas mais pavorosas e grotescas que já assisti.

Público

O público era pequeno para a fama do filme e para um sábado de final de tarde e início da noite.

Há uma campanha para boicotar “Aquarius” por conta daquelas manifestações do mês passado em Cannes.

Pode estar funcionando, mas não se pode perder de vista que filme brasileiro + mais filme brasileiro muito longo + mais filme brasileiro cheio de clichês não é exatamente um produto vendável, muito pelo contrário, é um prato indigesto.

E para o cinema o boca-a-boca funciona. Se meu amigo ou parente não gostou por que eu vou gastar meus parcos trocados para ver um troço desses?

Discurso

Aquarius” tem um discurso claramente petista, aquele da luta do bem contra o mal, da opressão das elites pra cima das camadas mais pobres da população, ironicamente chamado de “vitimismo”.

Nem mesmo Cuba escapa da propaganda. A bandeira cubana, logo no início do filme, aparece grudada à brasileira.

A Clara, de Sônia Braga, não é exatamente uma pobre coitada. Pelo contrário, tem cinco apartamentos, foi jornalista e é escritora.

Mas ela faz um tipo muito caro ao petismo: é uma mulher oprimida por um bando de macho, qual seja, os empreendedores.

Heroína

Clara (Sônia Braga) de heroína da resistência acaba por se transformar, no final, em uma super-heroína ao confrontar a elite (a construtora) em seu próprio bunker.

O filme termina aí como a provar que atitudes heroicas e quixotescas nos levam a algum lugar.

A história do cupim (que aparece no final, graças a uma delação não premiada, e de cunho moralista) é absolutamente inverossímil e muito ruim.

Especialmente levando-se em conta que o jovem engenheiro opressor acaba de voltar dos EUA onde se formou em “business”; seja lá o que isso queira dizer.

Nem o presidente da Coreia do Norte pensaria numa malucagem dessas!

Lutar sempre, desistir jamais!

O que mais deixou os espectadores atônitos foi que Clara, em momento algum, socorreu-se da polícia (no caso, por exemplo, da bacanal ensurdecedora que aconteceu no apartamento do andar superior ao seu) e nunca, durante seus confrontos com a construtora, lembrou-se uma vez sequer de se socorrer da Justiça, via Ministério Público.

Mensagem petista mais clara do que essa impossível: a polícia e a justiça não funcionam para os pobres e oprimidos. Apenas para os opressores e a elite.

Acho que a gente já ouviu esse discurso em algum lugar.

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